Sábado, 7 de Novembro de 2009

A coragem de Matilde

 

 

  

 

A pequena Matilde ergueu delicadamente os braços… um, dois, três… para cima… para baixo…

 

- As pontas, Matilde… as pontas.

Ela obedeceu.

Para cima, para baixo… uma meia volta para a esquerda, a curva… novamente a volta, os braços… aquele pequeno desequilíbrio…

 

- O pescoço direito, Matilde… sempre a olhar em frente… em frente… isso mesmo.

E continuou repetindo, uma e outra vez, a mesma sequência de movimentos.

Chegara finalmente… o grande dia. O ensaio geral decorrera normalmente, sob o olhar atento da professora.

Por quanto tempo treinara ela os "Frappê", o "Rond de jambe", o "Pás Chassé" ?

Quantas horas por dia, apesar de todos os contratempos dos horários, dos dias de frio e chuva, das viagens cansativas de casa até ao pequeno ginásio, do outro lado da cidade?

Quantos sacrifícios?

Ali bem perto… ouvia os aplausos do publico.

A Julieta, a sua colega de ensaios, dançaria nesse momento o tema central do "Quebra-Nozes", acompanhada pelos figurantes do ginásio.

E, a julgar pelos aplausos… todo o treino, todo o empenho… estariam agora a ser justamente recompensados.

E a seguir… seria ela.

A bela adormecida, de Tchaikovski.

O acto principal, onde ela deveria percorrer o palco em pontas, leve como uma borboleta, os braços em flor a tocar as nuvens.

Conseguiria?

Seria capaz?

 

Sentiu uma mão pousar-lhe sobre o ombro.

- Não estejas nervosa… tu conheces todos os passos…

Ela sorriu, tremendo por dentro.

Conhecia, claro que conhecia todos os passos. Sabia-os de olhos fechados, sonhava com eles, ao ritmo dos acordes que já nem precisava de ouvir.

Mas, mesmo assim… o receio. O receio da reacção do público.

 

- Podes vir… - assomou alguém à porta - a Julieta está já a terminar…

Seguiu pelo corredor, hesitante. O maillot arroxeado, as lantejoulas bordadas, a fita no cabelo, a sapatilha escura.

O que iria ver o público?

Uma sapatilha.

 

Tentou… mas não resistiu a um último olhar, antes do subir do pano.

A prótese era quase, quase perfeita… mas mesmo assim, não era a sua verdadeira perna, perdida naquele trágico acidente de moto, três anos antes…

Sob a cor suave do maillot, notava-se facilmente o pé articulado de plástico e metal, que ela conseguira dominar, a pouco e pouco, com uma persistência infinita.

Ainda no hospital, poucos dias depois do acidente, olhando para a perna ausente, decidira firmemente para si própria:

- Não, não e não… o sonho não vai terminar aqui… recuso-me a terminar aqui…

 

O pano vermelho subia, vagarosamente.

Avançou até ao centro do palco, esperando o inicio da musica.

Mas entretanto… algo aconteceu.

Primeiro um, depois outro, depois ainda outro, uma multidão de rostos anónimos levantava-se das cadeiras e aplaudia de pé, contagiando todos os outros que, em poucos segundos, se ergueram e estrondosamente aplaudiam… a coragem.

A pequena Matilde tentou permanecer imóvel, os braços para cima, um pé cruzado à frente do outro, na espera impaciente dos primeiros acordes.

 

Uma lágrima de emoção deslizou-lhe pelas faces miúdas.

O sonho… o sonho ia realizar-se.

 

Finalmente… os primeiros sons… inconfundíveis, da bela adormecida encheram a penumbra do teatro.

 

Fechou os olhos… e deixou-se ir.

