Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Querida Deolinda

 

Estes são, sem dúvida alguma, os momentos mais felizes do meu dia; aqueles em que, isolado do mundo, me sento à sombra das acácias para te escrever estas simples palavras de amor.
Enquanto escrevo, imagino-te aqui ao meu lado, sorrindo – com aquele sorriso que só tu consegues fazer – iluminado o meu olhar com a tua alegria, a tua ternura, a tua...
 
Passou de novo o lenço de linho branco pelos olhos. Uma lágrima teimosa insistia em cair-lhe sobre o rosto, os olhos brilhantes de emoção, as mãos a segurar ávidas a pequena folha de papel, com aquela caligrafia de escola primária, geométrica, muito direita, as vírgulas bem carregadas e os acentos todos perfilados com a mesma inclinação.
Não precisava de ver a folha de papel, há muito que decorara todo o perfume, os versos imperfeitos da segunda página, o modo mais carregado da palavra Amor – já a relera tantas e tantas vezes que a poderia recitar de memória, sem se enganar.
Deolinda de Jesus era uma mulher apaixonada, tremendamente apaixonada. Por muitos motivos, o destino levara-lhe o amor da sua vida para terras distantes, emigrante num país longínquo de Africa.
Um ano – é só um ano, dissera ele – demoraria a separação, era o prometido.
Haviam passado dois, o terceiro ia a meio... mas ele voltaria, voltaria para casa no Natal, ela tinha a certeza, ele prometia-lhe isso em todas as cartas que escrevia.
E ele escrevia-lhe muitas e longas cartas, a que ela respondia do mesmo modo.
 
- “...ontem, minha querida Deolinda... fui ao cinema com os meus colegas, ver um filme novo que ...”
Desviou o olhar. A pequena Susana acabara de entrar na sala e ela, numa desnecessária timidez, prontamente dobrou a folha de papel, voltando a colocá-la no sobrescrito.
- Então, avó.... vamos tomar os comprimidos ? Já são cinco da tarde...
Cinco da tarde ?
Como o tempo passava depressa. Até a própria Susana lhe parecia mais velha, assim com um corpo já de mulherzinha... para os seus – a memória não estava a ajudar – doze? treze anos?
- Olá, minha Susaninha... que bom ver-te... estás linda, como sempre... mas diz-me, estava aqui a tentar lembrar-me... e já sabes que a memória gosta de me pregar partidas... quantos anos tens? Não te ofendas de te perguntar isto... mas é que sinceramente... não me consigo lembrar da data do teu aniversário...
- Oh, avó... não faz mal, não tem importância... tenho 21, quase 22... vou fazer anos para o mês que vem, no dia 17... lembra-se? No mesmo dia do tio Joaquim, que Deus o tenha em descanso...
- 22 ? Oh, minha querida... esta minha cabeça... pois é claro... dia 17... o tio Joaquim...
- Aqui tem um copo com água. Quer que lhe endireite um pouco mais a cama?
E, sem esperar pela resposta, rodou um pouco a manivela e logo a a cabeceira da cama subiu um pouco mais.
- Está melhor assim, avó?
Ela sorriu-lhe, ternurenta. Levou obedientemente os comprimidos à boca e lá os foi acompanhando de pequenos goles de água, enquanto a neta aproveitava para prender melhor os lençóis nas extremidades da cama.
- Vá... agora já chega de leituras, está bem ? Precisa de descansar... Tente dormir um pouquinho, está bem?
A avó assentiu com um movimento da cabeça, sem largar o precioso sobrescrito.
- Até já, avó... já sabe... se precisar de alguma coisa... toque a campainha, está bem? Estou lá em baixo, a arrumar a cozinha...
 
- Então, como está ela hoje?
- Como está? Está na mesma, creio...
- Reconheceu-te? Falou contigo?
- Reconheceu... não se lembrava da minha idade, mas fora isso, até falou normalmente.... e claro que estava a ler de novo a carta...
- Outra vez? Aquela carta... a que tu escreveste no Natal ?
- Shiu.... fala baixo.... a avó tem Alzheimer... mas não é surda. Sim.... essa mesma carta. Ela continua a acreditar que ainda tem 30 anos... que o avô ainda é vivo e que ainda está emigrado lá para Africa...
- Mas isso já foi há mais de querenta anos, Susana...
- E depois ? Deixa estar, Rodrigo, que eu trato disso... prefiro que ela continue assim... feliz... a reviver aquele passado... do que a pensar no presente... é melhor assim...
- Não sei se concordo contigo...
- Eu sei, já falámos disso... mas ela é minha avó, não é tua... e acredita, eu tenho mesmo que fazer isto...
- ... muito bem, tu é que sabes... e olha, a propósito, lembrei-me que talvez pudéssemos ir hoje ao cinema... o Jorge disse-me que ia passar...
- Não posso, Rodrigo... a sério, gostava muito... mas tenho que ir escrever a carta desta semana...
- A carta?
- Sim... a carta que a avó tem que receber do avô... amanhã é sexta feira... e sexta feira é o dia em que ela está sempre à espera de uma carta do avô...
 
- Susana...
- Sim, Rodrigo ?
- Sabes que eu te adoro, não sabes?
- Claro que sei... por alguma razão casei contigo, não foi ?

 

publicado por entremares às 17:12
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