Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Antes e depois...

 

Aproximou-se um pouco mais do espelho.
Por vezes, a imagem reflectida não correspondia ao que lhe ia na alma. A culpa não seria do espelho, certamente... mas talvez só da disposição, do grau de alegria ou tristeza que conseguia reconhecer no olhar.
“Tens uns olhos lindos”, dizia-lhe o marido, amiúde
Eram penetrantes, de um castanho escuro que ela sabia realçar como ninguém, sem abusar de todos os truques de maquilhagem à sua disposição.
Ou talves fosse simplesmente da juventude – beleza simples e descontraída – que irradiava à sua volta, em casa, no trabalho, na rua, nos transportes públicos...
Eva correspondia aquele perfil de mulher que “está bem com a vida”. Na flor da idade, um emprego estável numa reputada empresa financeira, uma familia tradicional da provincia, um casamento por amor, sem problemas económicos, ainda sem filhos. O marido, arquitecto de profissão, conhecera-o numa festa de passagem de ano, quatro anos antes. Fora amor à primeira vista.
Um namoro rápido, um casamento rápido, todos reconheciam que aqueles dois tinham sido feitos um para o outro.
É claro que ninguém é perfeito. Ela atacava os chocolates às escondidas e fumava cada vez mais, apesar de já ter tentado parar por diversas vezes. Ele comia demasiado à noite, ressonava um tudo mais alto que o suportável e de vez em quando era possuido por ataques de ciumes parvos, alimentados pelo facto de ela só ter colegas de trabalho do sexo masculino.
Mas a vida era bela... e os quatro anos de casamento voaram num ápice, sem sobressaltos de maior. Eva foi promovida, trocou de escritório, ascendeu à direcção. Ele, o Paulo, conseguiu um contracto fabuloso para o desenho de um bairro elegante em Madrid.
Apesar de todos os afazeres, as férias continuavam a ser gozadas a dois. No algarve, em Cabo Verde, na República Dominicana.
Claro que nas últimas férias, precisamente as gozadas nas caraíbas... ocorrera aquela pequena peripécia... mas pronto, eram águas passadas. Ele pedira-lhe logo desculpas pela bofetada, bebera um pouco mais que a conta... e até lhe comprara no dia seguinte aquele anel de diamantes que deslumbrava em todas as festas.
Mas a vida continuou.
Os pais do Paulo, filho único, viam nela a sua “princesinha”, como eles gostavam de frisar – a princesa encantada que conquistara o coração do seu filho. Mimavam-na, visitavam-na com regularidade… e cada vez com mais regularidade também lá iam indagando pelo herdeiro, que claro que mais dia menos dia gostariam muito de ter um netinho, e que sempre estariam disponíveis, etc, etc, etc. Eva sorria, com o mesmo sorriso que devolvia à mãe, quando ela lhe fazia a mesma pergunta.
No Natal anterior, deram um salto até à Serra da Estrela – muita neve, um chalé só para eles, lareira na sala, velas sobre a mesa. Um fim de semana memorável, não fosse mais um daqueles pequenos “incidentes” com o mau feitio do Paulo, sempre que os ciúmes assomavam à flor da pele. E como de costume, sempre infundados, que Eva só tinha olhos para ele.
O agente de viagens, solicito, ainda lhes tentou vender o pacote de fim de ano. Talvez tenha sido até um pouco mais simpático para Eva do que deveria. Ou não. Paulo achou que sim, que Eva escusava de sorrir tanto para o funcionário gentil. Mal se viram sozinhos no quarto a conversa azedou e Eva experimentou, pela segunda vez na vida, a fúria insensata do marido.
Felizmente tudo se resolveu. Ela sabia, melhor que ninguém, como o acalmar.
Aproximou-se um pouco mais do espelho.
Era raro pegar no estojo de maquilhagem mas… naquele dia, iria abrir uma excepção.
Talvez colocar uma base… ou carregar mais na pintura dos olhos.
Acendeu a luz, bem por cima do espelho.

 

 

Não… pensando bem… talvez a maquilhagem não fosse suficiente…

 

publicado por entremares às 10:28
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De DyDa/Flordeliz a 25 de Maio de 2009 às 17:10
E há ainda as formas em que se bate sem deixar marcas. Onde nenhuma maquilhagem é capaz de esbater ou curar a dor.
Excelente escrita.

De entremares a 25 de Maio de 2009 às 18:03
Essas são as marcas mais profundas...e talvez as mais continuadas, aquelas que se vãp prolongando no tempo...
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