Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Uma lua para dois

 

 

 

Serenos.
Dormiriam?
 
Afastou-se um pouco mais, para melhorar a percepção da obra.
Grotescas, inacabadas... mas transpirando ternura, sem dúvida. Deitados, abraçados, os olhos fechados num silêncio de paz, embalados pelo desfazer das ondas na areia.
Não precisavam de título, um vulgar par de amantes, não fossem eles .... feitos de areia.
Os veraneantes tardios que ao final da tarde ainda passeavam à beira mar sorriam, ao observar a insólita composição.
Havia qualquer coisa em todo o conjunto... que ansiava por mais. Como se a própria areia sentisse necessitar de um sopro de vida, para que os olhos dos amantes se abrissem e se pudessem finalmente.... contemplar.
 
O autor deixou-se ali estar, sentado ao lado da obra. Decidira esperar, esperar até que o mar ditasse o seu tempo, e que, finalmente... os dois amantes se unissem.
Imóveis, as estátuas esperaram com o seu criador.
O céu escureceu e polvilhou-se de estrelas, como pó de açucar.
A praia esvaziou-se de gente e de gaivotas, a lua cheia brilhando sózinha sobre a maré que enchia, vagarosamente.
 
Na calma obscuridade de um luar, o escultor observou pela última vez a sua obra.
Aproximava-se uma onda....
 
Um manto de espuma branca avançou timidamente, envolvendo os amantes numa lingua que abraçou toda a areia, desfazendo-a num corredor voraz de pequenos grãos brilhantes, de volta ao mar.
Por um segundo, por uma breve fracção de um segundo... pode vislumbrar. Os olhos das estátuas, meros riscos na areia humida, ganharam cor e vida, os lábios entreabriram-se num beijo ressequido, que o mar logo se encarregou de eternizar, fundindo-lhe os corpos, num abraço perpétuo.
 
Finalmente, haviam conseguido.
Ser livres.
Desfeitos de si mesmos, unidos um ao outro, uma mistura brilhante de grãos de areia, onde o eu e o tu não existiam mais, resumidos a cachos de areia envoltos por espuma branca.
 
Lá bem alto, a lua continuava a brilhar, como sempre fazia.
Talvez um pouco mais branca, talvez um pouco mais sorridente.
 
- Uma lua para dois... – pensou o escultor, enquanto se erguia, sacudindo a areia das calças – uma lua para dois...

 

publicado por entremares às 10:05
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De Sara a 2 de Novembro de 2009 às 17:02
Magnífica a forma como escreveste Rolando! Senti-me lá perto do escultor, a sentir o cair da noite e a ver o luar... a observar o entrelacar daquelas duas estátuas no seu abraco perpétuo e único! Simplesmente lindo... deixou-me arrepiada, mas soube bem!!

Beijinhos, Sara
De entremares a 3 de Novembro de 2009 às 06:20
Olá, Sara...

Que a noite caia, acenda-se a fogueira.
Vamos contar histórias, beber café quente e esperar que alguém tenha trazido um violão...

Beijos.
Rolando
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