Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Cara ou coroa ?

 

Não jogava, mas era viciado no jogo. Nunca entrara num casino, nunca jogara em jogos de fortuna ou azar, nunca jogara às cartas e que se lembrasse, esperimentara uma única vez uma partida de dados e outra de dominó, num banco de jardim.

Mas era viciado no jogo. No seu jogo.
Precisava de decidir se devia ou não telefonar.
Levou a mão ao bolso e de lá retirou uma moeda, já bastante polida pelo roçar da ganga dos bolsos. Num gesto maquinal, lançou-a ao ar e apanhou-a na sua curva descendente, projectando-a contra as costas da outra mão. Só então a destapou – Cara.
- Pronto, está decidido, está decidido – resmungou entre dentes – vamos lá telefonar-lhe antes que me arrependa...
Pegou no telemóvel e marcou o número.
- Maria ... sou eu ... sim, está tudo bem... contigo também ? Óptimo, óptimo... olha, é o seguinte... eu, isto é, nós ... eu precisava de ter uma conversa contigo, se pudesse ser... sim... claro, agora ? Isto é ... assim, já ? ... Tens a certeza... não tens mesmo nada que fazer ? ... vê lá...
Uns minutos depois, já não podia voltar atrás.
- Ainda iria a tempo, se lhe telefonasse novamente, a adiar – continuou a gemer, sem convicção – e se eu lhe ligasse novamente ?
Atirou novamente a moeda ao ar, voltou a apanhá-la e a atirá-la sobre as costas da outra mão – Coroa .
- Pronto, está bem, não telefono – e apressou o passo, enquanto guardava de novo a moeda no bolso.
A moeda decidira, estava decidido.
Era esse o seu vício, era esse o seu jogo. Aquela moeda ditava-lhe o destino, aquela moeda tinha sempre a resposta a todas as suas perguntas, e as respostas eram sempre claras, bastava uma simples Cara ou Coroa, um sim ou um não... e estava tudo decidido. Porquê complicar as coisas, quando tudo podia ser decidido de uma forma tão simples ?
Havia decisões complicadas, é certo. Mas acreditava firmemente que, se explicasse correctamente as situações à moeda, esta lhe daria sempre a resposta mais correcta. E até agora, sempre funcionara assim.
Hoje era um desses dias, e uma dessas situações, uma situação complicada. Aliás, sempre que o assunto envolvia o sexo oposto, as situações eram, por norma, complicadas.
O certo é que estava num beco sem saída, entre a espada e a parede. Não podia protelar mais a situação, dissera-lhe ela.
- Que diabos, porque terão sempre as mulheres tanta pressa em tudo ? – ouviu-se a si mesmo a murmurar, enquanto caminhava – não me posso precipitar, não me posso precipitar...
Mas o tempo urgia. E ela fora peremptória, quando lhe apontara o dedo aos olhos e o encostara à parede – Não, não te vou dar nem mais um dia. Ou te decides e juntamos os trapinhos, agora... ou fazes as tuas malas e vais visitar a tua maezinha... para sempre.
Ora, bem vistas as coisas, ir visitar a sua mãe assim com um carácter tão... permanente, não lhe agradava nem um pouquinho. Mas juntar os trapinhos assim, de repente, ( estava a ser injusto, cinco anos não eram bem de repente, mas pronto ) ... parecia um pouco... precipitado...
A verdade é que sempre fora demasiado indeciso, e nisso ela tinha razão. Ela é que indagara junto aos seus colegas o seu nome, ela é que o convidara para uma primeira saída ao cinema, ela é que o desafiara a passar um fim de semana a fazer campismo e mais um punhado de coisas boas que lhe tinham acontecido e que, com toda a certeza, não teriam existido se ela não tivesse tomado a iniciativa.
E ela... bem, ela era ELA.
Claro que tinha atirado a moeda ao ar, quando perguntou a si mesmo se estava apaixonado, e é verdade que ficou bastante aliviado quando a moeda lhe respondeu Cara ( a moeda acertava sempre ). Claro que também atirou a moeda ao ar, antes de lhe propôr algumas coisas, durante aquele fim de semana de campistas, e ainda ficou mais aliviado nessa altura, por a moeda também lhe ter respondido Cara.
E agora ?
Sem dar por isso, chegara junto ao apartamento dela. A luz da sala estava acesa, conseguia-lhe ver a sombra projectada nos cortinados, enquanto se deslocava de um lado para o outro.
Chegara a hora da verdade, não havia volta a dar.
Levou novamente a mão ao bolso e retirou a sua preciosa moeda.
Mentalmente, formulou a sua pergunta. Aceitaria qualquer resposta, porque a moeda saberia sempre aconselhá-lo.
Atirou a moeda ao ar e decidiu deixá-la cair no chão, ao invés de a apanhar em pleno voo, como sempre fazia.
A moeda rodopiou, volteando sobre si mesma, uma, duas, três, quatro vezes...
Bateu no empedrado do passeio e escorregou uns centímetros, voltou a subir e novamente descer, tilintando.
Continuou a rodopiar, apoiada na aresta, indecisa em pousar a cara ou a coroa no chão frio. Perdeu velocidade e o som foi-se extinguindo até se imobilizar, na perfeita posição em que caíra, sobre a própria aresta.
De repente, o mundo parou.
Ficou a vê-la, atónito. Onde estava a sua resposta ? Era aquela a sua resposta ?
Passou a mão pelos cabelos, num tique nervoso já antigo.
Baixou-se e apanhou a moeda.
Voltou a guardá-la no bolso e respirou fundo.
Subiu os degraus que o separavam da porta e tocou à campainha.
A moeda já lhe dera a sua resposta.
- Maria ? Sou eu.
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publicado por entremares às 00:07
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