Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Somewhere over the rainbow...

 

Era uma vez uma menina, um leão, um homem de lata e um espantalho.
Não, claro que não se trata do feiticeiro de Oz, não fiquem já a pensar nessa história.
Estas quatro personagens eram simplesmente pequenas estatuetas, delicadamente esculpidas em porcelana, sobre uma base amarela.
O pequeno conjunto, coloridos e pousado sobre o tampo da velha escrivaninha de madeira... possuia ainda um putro predicado, um pormenor que o tornava deveras único.
Ao tocar-se qualquer uma das quatro figurinhas, a caixinha de musica escondida no seu interior entrava em funcionamento e de imediato se ouviam os acordes das musicas tão bem conhecidas... do feiticiero de Oz.
 
Naquele dia, Dorothy, a vulgar telefonista de uma bem conhecida empresa de telecomunicações móveis, não tinha motivo algum para sorrir, tão pouco para se apressar. Com um gesto cansado, atirou o casaco beje para cima da cadeira e deixou-se cair sobre o sofá.
Acabara de ser despedida.
 
Durante muito tempo, ali permaneceu. Imóvel, em silêncio, vendo desfilar impotente diante dos olhos as imagens dos ultimos quinze anos da sua vida, dedicados a uma profissão, a um emprego que considerara eterno, seguro. Não constituira familia, a sua familia fora construida sobre as amizades do local de trabalho, partilhando o dia-a-dia, aventuras e desventuras, com todos os que partilhavam aquele espaço.
E agora.... assim de repente, fora jogada fora, como um sapato velho, imprestável.
 
A pequena estatueta, bem à sua frente, pousada sobre a escrivaninha de madeira, parecia querer dizer-lhe algo.
 
Tocou-lhe ao de leve, os dedos roçando a figurinha frágil de Dorothy, a personagem com o nome igual ao seu, na vida real.
De imediato, os acordes familiares de “ Somewher over the rainbow” fizeram-se ouvir, numa versão já riscada de tanto tocar, acusando o passar dos anos.
Ficou a ouvi-la em silêncio.
 
“Em algum lugar além do arco-íris
Acima das montanhas
existe uma terra de que eu ouvi falar
Uma vez numa canção de embalar

Em algum lugar além do arco-íris
Onde o céu é azul
E os sonhos que você ousa sonhar
Realmente tornam-se realidade.

Um dia eu quis alcançar uma estrela
E acordei num lugar bem longe das nuvens

Onde os problemas se derretem como doces de limão
Num lugar bem acima do topo das chaminés
É onde me poderão encontrar.

Em algum lugar além do arco-íris
Pássaros azuis voam
Pássaros voam além do arco-íris
Porquê eles ... e eu não posso?

Então se os pequenos pássaros azuis voam
Além do arco-íris
Poque...  porque eu não posso?”
 
 
Podia. Podia sim.
A vida não terminava ali. A vida não terminava nunca.
Lembrava-se do pai, o eterno companheiro de brincadeiras, a dizer-lhe: “ Nunca, Dorothy. O impossível não existe. Tu és capaz de tudo.”
 
Lembrava-se sim.
Tal como se lembrava do dia do seu décimo terceiro aniversário – o último que partilhara com o pai – quando ele lhe oferecera aquela caixinha de música, bem escondida na estatueta das personagens do feiticeiro de Oz.
 
Levantou-se e pegou no casaco.
Apetecia-lhe um café.
 
A vida continuava. E lá fora, algures à sombra de um arco-iris, um outro emprego, uma outra esperança, uma outra vida esperava também por ela.
Não a podia fazer esperar.
 
 
 

 

publicado por entremares às 13:28
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16 comentários:
De Beija-Flor a 28 de Outubro de 2009 às 14:16
Adorei.
Sim, a vida continua Sempre.
Ontem fiz 34, e meu Pai só os viveu até aos meus 31.
Ontem meu companheiro meu deu algo que fez recordar de imediato meu Pai, por ter algo dele que guardo com muito carinho. A ideia dele foi usar o que ele me deu e lembrar sempre do que meu Pai me deu.
Maior prova de Carinho e Amor?
Demais.
Estou Feliz
Obrigada
Beijos
De entremares a 28 de Outubro de 2009 às 16:35
Oi, Beija-flor.

É verdade, a vida continua. Às vezes com um apoio, com um empurrão, com um memória para ajudar.
Outras vezes, nem isso.

mas tudo continua.

Beijos
Rolando

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