Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Memórias de Krajina

 

- Apontar…. Atenção… FOGO !
 
Com um estrondo enorme, o tanque estremeceu, cuspindo a sua carga mortal sobre o edifício branco – que já fora de apartamentos, agora só uma quase ruína.
O comandante Svetlin, capitão do 3º batalhão de cavalaria pesada, perscrutava cuidadosamente o horizonte, agarrado aos binóculos.
Não havia muito para ver.
Knin, a capital da pequena província de Krajina ( actual zona sul da Eslovénia ), estava praticamente destruída.
No futuro, quando alguém redigisse a história do conflito, chamar-lhe-iam simplesmente a batalha de Krajina, uma de entre tantas na longa guerra da Bósnia. A história não se preocuparia com o nome das ruas, com o nome dos feridos, dos mutilados, dos órfãos, das viúvas; tão pouco ficaria descrito o estado de destruição dos jardins, as estátuas amputadas, os tectos caídos dos museus e das igrejas, as padarias vazias, os animais abandonados nos becos ou aqueles bancos de escola primária – projectados para a rua quando os morteiros acertaram em cheio na sala de aulas, felizmente vazia.
O comandante Svetlin, militar de carreira, tinha a seu cargo uma missão – mais uma – de “limpeza residual”.
Quem se teria lembrado de semelhante nome ?
Não seria mais fácil dizer simplesmente “ eliminar tudo o que se mova “ ou simplesmente “ aniquilação total “ ? Claro que “limpeza residual” soava de uma forma mais suave… como se a mera troca de palavras pudesse suavizar os horrores da guerra.
A zona leste de Knin estava Já limpa de “residuais”, eufemismo político para referir tanto os franco-atiradores inimigos como a meia dúzia de famílias assustadas que ainda viviam no meio dos escombros das suas antigas casas. Tudo era … “ residual”.
 
- Dez graus à direita… Apontar… FOGO !
 
Novamente o lampejar, o recuo, o petardo a atingir com violência a parede. Uma cratera de estilhaços.
Na verdade, qual era a diferença entre militar no lado “certo” ou no lado “errado” ? A histórias das guerras é sempre a história escrita pelos vencedores... e não se compadece com as opiniões das minorias, dos que não concordam, dos que cumprem ordens.A história da guerra – de qualquer guerra – é sempre a história da conquista do poder, camuflada de maneira mais ou menos imaginativa, num cenário onde a lei da selva, como sempre, acaba por ditar ordens.
Assim pensava o comandante Svetlin, enquanto cumpria as suas ordens: “ Efectuar a limpeza residual da zona oeste de Knin”.
Ponto final.
 
- Demasiado por alto, demasiado... baixar um quarto... apontar ... FOGO !
 
A sequência repetia-se – Identificar o prédio resistente, confirmar a presença do inimigo, apontar os tanques, destruir o prédio. Nada de complicado. O inimigo, fosse ele qual fosse, nada podia contra os blindados de Svetlin, a desproporção de forças era abismal.
 
Voltou a ajustar os binóculos. O prédio seguinte aparentava estar ainda habitado – algumas peças de roupa penduradas numa janela. No tecto, um par de atiradores disparava frenéticamente contra os tanques, inutilmente.
 
- Apontem ao último piso – gritou pelo microfone – FOGO !
 
O fumo e o pó dificultavam a observação. O que seria aquele ponto colorido, junto dos escombros da entrada do edifício ?
Tentou sem sucesso focar os binóculos. Nada.
 
- Novamente. Apontem mais para cima...
 
De repente, o ponto colorido mexeu-se.
Voltou a tentar focar a imagem. O que era aquilo ? Não podia ser. Era impossível.
 
- Não disparem. Suspender fogo, suspender fogo – gritou.
Com um salto, desceu da cabine de comando do tanque e correu para o prédio. Do tecto do edifício, um saraivada de balas acompanhou-lhe os passos, lembrando-lhe que estava a cometer uma perfeita loucura. Os franco atiradores pretendiam vender bem cara a vida, e a figura do comandante a correr desprotegido, rumo ao edifício poderia ser a única vingança possível.
Sem saber como, conseguiu alcançar a entrada – a sorte protege os audazes. Ali já estava a coberto da linha de fogo.
Ainda mal acreditando no que estava à sua frente, ajoelhou-se diante do vulto cor-de-rosa que avistara pelos binóculos.
Que idade teria ? Meses, provavelmente...
Onde estariam os pais ? O que faria ali, semi soterrada pelas escombros ?
Pegou delicadamente na criança – não estava ferida. Instintivamente, ela agarrou-se-lhe aos ombros, na busca da segurança possível.
Ficou a olhar para ela, enquanto lhe passava a mão pelo cabelo, tranquilizando-a com palavras baixinho, protegendo-lhe os ouvidos dos estampidos das balas.
 
Ergueu os olhos em direcção a um protector invisivel.
- Obrigado... – murmurou
A pequenita começou então a chorar. De fome, de frio, de sono.
A vida teria que continuar.
- Já vamos tratar de ti, pequenina, já vamos... 

 

publicado por entremares às 14:01
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