Domingo, 15 de Novembro de 2009

A noite mais escura

 

 

 

 

 

Rio de janeiro, Leblon. Noite quente de Novembro.

 

- Márcia….Márcia. Não te esqueças das horas, tens que ir buscar a tua irmã…

- Sim, mãe… tem tempo. Ainda são dez horas.

 

A mãe cruzou os braços, como sempre fazia quando já pressentia o desenrolar de uma história.

- Márcia… nem mais um minuto. Levanta-te e vai buscar a tua irmã. Podes apanhar trânsito, não quero que ela fique lá sozinha à espera…

A filha ainda tentou esboçar um "mas" - inutilmente, conhecia bem aquela expressão da mãe - e lá acedeu, contrariada, a desligar o pequeno computador.

- Sabias que és muito chata? - e deu-lhe um beijo, enquanto apanhava a carteira e as chaves do automóvel. - A tua sorte é que eu te adoro…

A mãe riu-se.

- Claro, claro…. Vá, despacha-te…

 

Deixou-se cair sobre a poltrona, defronte da televisão.

- Finalmente…. Um pouco de descanso… também mereço…

 

São Paulo, avenida paulista. Noite quente de Novembro.

 

- Tens a certeza? Nem um chopinho?

- Nah…. Hoje não pode ser…. Já viste a pilha de processos que ainda tenho aqui em cima da mesa?

- Já… já vi. E tu por acaso já viste que horas são? Dez horas.

- Eu sei, eu sei…. Vou só ficar mais um pouco, talvez meia hora…. Mas tenho mesmo que despachar mais alguns, tenho o arquivo todo desactualizado…

- Muito bem…. Olha, se mudares de opinião, estou no barzinho do costume…

 

Acenou.

Quando o colega saiu, o silêncio - exceptuando o zumbido do ar condicionado - era total.

 

- Bem… vamos a isto - resmungou para si próprio - ataquemos a maldita pilha dos pendentes…

 

 

Rio de Janeiro, Leblon. Noite quente de Novembro.

 

- Estou farto, Jô. Estou farto…

- Por favor… não faças isso…. Wilson… acalma-te…

- Não… não aguento mais… dizes sempre o mesmo… e voltas a fazer, uma e outra vez…. Não aguento mais…

- Wilson… foi sem querer… estava no bar…

- Não… foram muitas vezes sem querer, Jô… muitas vezes, mesmo…. Não consegues resistir, é mais forte que tu…

- Jô… pára. Acabou.

 

E sem mais, saiu porta fora.

 

Imóvel no meio da sala, o ex-companheiro ficou a vê-lo desaparecer no corredor.

- Não vás… - ainda tentou gritar. Mas a garganta permaneceu muda, o nó demasiado apertado para mais lamentos que o simples silêncio.

Fechou a porta devagar. Desligou as luzes e encostou-se à varanda, observando a praia, a avenida concorrida, os faróis coloridos dos automóveis e os pirilampos vermelho-azuis dos carros da policia, de um lado para o outro.

 

E foi no preciso momento em que o semáforo mudava para verde… que tudo se apagou.

De repente, uma escuridão estranha abateu-se sobre a cidade. As luzes dos apartamentos, os semáforos, os candeeiros da avenida, os neons, os placards de publicidade, os lampiões pendurados nas esplanadas da praia… envolvidos no breu da noite.

De repente, a única claridade resumia-se ao branco-vermelho dos faróis dos automóveis, rasgando feixes de luz por entre a escuridão.

 

- Esta agora… um apagão?

 

Um pouco por toda a parte, uma multidão desesperada percebia a ausência da energia. Desde o comerciante - casa cheia de clientes, prateleiras cheias, ao elevador do prédio ao lado, parado bem entre o segundo e terceiro piso, a televisão resumida ao silêncio, os frigoríficos quentes, as ventoinhas de tecto imóveis, alguns semáforos laranja intermitentes, outros apagados. Medo, insegurança, escuridão, o ancestral medo da noite escura.

 

- Logo agora? Não podiam ter esperado pelo fim da novela? - e a mãe de Márcia lá se levantou, encaminhando-se para a varanda. - Que altura para falhar a energia…

No exterior, nada.

- Nunca tinha visto nada assim… - ouviu uma voz, bem perto de si.

Olhou sobre o ombro, a claridade dos faróis projectando sombras sobre as frontarias dos edifícios. O vizinho do lado, moço ainda novo, fumava um cigarro encostado à amurada.

- É mesmo… altura ruim… e foi geral, não se vê uma única luz em toda a avenida…

Ele concordou, com um aceno de cabeça.

- Nunca tinha visto semelhante apagão…. Depois destes anos todos, nunca.

Foi a vez dela concordar.

- Digo o mesmo…. Já estou aqui vai para quase oito anos… nunca vi algo assim…

Ele soltou uma baforada de fumo, como cabelos soltos ao vento.

- Coincidência… eu também vim para este apartamento há quase oito anos…

- É mesmo? Mas eu não me lembro de alguma vez nos termos cruzado…

- Também o creio…. Não me lembro de alguma vez a ter visto… nem no elevador…

- Estranho, não é? - e passou a mão pelos cabelos - vizinhos, morando no mesmo prédio, no mesmo andar… e nunca nos encontrámos… em quase oito anos…

- É… é a vida …

 

E remetendo-se de novo ao silêncio, continuaram encostados às respectivas varandas, observando o movimento ininterrupto dos automóveis, ao longo da avenida. Não sabiam - como poderiam saber - os milhões de outras pessoas desprevinas e atónitas, reagindo a medo, com desconfiança…. Ao apagão.

 

Por uma simples noite, a noite foi simplesmente uma noite…. Mais escura. Muito mais escura.

 

 

 

 

 

publicado por entremares às 20:15
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20 comentários:
De entremares a 16 de Novembro de 2009 às 17:09
Oi, Neli...

Só posso imaginar a tua preocupação, com os filhotes lá fora - seja qual for a idade . E quando falas nas nossas escolhas.... é preciso apagar-se a luz para percebermos de repente que estamos dependentes de tantas e tantas coisas...

Beijos, Neli
Rolando
De neli araujo a 16 de Novembro de 2009 às 18:05
Oi, Rolando!

Os filhos são moços, 28, 27 e 25. Mas na hora do apagão, não era hora de ninguém estar na rua...perigoso...

Gostei muito do teu conto! Parece que estavas lá no Leblon, hehehe

beijinhos,

neli

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