Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

Simplex

 

 
Pronto, estava decidido, desta vez é que tinha que ser.
Detestava hospitais, detestava centros de saude, detestava clinicas, tinha pavor de dentistas, médicos e qualquer coisa que vestisse uma bata branca. Mas detestava ainda mais aquela maldita tosse seca que lhe dava voltas ao estômago, se é que o dito orgão ainda existia.
Já tentara o chá de cebola, o mel, a aguardente e até outras coisas que nem vale a pena mencionar ... mas resultados, nem vê-los. Portanto, vá de coragem, e aí vai ela direitinho ao centro de saúde. Pelo menos uma receita de qualquer coisa há-de lá sair, e parecendo que não, isto de trazer uma receita na mão, psicológicamente falando, claro, já é meia cura...
O dia prometia. Mal abriu a porta, um sorriso iluminou-lhe o olhar; a sala de espera estava vazia, o que significava que ela não teria que esperar longas horas para ser atendida, o que significava que em breve poderia voltar para a sua casinha, o que significava que em breve estaria novamente impec, livre daquela tosse.
Começou logo a sentir-se melhor.
Avançou decidida até ao atendimento, onde uma funcionária arrumava calmamente uma pilha de papéis.
- Boa tarde – avançou – vinha ver se podia ser atendida por um médico...
A funcionária espreitou por cima dos óculos, pousou a sua pilha de papéis e veio sentar-se ao computador.
- Boa tarde – respondeu – a senhora tem marcação para que horas ?
- Marcação ? Não... não tenho marcação. Não está nenhum médico de serviço ?
A funcionária carregou numas teclas.
- Está. Está sim, por acaso até estão dois médicos de serviço.  Mas temos a sala de espera cheia neste momento.
Virou-se lentamente, a tentar perceber o que lhe estaria a escapar. Mas não, a sala de espera nas suas costas estava vazia, podia ver distintamente as cadeiras, o que significava obviamente que não existiam corpinhos sentados em cima delas. Ora se não existiam corpinhos, significava que não havia fila de espera, o que significava que ela deveria ser a próxima...
- Mas... existe uma outra sala de espera, é isso ? Julguei que esta aqui é que fosse a sala de espera ... e como não vejo ninguém... pensei que iria ser atendida já de seguida...
 
