Terça-feira, 30 de Junho de 2009

O pai da virgem...

 

- Pai...
- Sim, filha?
- Eu tenho cara de virgem?
Metade da chávena de café foi cuspida contra a parede, a outra metade caiu directamente – a ferver – sobre as calças. Ficou sem respirar, o café escaldante a queimar-lhe as pernas e o cérebro em rodopio. Gaguejou.
- Vi...vi... Virgem? Co...como assim?
- A professora perguntou-me se eu tinha cara de virgem... e eu respondi que não sabia... mas que te ia perguntar...
- A professora ? Mas qual professora? Oh, mas isto está tudo doido?
- A professora de Língua Portuguesa. Ela perguntou hoje na aula.
- O quê? – berrou – mas a mulher está louca, ou quê ?
- Eu gosto dela, pai... é simpática.
- Tu és uma criança, Beatriz, és uma criança... ainda não percebes ... isto são coisas de adultos... oh meu Deus, outra vez, não...
- Não fiques preocupado, pai... ela disse que não há problema, não vou ser obrigada a nada...
O pai abriu e fechou a boca várias vezes, como peixe fora de água. Ainda quis responder, mas dos lábios soltou-se um som fininho, vagamente parecido a uma súplica afónica.
Não... aquilo não podia estar a contecer.
- A Joana não se importou, pai... e a Berta também não...
- A Joana, a filha aqui do nosso vizinho da frente?
- Sim... a vaca.
- BEATRIZ! Mas que linguagem é essa ? Isso são nomes para se chamar à Joana ?
- Mas...
- Nem mas nem meio mas... já para o teu quarto, fazer os trabalhos de casa. E eu vou imediatamente à tua escola, ver se ponho tudo em pratos limpos... com essa professorinha de língua portuguesa... eu já lhe digo...
- Mas pai, a mãe...
- Não metas a tua mãe nisto. Eu vou resolver tudo... a tua prima Paula... ela também estava nessa aula, contigo?
- Estava sim, pai...
- E está tudo bem com ela? Não se passou nada ? Nada de anormal?
- Não pai... a professora disse para ninguém se preocupar, que ela tratava de tudo... ela até a vai ensinar a tratar do bébé e tudo...
O pai parou a meio da sala, o braço ainda esticado em direcção ao puxador da porta.
- O bé...bé... o bébé? Um bébé? A Paula?
A filha Beatriz acenou com a cabeça, sorrindo.
- A professora diz que amanhã vai levar um biberon para a escola, para nos mostrar como se faz...
O pai foi empalidecendo progressivamente...
Sentou-se. Precisava de recuperar forças. Mas o ar teimava em não conseguir entrar.
 
- O que tens, Frederico? Estás mais pálido que a cal da parede...
A mulher assomava à porta da sala.
- A professora... a vaca... a Paula... virgem... – gaguejou, mordendo convulsivamente as palavras.
- Sim, eu sei... a menina disse-me. Vai ser um espectáculo e tanto...
- Vai?
- Quer dizer... eu preferia que a nossa filha fosse a virgem, mas pronto... não pode ser, não pode ser, e não se fala mais nisso...
O pobre pai começou a tombar para a frente, completamente aturdido.
- E amanhã – lembrou-se então a pequena Beatriz – vamos todos para o palheiro treinar... e a professora vai ajudar. Também queres vir assistir?
A mãe olhou para o rosto do marido e viu-o demasiado pálido, imóvel, os olhos esgaseados.
 
- Frederico... é só uma peça de Natal, está bem ? Não é nenhum casting para Hollywwod... qual é a importância da tua filha ser a virgem Maria, a ovelhinha ou a pastora? O que é preciso é que eles se divirtam, não é? Não precisas de fazer essa cara...
 
 
 

 

publicado por entremares às 16:22
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