
O relógio da parede marcava as onze.
Imperturbável, alheio a pressas, o pêndulo de bronze repetia os mesmos movimentos de sempre, indiferente ao facto de se aproximar mais um final de ano onde, da forma costumeira, repetiria doze badaladas.
O pastor Josué encontrava-se sentado na sala, no velho cadeirão de pele. À sua frente, a pequena mesinha de pés curtos, habitualmente pejada de livros e revistas, estava agora praticamente vazia, com aquele estranho objecto metálico alinhado bem ao centro.
Uma balança.
Cuidadosamente, retirou da sacola os dois grandes frascos de vidro, em tudo iguais, excepto na cor das respectivas tampas; uma branca, outra negra. No interior de ambos, uma quantidade enorme de pequenas bolas de papel amarrotado saltitavam, empurrando-se umas contra as outras. À primeira vista, ambos os frascos teriam um conteúdo em número muito semelhante das pequenas bolas de papel.
Com extremos cuidado, abriu o frasco da tampa branca e lá foi vertendo o seu conteúdo para um dos pratos da balança, tentando que esta não transbordasse. Logo de seguida, repetiu o processo para o segundo frasco, vertendo as bolinhas de papel amarrotado para o outro prato da balança.
Suavemente, a balança desequilibrou-se e um dos pratos tombou sobre a mesa.
O pastor Josué ficou a olhar para ele, a testa franzida por uma ruga de inquietação.
Outra vez?
Há quanto tempo repetia ele aquele ritual, na noite de 31 de Dezembro? Dez, talvez onze anos…
E mais uma vez – a terceira consecutiva – a balança tombava para o frasco da tampa negra, o frasco onde Josué depositava, dia após dia, pequenos papeis amarrotados, retirados do bloco de memorando; por cada boa acção relevante… um papelinho amarrotado para dentro do frasco de tampa branca, para cada arrependimento, para cada falhanço… um papelinho amarrotado para o frasco de tampa negra.
- Para o ano, será diferente… - murmurou para si mesmo.
A balança não o ouviu. Indiferente ao peso das almas, limitava-se a pesar os prós e os contras das existências, independentemente dos sentidos que o pastor Josué atribuía aos pequenos papelinhos amarrotados.
- Para o ano, será diferente…. – voltou a repetir.
De
adriana a 23 de Julho de 2009 às 14:29
Uma bela metáfora para os nossos atos durante o ano, ou talvez uma vida. Você conduziu bem a história e o arremate foi perfeito. Gostei muito. bj
Obrigado, Adriana, pela simpatia...
As balanças às vezes tombam para o lado que não desejamos, não é?
Obrigado pela visita.
Volte sempre.
A ideia é boa. Contabilizar até pode ajudar, mas...
Querer não é o mesmo que poder ou fazer.
Fica a esperança de: "Para o ano, será diferente..."

Olá, Flordeliz...
O Josué ainda tentou " pesar a alma ", mas suponho que não resultou...
Beijos.
Achei interessantíssimo este ritual! Beijos.
Oi, Paula.
O " pastor Josué " agradece-te a visita e promete tentar com mais afinco... para o ano que vem...
:)
Beijos.
De
Sueli a 23 de Julho de 2009 às 19:52
Sabe que você me deu uma boa idéia com esse conto?. Muito interessante... Abração! Sueli (Fenixando)
Então Sueli? Como vai?
Vai guardar bolinhas de papel nos frasquinhos?
Conta, conta...
Um óptimo fim de semana para você.
Para o ano...quem sabe...
Vivemos contabilizando tudo...tentamos sempre colocar em números..pois é uma ciência exata ..lógica..e assim achamos que vamos entender melhor..
Mas...quem sabe..para o ano..
Beijos carinhosos,
Regina d'Ávila .
Oi, Regina...
Adorei o mail.
O " pastor Josué " manda dizer que é verdade, tentou colocar tudo em números, mas que não conseguiu.... a vida - diz ele - não só numeros a somar e a subtrair...
Muitos beijos.
Rolando
Vamos torcer para que no próximo ano o pastor Josué veja o prato da balança cair para o lado contrário.
Beijos
Manu
Ai, ai, Manu... acho que nem o pobre do "pastor Josué " consegue adivinhar o futuro...
E também é verdade... os papelinhos até podem ter "pesos" diferentes, não é ?
Beijos.
Rolando
De
Hakime a 24 de Julho de 2009 às 03:23
É nunca adianta protestar contra nada mesmo.
Olá Hakime, bemvindo aqui ao cantinho...
Sabes, ele tentou... não sei se adianta protestar, mas ele tentou...
Um óptimo fim-de-semana.
De
GiGi a 24 de Julho de 2009 às 16:18
Para pensar: qual o significado que atribuímos a cada uma de nossas ações?
Acho que está na hora de se pensar nisto. Pelo menos, eu! eheheh
Não se preocupe com o tamanho dos comentários. Eu também escrevo muito, às vezes, quando o tema desperta grandes reflexões.
E, é verdade... Considerávamos amigos aqueles que vinham brincar conosco, quando criança, que partilhavam dos mesmos brinquedos e tal. Na adolescência, temos por amigos aqueles que se dispunham a ouvir nossos mais profundos segredos e também partilhavam dos deles.
E depois? Quem são nossos amigos? Como eles são? O que queremos deles?
Enfim...
Beijos!
Oi, Gigi...
A argamassa que segura os tijolos às vezes é bem mais resistente que os próprios tijolos...
Assim olho eu para a amizade... como aquela coisa em que a soma é sempre maior que o conjunto das partes...
Beijos.
Bom fim-de-semana.
Rolando
De Óscarito a 24 de Julho de 2009 às 17:02
Do que mais apreciei neste teu post foi o saber que, apesar dos resultados serem "aqueles", o Josué não desiste.
Sempre na espectativa do resultado ser melhor no próximo ano.
Eu também acho que no próximo ano será melhor!
Abraço/Óscar.
Meu caro Óscar...
Agrada-me que também te revejas um pouco no Josué. E tens razão, é bom esperar que o próximo ano seja sempre melhor que o que já passou.
Porque o passado já não se muda.
Um abraço.
Bom fim-de-semana.
Rolando
As vezes quando resolvemos colocar na balança as coisas boas e ruins, as ruins pesam mais... Só que o importante é não desistir de "melhorar" e continuar tentando...
adorei o texto.
beijos
Oi, Náhira...
Pois é, desistir é morrer, não é o que dizem?
E de qualquer dos modos, amanhã é sempre um novo dia, amanhã todos podemos de novo tentar e voltar a tentar...
Cair uma vez?
Levantar... duas.
Beijos.
Um óptimo fim-de-semana para você...
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