Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Muhamed

 

- O réu pode apresentar agora a sua defesa.
Com um passo miúdo, o tradutor avançou para junto do banco dos réus. Carregava um dossier e um pequeno computador portátil. Pigarreou um pouco, sentou-se, abriu o portátil e espalhou algumas folhas do dossier sobre a mesa de madeira.
- Estou pronto, doutor juiz...
O juiz fez um sinal a indicar ao arguido que devia iniciar o seu testemunho.
 
O arguido não aparentava ter mais de vinte anos. Uma barba característica, olhos escuros e pele tisnada, a tunica branca e umas sandálias de couro compunham na perfeição o estereotipo do jovem árabe. Mohamed Alluyia, de seu nome, nascido em Kabul, Afganistão.
 
- O que querem saber de mim ? - quis saber, sem desviar o olhar do juiz.
Após as devidas traduções de parte a parte, encetou-se o diálogo.
- Sabe qual é a acusação que pesaa sobre si ? - indagou o juiz.
- Sei, sim... assassinar um militar e ferir outros dois.
- ... E assume a culpa por esses factos de que é acusado ? - o juiz gaguejou um pouco, não estava à espera de uma resposta tão pronta.
O arguido acenou afirmativamente com a cabeça.
- Desculpe... o senhor tem que responder, não pode abanar simplesmente a cabeça. Considera-se culpado do que é acusado ?
- Considero-me culpado, sim...
- Foram providenciados todos os seus direitos ? Foi-lhe concedido um advogado para o representar ?
O arguido esboçou um sorriso.
- Doutor juiz... é a primeira vez que falo com um advogado, depois de todo este tempo... conhecemo-nos na semana passada...
O juiz trocou algumas palavras em voz baixa com os dois colegas que o acompanham na mesa do tribunal. Fez uma pausa, como que para escolher meticulosamente as palavras que deveria utilizar.
- Senhor Alluyia... chegou ao nosso conhecimento que as circunstâncias em que ocorreu a sua detenção não foram... as normais. No entanto, julgo saber que mesmo na altura em que foi detido, não negou a autoria dos crimes de que é acusado... é correcto afirmar isto ?
- É correcto, sim... eu estava ao lado do jipe quando me prenderam... estava a segurar a perna de um dos militares... uma hemorragia....
- Sim, sim... nós sabemos... o que pretendemos saber agora é porque motivo... qual foi a verdadeira razão dos seus actos... que levaram à porta de uma pessoa e feriram gravemente outras duas...
O arguido pareceu subitamente distante, talvez interiormente a recordar as imagens que durante todo aquele tempo já decorrido, tentara esquecer - o estrondo, o fumo acre, a nuvem de pó salpicada de sangue, os gritos da multidão, os pedaços de carne arrancados aos corpos mutilados, o olhar de desespero de um dos militares...
- O motivo ? Não sei, doutor juiz... não sei o motivo...
- Não sabe o motivo ? Como é possível que possa alegar semelhante desculpa ? Certamente existiu um motivo forte, não se tira a vida a um ser humano sem motivo...
Muhamed baixou a cabeça, envergonhado.
Era verdade. Claro que não havia motivo... e também era verdade que ele, Muhamed Alluyia, não tinha a menor animosidade contra os militares que todos os dias, patrulhavam o seu bairro, na sua Kabul natal.
- O motivo... mesmo que não acreditem em mim...e já sei que não vão acreditar... foi simplesmente... obedecer ao meu pai.
Os três juizes entreolharam-se, cautelosos.
- O seu paiu ordenou que atirasse a granada contra o jipe da patrulha militar?
Novamente um aceno com a cabeça, desta vez secundado por palavras.
- Sim... deu-me a granada de manhã, depois das orações ...
Nova pausa. Algo parecia desagradar ao colectivo de juizes. Um deles desligou o microfone e encetou-se uma troca de palavras em voz baixa. Um deles gesticulava com as mãos, apontando repetidamente para uma página do dossier que todos tinham pela frente.
- Senhor Mohamed Alluyia - lá foi dizendo um dos juizes, após o longo interregno - gostaríamos de ouvir as suas alegações finais, antes de nos retiramos para deliberar sobre a sua sentença.
- As minhas alegações ?
- Sim, o senhor é livre, segundo a lei, de dizer aqui e agora aquilo que lhe aprouver... faça favor de começar...
 
- Senhor doutor juiz... o meu nome é Mohamed Alluyia e nasci em Kabul... a 31 de Maio de 1990, vou fazer 19 anos daqui a poucos dias...Vivia com os meus pais e os meus quatro irmãos no bairro Karesh, na zona mais pobre. O meu pai era motorista de camiões, transportava gasolina para o norte, todas as semanas. A minha mãe tratava dos filhos e nós – eu sou o mais velho – frequentávamos todos a mesma escola.
Naquele dia, logo pela manhã... o meu pai entregou-me aquela granada, dizendo-me que para esperar que passasse a coluna militar – sempre à hora do almoço – e então que a atirasse para o meio da rua, para tentar acertar num dos veículos... qualquer um. E assim fiz.
 
O juiz olhou demoradamente o arguido.
- Mohamed Alluyia... acho que não nos está a contar a parte mais importante da sua história...
- ...
- Diga-me ... há quanto tempo está preso ?
- Há exactamente sete anos e duas semanas, doutor juiz.
- Sete anos ? Tem a certeza ?
Mohamed olhou o juiz bem nos olhos, talvez para lhe observar a reacção.
- Se tenho a certeza ? Tenho sim, doutor juiz... isto aconteceu precisamente no dia do meu aniversário...
- No dia do seu aniversário ? No dia 31 de Maio ?
Sim, doutor juiz... nesse mesmo dia. No dia em que fiz 12 anos...

 

 

Nota: A televisão espanhola noticiou hoje a história de Muhamed, o menino afegão que está preso há 7 anos, na prisão de Guantanamo, sem culpa formada, nem julgamento. Foi capturado em Kabul, após um atentado.

Tinha 12 anos na altura. Sempre se declarou inocente.

publicado por entremares às 23:20
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12 comentários:
De Najla a 27 de Maio de 2009 às 11:52
Quando se ouve este tipo de noticias~, muitos sentimentos se contradizem. Em primeiro, a morte dos militares. De seguida, a prisão de uma criança que apenas obedeceu ao pai. Depois a condenação dessa criança sem averiguação dos factos. Enfim...tenho de concordar com o primeiro comentário! Que raio de seres somos nós?!?
De entremares a 27 de Maio de 2009 às 13:26
Também não sei...
Mas devemos ser humanos de segunda categoria... porque aos 12 anos uma criança, seja ela qual for... não é responsável pelos seus actos...

E, mesmo sem ser juiz... todos nós estamos de acordo neste ponto.

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