"As horas morrem, assim de repente
E eu morro com elas.
Trocava a glória, o beijo da eternidade
Pela paz dos anónimos, pela felicidade,
Um jantar à luz das velas
Um leito desfeito, um amor presente."
O prefácio, como todos os outros da sua já longa lista de obras publicadas, fora escrito pela sua amiga Joana, na forma de um poema.
"Memórias de um quarto vazio" - assim se chamava aquela punhado de páginas, com uma capa carmim, exibindo uma peça de roupa abandonada no chão atapetado de um quarto de hotel; um punhado de folhas na forma de um romance, retratando a vida de uma quase vulgar vendedora de produtos de cosmética, saltitando de hotel em hotel, de cidade em cidade, os seus amores e desamores, a sua procura por uma paz tardia de encontrar.
Eunice, a escritora, também bebia muito da sua personagem, desenhara-a à sua imagem e semelhança, como barro fresco. A vendedora, a irrequieta Sofia, era uma mulher independente e rebelde, que disfarçava a solidão com aquele hábito de nunca conseguir adormecer sozinha, mesmo que a companhia fosse alguém que acabasse de conhecer durante a noite. Ela, Eunice, não era independente mas ainda rebelde. De uma forma que não conseguia definir por completo, sentia que ainda não folheara as páginas mais interessantes da sua vida. E talvez por isso mesmo agora se sentisse mais apressada, mais sôfrega, na ânsia de atingir esse ponto de não retorno, onde tudo mudaria, e quem sabe…. A Eunice do presente voltasse a ser a Eunice que sempre desejara ter sido.
Com um gesto vagaroso, sorveu o café quente da caneca de louça.
O sol de Inverno entrava timidamente pela janela, rasgando os vidros baços e reflectindo-se no tapete branco e na roupa nele despejada de rompante.
Por um momento, imaginou o mesmo sol noutra vidraça, num outro lugar, talvez numa cabana à beira mar, numa casa velha de província, num recanto com um jardim de rosas e malmequeres, um quintal de arvores de fruto, telhados de madeira e quem sabe, uma chaminé para as noites frias de Inverno.
Mas nem isso seria o mais importante.
Mais um gole.
Um suspiro e um revolver de lençóis.
Olhou de soslaio por cima do ombro. Ainda dormia.
Tentou desesperadamente lembrar-se do nome dele, mas não conseguiu. Recordava simplesmente que o conhecera durante o jantar, na noite anterior, depois da sessão de autógrafos - o lançamento do novo livro.
A solidão - pensou - não era boa companheira. Mas a companhia de ocasião… seria?
Pousou a caneca vazia e em silêncio, foi apanhando as peças de roupa atiradas para o chão. O espelho do quarto - enorme, como em todos os quartos de hotel - surpreendeu-a assim, nua e agarrada a um punhado de roupas. Abriu os olhos de espanto.
A sua Sofia, a vendedora de cosméticos, deveria ter aquele aspecto. Imaginara-a assim, também, sem maquilhagem, as primeiras rugas a despontar, o peito a perder a firmeza de outros tempos.
- Adeus, Sofia…. - disse finalmente, como se falasse para consigo mesma - estou farta de viver a tua vida…. Vou voltar a ser Eunice….
. Sinais
. O rei morreu... Viva o re...
. Fé
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