Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Aqueles óculos azuis

 

 

- Até amanhã, pro’ssora...
- Adeus, pr’ssora...
 
Ela lançou-lhes um sorriso.
- Adeus, João... adeus Catarina... portem-se bem... e não se esqueçam de fazer os trabalhos...
Eles sairam em corrida e ela dedicou-se a arrumar os papéis, a apagar o quadro, a apanhar os lápis e borrachas que sempre ficavam esquecidos de um dia para o outro, sobre as mesas ou no chão. Era sempre assim, a rotina diária.
Pousou os óculos acastanhados sobre o tampo da mesa. Gostava da profissão, a sério que gostava, mas naquele dia sentia-se particularmente cansada, como se a semana que ainda ia a meio fosse só um amontoado de segundas-feiras, todas elas cansativas.
Acabou de arrumar as suas coisas, despediu-se das colegas e saiu para a rua. O sol forte fê-la fechar os olhos. Setembro? Calor? O calendário inaugurara já o outono, mas aquele sol era um sol de verão, um sol quente e radioso, a pedir girassóis e palmeiras a esvoaçar ao vento.
Levou a mão à mala e retirou um par de óculos escuros, de lentes azuladas.
E mal os colocou, o mundo mudou de cor, quase de forma.
Ajeitou a saia e fez-se à rua.
 
Não precisava de olhar para trás... para saber que eles tinham ficado a olhar para ela.
Um sorriso enigmático moldou-lhe o rosto esbelto, a figura elegante, o andar seguro e ondulante.
Não eram só os estereotipados homens das obras que assobiavam à sua passagem; os vulgares transeuntes, os leitores de jornais ambulantes a caminho de casa ou do emprego, erguiam os olhos e lançavam-lhe um sorriso de desejo, uma piscadela de olhos furtiva, um beijo dissimulado.
Sabia ser sedutora, e sabia como seduzir. E sem nada provocar, sabia simplesmente que quando olhava para o mundo através daqueles óculos azuis, o mundo lhe sorria daquela forma ousada e ciumenta, como ervas cinzentas a contemplar uma flor amarela, que tivesse brotado solitária, em pleno alcatrão.
Continuou imperturbável o seu caminho, respondendo de vez em quando a algum piropo com um sorriso de compreensão, o que ainda lhe aumentava mais o encanto.
Definitivamente... uma flor. Uma maravilhosa flor amarela, no meio do alcatrão cinzento.
 
A vantagem da grande cidade, daquela cidade em particular... era a presença do mar. Um mar azul profundo, magnético, que rebentava em ondas de espuma no molhe, ao longo de todo o paredão da marginal, salpicando de espuma quem passava.
Aquele era o seu recanto, o seu refúgio pessoal.
A caminho de casa, muitas vezes os passos se desviavam sózinhos para ali, o espirito sequioso de se perder na imensidão azul.
 
Procurou um banco afastado e sentou-se, contemplando o mar.
Retirou os óculos azuis e deixou que a maresia fresca lhe banhasse o rosto.
Quem era ela?
Às vezes – tantas vezes – interrogava-se sem respostas, confinada às suas próprias dúvidas. Era tanta gente ao mesmo tempo, vestia tantas roupagens e tantas vezes se quedava assim, absorta e incerta, sem realmente saber qual a verdadeira cor da sua pele.
Quando colocava os óculos castanhos, sentia-se meiga, a professora ternurenta dos seus meninos. Às vezes, não resistia à tentação e aqueles óculos cor-de-rosa, em armação de metal, davam-lhe o ar mais selvagem, o seu ar mais nocturno, quando conseguia balouçar o corpo frenéticamente nas pistas de dança, noite dentro, sem se cansar. E outras vezes, aqueles óculos azuis como o mar deixavam-na como um malmequer reluzente, espalhando feitiços de sedução por onde passava.
 
Fechou os olhos, para sentir o mar.
Sem óculos, sem mais nada para além de uma vontade enorme de descobrir quem na realidade... era.
Nunca conseguira saber. Sempre que se despia daquelas cores, mudava de ser como um camaleão. Ela era tudo aquilo, era todas essas cores e ssas facetas, um baú cheio de personalidades, todas desarrumadas e despenteadas, ao sabor do sol e do vento, sempre prontas a despontar e a comandar-lhe a vida.
Ela era... aquilo tudo.
Sorriu.
Afinal de contas... sentia-se bem consigo própria. Mesmo sendo muitas, mesmo sem se compreender na totalidade.
Sentia-se viva... e imprevisivel.
 
Uma onda rebentou de mansinho no paredão e salpicou-lhe o rosto de espuma.
A sua alma de sereia sorriu.
Apesar do cansaçao... sentia-se bem.
Com a vida.

 

publicado por entremares às 08:23
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28 comentários:
De MARIA a 25 de Setembro de 2009 às 20:54
Personagem divina, todas as mulheres gostam de ser assim, chamarem a atenção fingindo não perceber que estão a ser admiradas eh...lol
Nasci junto ao mar, e vivo junto dele , é um dos meus melhores amigos.
Amei a história...
Tenha um bom fim de semana

:)) Doce Carinho

M.M.G.
PS-Obrigado pela força estou começando a caminhar
novamente
De entremares a 26 de Setembro de 2009 às 02:21
Olá, Maria...

Podes ter a certeza... que não só caminharás, como correrás sózinha pela praia, conseguirás apanhar gaivotas e brincar com papagaios de papel...

Um milhão de amigos anda por aqui para ajudar...

Beijos.
Rolando
De abelha-maia a 25 de Setembro de 2009 às 23:40
Os meus óculos são pretos e qd os coloco dá-me outra face daquilo ke sou...mais confiante, linda, fanástica...etc! Estão sempre no carro! Adoro conduzir de óculos escuros.
Mas hoje sai da escola sem os óculos e os alunos disseram em coro "bom fds professora! "
É claro ke na praia para gozar bem é sem óculos! Adoro estar na praia, sentir a maresia e ver as coisas na sua cor natural.
Gostei da história e como deves ter reparado eu e esta professora temos algumas coisas em comum!
Bjs
De entremares a 26 de Setembro de 2009 às 02:23
Oi, Abelhinha...

Os óculos escuros são "glamour"... e ainda por cima permitem ver... sem ser vista...

Desejo-te um fim de semana assim com um sol enorme, sem nuvens, só para te bronzeares com as cores do resto do verão...

Beijos.
Rolando
De DyDa/Flordeliz a 26 de Setembro de 2009 às 00:40
É noite e os óculos azuis não são necessários para te deixar
De entremares a 26 de Setembro de 2009 às 02:24
Ah, Flordeliz...

Como sempre, tens o condão de me deixar... sorrindo. Sabes que gosto bastante daquela flor azul?

Beijos
Rolando
De Sara a 26 de Setembro de 2009 às 07:55
Saudades de ver e sentir o mar...
De entremares a 26 de Setembro de 2009 às 08:30
Olá, Sara...

Imagino que sim.... quando o tens e deixas de ter...

Vou tratar de te enviar um pouco. Vais ver...

Beijos.
Rolando

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