Domingo, 27 de Setembro de 2009

Saudades do mar...

 

 

A garrafa verde escorregou-lhe das mãos. Lisa, muito polida, reluzente.
- A garrafa ideal – pensou
Sentou-se no cimo da duna, virado para o mar.
O céu azul confundia-se na linha do horizonte com a mancha escura das águas. Apesar do sol quente de Setembro, a praia estava deserta, as águas geladas, os veraneantes já regressados a casa. As conchas, os búzios, os mexilhões, podiam sair de novo tranquilos pela maré, reis e senhores do espaço que sempre fora seu.
Com a mão em concha, dedicou-se a ver deslizar a areia seca pelo gargalo da garrafa, como se de uma ampulheta se tratasse. Pelo meio, atirou lá para dentro algumas conchas minúsculas, que ficaram a brilhar, reflectindo o sol no vidro polido.
Um pensamento atrevido bailou-lhe no olhar e deixou-se rir. Iria valer a pena.
Só de pensar…
 
- Já vou, já vou…
Apertou o roupão caqui e desceu as escada aos tropeções. Sábado de manhã. Um dia sagrado. Será que a campainha da porta não deveria adivinhar que era sábado de manhã e, pura e simplesmente, não tocar?
Não… decididamente, não.
Quem seria, a uma hora daquelas?
 
Abriu a porta e a claridade cegou-a momentaneamente.
- Encomenda para a senhorita Sara…
O moço das entregas, todo aprumado na sua farda azul e cinzenta, esticava o braço, um pacote pequeno, cravejado de selos.
- Uma encomenda? Para mim?
Ele passou-lhe o recibo para assinar e entregou-lhe o pequeno pacote, pouco maior que um pacote de leite.
- Está bem, está bem… desde que não seja…
Levou-o ao ouvido, meio a sério, meio a brincar. Não… não fazia tic-tac… portanto, podia respirar aliviada.
 
Atirou-se para cima do sofá, mordida pela curiosidade. Ao invés de tentar ler o nome do remetente, atirou-se com energia a desfazer o cartão da encomenda. No interior, muitas tiras de papel, pedaços de plástico, bolinhas de ar… e uma garrafa. Uma garrafa verde.
Ficou a olhar para a garrafa.
Areia? Seria areia, aquilo no seu interior?
Foi então que reparou na pequena folha de papel, caída sobre o tapete da sala. Nem reparara nela, na excitação de abrir o pequeno pacote.
Desdobrou-a, numa curiosidade incontida.
 
“ Não é bem o mar… só um punhado de areia, para matar a saudade”
 
Retirou a rolha e entornou um pouco do precioso conteúdo sobre as mãos. Que saudades daquela sensação, dos minúsculos grãos de areia a rolar sobre a pele. Ainda cheiravam a mar.
Fechou os olhos e deixou-se estar ali sentada, por muito tempo.
Só ela… e o mar.
 
Nota: Dedicado à nossa amiga Sara, aqui sempre sentada à volta da fogueira…. E que em Munique, Alemanha, sente saudades do seu mar.
Sara ( http://sara-boulevardofbrokendreams.blogspot.com/ ) os teus amigos aqui do entremares mandam-te abraços, beijos … e uma garrafa de areia, para atenuar a saudade.

 

publicado por entremares às 00:11
link do post | comentar | ver comentários (22) | favorito
|

.mais sobre mim

.BlogGincana


.Fevereiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. Saudades do mar...

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.Os ouvintes das histórias

online

.links

.as minhas fotos

.Nº de Navegadores

Get a free html hit counter here.

.Google

.Quem navega...

Locations of visitors to this page

.Gazeta dos Blogueiros

Gazeta dos Blogueiros
blogs SAPO

.subscrever feeds