A estranha figura alada descreveu um novo círculo nos céus; procuraria algo, perscrutando tão atentamente os rochedos, lá em baixo no solo?
O sol despedia-se vagarosamente das nuvens arroxeadas.
No solo, as criaturas do dia apressavam-se nos seus afazeres diários, preparando a noite que se avizinhava. A noite seria sempre um tempo de espera, um tempo em perigos e sobressaltos, de vida e de morte.
No mundo de todas as coisas vivas, a noite era idêntica ao dia. O dia possuía as suas criaturas, o seu ritmo, a sua luz; a noite despojara-se da luz mas rodeara-se de mitos e lendas, de seres mitológicos que guardavam os portões do crepúsculo e que, em certas noites de lua cheia, até conseguiam imitar o canto das sereias ou o uivo dos lobos.
A noite era simplesmente…. A porta da alvorada.
A criatura alada continuou planando sobre os céus, cada vez mais escuros.
O seu corpo, lembrando as formas majestosas de um leão, garras portentosas e cauda arrogante, era encimado por uma cabeça de águia, asas imponentes e penugem brilhante. Um grifo.
Um ser prestes a desaparecer dos céus, como já tinham desaparecido antes dele muitas outras criaturas fantásticas, extintas com os tempos antigos, onde a magia agonizava já dentro das páginas bolorentas dos livros dos bruxos.
O grifo planava, talvez o seu último voo.
Muito abaixo, sobre os rochedos, as doze sacerdotisas - vestes brancas, grinaldas de flores nos cabelos - esperavam pacientemente.
Câncer, Libra, Gemini, Aures… todas elas idênticas, todas elas tão diferentes, representando os elementos sacros do universo, a terra, o fogo, a água, o ar, as imagens do Zodíaco.
Uma delas seria a bafejada pelo voo do grifo, tal como muitas outras já o haviam sido, por outras criaturas à beira da extinção, em tempos idos.
Aquele era, porém, o dia do grifo.
O belo animal planou, descrevendo círculos cada vez mais apertados, mais baixo, mais baixo… até abrir as asas de águia e pousar no centro do círculo formado pelas sacerdotisas.
Durante um longo momento, os olhos aguçados observaram as doze figuras, lendo-lhes a alma. Elas permaneceram em silêncio, esperando pacientemente o cumprir de um destino anunciado.
Finalmente, o grifo arrastou-se até junto de uma delas, enrolou-se aos seus pés e, entoando um último lamento, imobilizou-se para sempre.
Libra, a escolhida… inclinou-se sobre a estranha criatura e ao tocar-lhe com os dedos a penugem macia das asas…. Uma claridade desprendeu-se do corpo inerte e impregnou as vestes brancas da sacerdotisa, como uma auréola. O grifo, imóvel … solidificou-se, escureceu…. E em breve nada mais restava, para além da memória, uma estátua de pedra macia, uma estranha criatura alada, de corpo de leão e cabeça de águia, que outrora sobrevoara os céus e vigiara os portões da madrugada.
As sacerdotisas partiram, cada um para seu destino, até um novo chamamento.
Excepto Libra, sentada ao lado de uma estátua de pedra.
Olhou para os céus.
Em tempos, um grifo planara sobre eles.
Nota: Vá lá saber-se porquê, o meu amigo João Meneres não é do signo Balança ( Libra ) como lhe competia pelo Grifo, mas Escorpião. Mas pronto, amigo João, mesmo assim ... cá vai. Uma possível origem para esse nome de blog tão... planante.
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