A funcionária lançou-lhe o característico olhar número três, aquele que significava – esta está a querer gozar comigo, ou o quê ? – afastou o teclado para o lado e virou o monitor, de modo a que a visitante também pudesse observar.
- Minha querida, se eu lhe disse que a sala de espera estava cheia, é porque a sala de espera está mesmo cheia. Ou não está a ver ?
Olhou para a zona do monitor que a funcionária apontava com o dedo e viu 5, 10, 12, 20... vinte e tantos pontinhos vermelhos dentro de um rectangulo, com outros dois pontinhos azuis, mais brilhantes, a piscar por cima. Não percebeu o significado, mas que o resultado era visualmente bonito, lá isso era.
- Perdoe-me .... mas não faço a mínima ideia do que me está a mostrar ... o que são essas luzinhas vermelhas e as luzinhas azuis a piscar ?
O olhar da funcionária mudou do número três para o número cinco, aquele que significava – esta é parva ou faz-se – e num tom muito fininho, elucidou:
- Minha querida, este é o Simplex, o nosso centro de saúde já está no sistema Simplex, ou será que ainda não percebeu ? As nossas luzinhas vermelhas são os pacientes que estão à espera de ser atendidos... e as luzinhas azuis são os nossos dois médicos que estão a dar consulta neste momento... não me diga que é a primeira vez que vem aqui ao centro de saúde...
Ficou boquiaberta. Bem... primeira vez não seria mas, quando tinha sido a última vez ? Talvez para renovar a vacina do tétano, ou coisa parecida. Fosse como fosse, já se tinham passado alguns anitos e aquela coisa do simplex ... era a primeira vez que ouvia falar de semelhante novidade.
Não querendo passar por completa retrógada, lá foi dizendo:
- Pois... por acaso já faz um tempinho que não venho aqui... mas tudo bem, só precisa de me explicar como isto funciona, sou daquelas que aprende depressa. O que tenho que fazer para poder ser vista por um médico ? É só isso que quero. Ando aqui com uma tosse que já não sei mais o que fazer... é só isso que eu quero... ver um médico, uma médica, um enfermeiro, qualquer coisa. Ah. E preciso de uns remédios, um xarope, ou uns comprimidos, um chá. É só. Não quero mais nada.
- Posso marcar-lhe uma consulta, se quiser...
- Quero, claro que quero uma consulta. Para quando ?
A funcionária voltou a carregar nalgumas teclas e após uns segundos de pesquisa, exclamou triunfante:
- Temos aqui umas vagas, amanhã da parte da tarde. Serve-lhe ?
- Perfeitamente. A que horas devo aparecer por aqui ?
A funcionária voltou a mostrar o olhar número cinco.
- Como assim, aparecer por aqui ?
- Para a consulta, quiz eu dizer. As consultas não são aqui ?
A funcionária exibiu pela primeira vez o seu olhar número seis, aquele que significava – faltam dois segundos para me levantar e lhe dar um par de tabefes – e começou a dar mostras de um certo nervosismo.
- Não minha querida, as consultas não são aqui. Aliás, as consultas não são em parte nenhuma deste centro de saúde, são em sua casa. São tele-consultas, você liga a sua webcam, fala com o médico em video conferência, ele receita-lhe aquilo que tiver que receitar, ele envia-lhe por mail a receita, você imprime a receita, vai à farmácia e compra aquelas coisas todas, toma aquilo tudo, fica logo boa e nunca mais precisa de voltar aqui a este centro de saúde... – e após uma pequena pausa - ... percebeu ? E aqui tem um folheto com todas as instruções, antes que a seguir me pergunte como é que amanhã vai conseguir fazer isso tudo...
Atordoada, abanou a cabeça.
Mais Simplex, não podia ser.
Voltou para casa, tossindo.
- Espero ter conseguido contagiar aquela velha bruxa, ao menos – ainda pensou, enquanto ia conduzindo vagarosamente até casa.
No dia seguinte, à hora marcada, sentou-se em frente ao computador e começou a seguir as instruções . Ligar o computador, aceder ao site do centro de saúde, introduzir a referência, esperar... escolher o tipo de serviço ... esperar, esperar ... introduzir nova referência ... indicar o nome do médico, esperar ... esperar ... confirmar com o número da segurança social , esperar ... colocar uma cruzinha do tipo de consulta , esperar ... ah, finalmente, lá estava , aceder à sala de espera , ... esperar, esperar... esperar...
o que era aquilo ?
Aproximou-se um pouco mais do monitor para poder ler a mensagem no centro do ecran.
“ LAMENTAMOS, MAS NESTE MOMENTO NÃO É POSSÍVEL SATISFAZER O SEU PEDIDO. O CENTRO DE SAÚDE VIRTUAL SIMPLEX  1.0 ENCONTRA-SE EM MANUTENÇÃO. POR FAVOR TENTE MAIS TARDE.”
Teve que ler três vezes a mensagem, antes de conseguir perceber o significado.
Levantou-se vagarosamente e dirigiu-se atá à cozinha. Abriu a gaveta dos talheres, pegou numa faca afiada e rumou à despensa. Onde estavam elas ?
Do caixote respectivo, apanhou a maior das cebolas, apanhou um prato e começou meuito lentamente a retirar a casca da cebola.
- Nem que eu a tenha que comer à dentada...  
tags:
publicado por entremares às 15:49
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.BlogGincana


.Fevereiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. Simplex

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.Os ouvintes das histórias

online

.links

.as minhas fotos

.Nº de Navegadores

Get a free html hit counter here.

.Google

.Quem navega...

Locations of visitors to this page

.Gazeta dos Blogueiros

Gazeta dos Blogueiros
blogs SAPO

.subscrever feeds