 

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publicado por entremares às 12:17
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22 comentários:
De Luísa a 7 de Novembro de 2009 às 22:08
Até eu tive vontade de me levantar e aplaudir!
BRAVO!BRAVO!
Que bravíssimo modo de escrever!! Esta história entra em nós e faz-nos acreditar que tudo é superável....
Beijinho terno!
De Deusa a 8 de Novembro de 2009 às 16:24
Meu querido Rolando
Estamos sempre e encarar desafios como esse .
Do jeito que escreves nos da muita florça e coragem .
Aceita um abraço Mto Apertado meu amigo.
De libel a 8 de Novembro de 2009 às 18:24
Bolas Rolando eu estava lá de pé a aplaudir ...e sim adorei o espectáculo, a bela adormecida encantou os presentes e os ausentes, pois aquela força, coragem e determinação chegou para vencer.

Que linda história ....é uma lição de vida, para os que desistem à primeira dificuldade, para quem liga a certos pormenores rídículos, para quem faz tempestade num copo d`água. Estou sensibilizada e só me lembro de uma frase...
" Sofremos muito com o pouco que nos falta, e gozamos pouco o muito que temos"...

Esta história tem uma pureza tão nobre, pelo simples facto de nos ensinar, a nós, felizmente portadores sãos de todas as nossas faculdades físicas e mentais, de como a força de vontade, o empenho, os sonhos, podem originar “milagres”, vindos de pessoas a quem algumas capacidades perderam, mas que as conseguiram recuperar de forma brilhante.

Um beijinho seu encantador de sonhos....como não ficar lélé....impossível....e sim gosto de escrever tudo aquilo que o pensamento me deixa...mas aqui controlo um pouco a imaginação, pois prefiro ficar encantada a encantar...ahhahahahha....
De Sofia a 8 de Novembro de 2009 às 20:54
Sim, há histórias que são uma lição de vida... até em spots publicitários...

Não percebeste? Então vê o meu último post ;-)

Beijo
De neli araujo a 8 de Novembro de 2009 às 21:22
Rolando, meu amigo!

Tu escreves bem demais!

Estive com a respiração presa, o corpo imóvel a acompanhar o desfecho do teu conto...

Lindo, lindo, lindoo! Estou sem palavras...

Todos precisamos desta coragem, e muitas vezes, por coisas tão pequenas ...

Parabéns, amigo!

beijoca saudosa,

neli
De stiletto a 8 de Novembro de 2009 às 22:10
Simplesmente fabulosa!
De Óscarito a 9 de Novembro de 2009 às 03:39
Eu sugiro ao meu amigo Rolando que faça acompanhar os seus textos, pelo menos alguns deles, de uns lencinhos de papel para evitar que alguns teclados sejam inundados.
Se o digo não é propriamente por mim, ainda que tal situação não me aflija.
Mais seriamente, repito-me: é sempre com o maior prazer que me sento à volta desta fogueira (gosto desta tua expressão para referir o blog), para ler o que te vai na mente. É um previlégio essa capacidade de passar à escrita um pensamento por pequeno que seja, fazendo-o crescer "no papel" transformado em blog!
Um abraço/Óscar
De Najla a 9 de Novembro de 2009 às 15:06
Uma verdadeira menina-coragem...e como a grande maioria dos comentários, também eu fiquei comovida! Linda a história....onde vais tu, Rolando, buscar estas histórias? Onde te encantas? Quem são as tuas musas? Que vidas conheces tu?

Um beijo
De Regina d'Ávila a 9 de Novembro de 2009 às 16:05
Alguém...que sei bem quem..e você também....
Prometeu-me uma foto...uma mão segurando uma rosa (ou flor).
E não me enviou...
Então... greve geral....não vou comentar...
Somente vou aplaudir a Matilde, pois ela merece...foi maravilhosa!! Os passos foram fantásticos...por favor...dê meus parabéns à ela. Podes?

Também não mandarei beijos(oz),
Regina d’Ávila.
De entremares a 9 de Novembro de 2009 às 17:39
Perdoem-me todos.... mas foi-me completamente impossivel vir aqui responder , como sempre faço, a todos os comentários. Virei amanhã, e com café fresquinho.

Rolando

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