Sábado, 16 de Maio de 2009

Os cinco objectos

 

Olhou para trás.
Sempre sonhara com aquele instante, sempre antecipara a excitação do regresso a casa, o frenesim da partida, a viagem...
Mas a garganta apertada e aquele nó que lhe prendia a voz traíam-lhe o olhar de aparente felicidade.
- Está pronto ? – Podemos ir ?
O marinheiro de boné branco, ainda a segurar as amarras do pequeno bote, seguia-lhe o olhar trémulo de emoção.
- Estou pronto, sim... estou pronto... balbuciou.
Mas não estava.
Dez anos depois, aquela ilha deixara deixara de ser uma mera ilha, passara a ser a sua casa, o seu lar. Ali envelhecera um pouco, ali adoecera e ali se curara, ali passara dias de fome, dias de sofreguidão, dias de desespero, dias de solidão. Ali vira passar os dias, o rasto branco dos aviões a rasgar o céu azul, alguns navios na ponta do horizonte... e silêncio, principalmente um imenso silêncio a acompanhá-lo durante todo o tempo.
O tempo dos náufragos – ele descobrira isso sózinho – era um tempo diferente, media-se por relógios diferentes dos restantes mortais. Os dias começam com o sol, terminam com o sol, desdobram-se em rotinas comandadas pelos ritmos mais elementares de satisfazer a fome, a sede... e o sono – tudo o resto são extras para um náufrago.
Elias aprendera tudo isso sózinho. Durante dez anos, naquela ilha paradisíaca dos mares do sul.
O pequeno bote soltou as amarras e o marinheiro ligou o motor.
Para trás, cresceu o mar a separá-los da praia, a copa dos coqueiros a tornar-se progressivamente mais pequena, mais escura e indistinta.
Elias não conseguia desviar o olhar.
As mãos crispadas agarravam com força um saco de lona rasgada, onde guardara alguns objectos – poucos – que pretendia conservar.
- E então... o que decidiu trazer consigo ? – perguntou o marinheiro, curioso.
Elias não o ouvia, imerso naquele despedir nostálgico.
- Recordações ? – insistiu o marinheiro, um sorriso alegre a iluminar-lhe o rosto.
- É verdade... recordações...
O marinheiro queria saber mais.
- Conte... diga lá... o que trouxe ? Alguns cocos ?
Elias sentou-se, desviando finalmente o olhar da praia .
- Pouca coisa, amigo... pouca coisa... só alguns objectos que eu mesmo fiz, enquanto ali estive...
E lá abriu o saco, um pouco contrariado, mas a querer retribuir a simpatia do jovem marujo.
- Como vê... pouca coisa... uma concha furada, que foi o meu primeiro colar... metade de um coco, que foi o meu primeiro prato... o meu velho canivete... este bambu, que foi a minha primeira cana de pesca e... este outro, também de bambu... só isto, só estas cinco coisas...
- Estou vendo... estou vendo... e olhe que você tem muito jeito para trabalhar a madeira... esse último pedaço de bambu que me mostrou... parece diferente... para que lhe servia ? Para pescar ? Estou a ver aí uns furos...
Elias olhou para o último objecto e não conseguiu evitar um sorriso.
- Ah... este aqui ? ... Este aqui é ... a minha flauta...
- Uma flauta ? Você sabe tocar flauta ?
Elias, o náufrago, ficou a olhar para o jovem – a inocência da juventude.
- Meu caro amigo – lá respondeu finalmente – quando você fica sózinho numa ilha... por dez anos... eu acho que você até tem tempo para compôr uma sinfonia...

 

publicado por entremares às 20:06
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