Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

Roby, o rei leão

 

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Naquele tempo já distante em que os animais ainda falavam, vivia na floresta um leão, chamado Roby.

Como autêntico rei da selva, Roby era atlético, senhor de uma juba imponente, um corpo bem musculado, garras poderosas e uma cauda ondulante, que fazia inveja a todos os jovens machos do bando.

Na devida altura, o pai passou-lhe a chefia do grupo, dizendo:

- Roby, meu filho… como és o mais velho entre todos os teus irmãos, serás tu a liderar o nosso grupo, de hoje em diante. É uma grande responsabilidade. Sê forte, sê audaz, e ajuda todos os que precisarem de ti. Percebeste bem?

Roby disse que sim, mais receoso que orgulhoso das suas novas funções de líder.

- Agora chegou a tua hora, meu filho… vá… ruge bem alto, chama todo o grupo, para que todos venham prestar-te vassalagem…

 

Roby encheu o peito de ar e rugiu, bem alto, o mais alto que conseguiu. O seu primeiro rugido como rei e senhor da selva.

Ou pelo menos… tentou.

Um som fininho, vagamente semelhante ao miar de um gato, deixou o pobre pai à beira de um ataque de nervos.

- Roby… - ia resmungando entre dentes – não me envergonhes… isso não é um rugido, parece antes uma hiena engasgada… vá, filho… um rugido…

O jovem Roby lá tentou de novo, erguendo bem alto a cabeça.

A segunda tentativa ainda foi pior. O som, para além de fininho, saiu-lhe todo entrecortado, com altos e baixos, lembrando aquela altura da juventude em que, ao mudar da voz, os jovens machos eram objecto de gozo de todas as leoas do grupo. Só que Roby já passara essa fase da adolescência… ou pelo menos, pensava já ter ultrapassado.

O pai, aflito, arrastou-o para junto das ervas altas, longe dos olhares do bando.

- Roby… o que se passa, meu filho? Que voz é essa?

- Não sei, pai… suponho que é a minha voz… sempre foi assim…

O pai leão abanava a juba, sem se dar por convencido.

- Nem pensar, Roby, nem pensar… filho meu tem que ter voz de leão, rugido de leão… tu deves estar constipado, é isso… ou doente… ou… ou…

Roby não gostou do olhar do pai.

- Ouve lá, filho… - e o pai baixou ainda mais a voz – tu não és… sabes… aquelas modernices que agora se vêm por aí na selva… tu tens uma juba rija, não tens?

E como Roby não tivesse percebido:

- Roby, filhinho… diz lá, diz lá…. Tu és mesmo um leão de juba rija, não é? Por favor diz que sim, diz que sim…

Roby finalmente vislumbrara os receios do pai.

- Oh, pai… claro, claro… claro que sou um leão de juba rija… mas eu sempre tive esta voz… não consigo rugir mais forte que isto…

 

E assim, alegando um leve contratempo de saúde, o pai leão lá desconvocou a tomada de posse do filho como rei e senhor da selva, e a passagem de testemunho ficou adiada por uns dias.

 

Roby apercebeu-se de repente que tinha um grave problema para resolver. Ou engrossava a voz e rugia como um verdadeiro leão… ou bem que se podia preparar para enfrentar a gargalhada geral, quando tentasse reunir o grupo completo à sua volta. E depois da gargalhada… viria o desdém, o desprezo, o sarcasmo, a anedota, talvez até o exílio.

Mas… o que fazer?

Sinceramente, não fazia a mínima ideia.

 

Nos dias seguintes, tentou de tudo. Afastou-se para a montanha e gritou, rugiu, esperneou, provou todas as ervas curativas que conhecia e ainda algumas que lhe pareceram ter um aspecto minimamente comestível. Como consequência, não melhorou o rugido, ficou rouco e os intestinos passaram a funcionar a alta velocidade. Não, na verdade… nada estava a resultar.

 

- Estás mesmo desesperado, não estás?

Olhou aflito em todas as direcções. Havia sido descoberto, oh vergonha, humilhação. Agora sim, tudo estaria irremediavelmente perdido.

- Qu-e-m.. q-u-em… és tu?

 

A jovem leoa, sentada calmamente a poucos metros de distância, à sombra de umas árvores, observara com um sorriso malicioso todas as vãs tentativas do jovem Roby.

- Eu sou Lara, do grupo do vale… - apresentou-se ela, sem sair da sombra – e tu, quem és? E porque tens estado a gritar tanto, durante todo este tempo?

- Eu sou Roby…candidato a ser a anedota do bando da montanha…

- Prazer em conhecer-te Roby… e posso saber porque vais ser a anedota do bando?

 

Roby procurou a sombra protectora e sentou-se junto da jovem leoa. Muito a custo, lá foi contando a sua infelicidade, a vergonha do pai, o adiar da cerimónia, os seus esforços inúteis para engrossar a voz, o desespero de não conseguir encontrar uma solução…

Ela ouvia-o, abanando de vez em quando a cauda, sempre que a aflição de Roby o fazia gaguejar.

 

- Sabes, Roby… eu creio que tenho a solução para o teu problema…

 

Roby abriu os olhos de espanto.

- Tens? Tens mesmo?

Ela abanou ao de leve a cabeça, naquele jeito que só as jovens leoas sabem fazer.

 

Passaram-se três dias.

 

Tremendo de inquietação, o pai leão lá foi chamando todos os elementos do bando.

- Venham cheguem-se aqui ao pé de nós… quero-vos todos aqui junto do nosso Roby… vá, venham todos, venham todos…

Formou-se aos poucos uma clareira e o jovem Roby ocupou o centro, lançando um olhar tímido a toda a assistência – estavam ali todos os irmãos, os primos, tios e tias, um dos avós… e a um canto, levemente afastada … Lara, a jovem leoa.

 

- Meus amigos… - começou o pai leão – estamos novamente aqui reunidos, para testemunharem todos a minha passagem de testemunho ao nosso Roby, que de ora avante, será o novo líder do grupo da montanha. Roby…

Aquele “ Roby “ era a deixa, a parte do filme em que o jovem leão deveria rugir com toda a força. E de seguida, um por um, todos  os elementos do bando viriam ajoelhar-se aos seus pés, prometendo-lhe vassalagem.

Roby encheu o peito de ar… e rugiu.

Um som forte, ameaçador, que ecoou por toda a montanha, um rugido digno de um rei.

O pai leão, embevecido, olhava o jovem Roby de lágrima ao canto do olho, olhando disfarçadamente para o lado.

E um por um, lá foram todos os leões e leoas do grupo ajoelhando junto do novo rei e senhor da selva. Lara fechou o cortejo, como convidada, retirando-se logo de seguida para um canto, tentando não dar nas vistas.

Mas demasiado tarde.

O pai leão, a quem nada escapava, esperou pacientemente pelo final da cerimónia. Esperou que todo o bando dispersasse e finalmente dirigiu-se até junto do filho.

- Roby, meu filho… que magnífico rugido…

O filho baixou os olhos, ainda mal refeito de toda a emoção da cerimónia.

- Ainda bem que gostou, pai…

- Claro que gostei… adorei… eu não faria melhor… mas… conta-me, conta-me… como conseguiste ?

- Oh, pai… não posso contar… é segredo…

- Segredo? Ora essa… porque haveria de ser segredo?

- … porque… porque ela me pediu segredo…

- Ela? Quem é ela?

E como Roby desviasse o olhar na direcção de Lara:

- Ah… percebo…. Tem uma leoazinha no meio deste assunto, é isso? Mas precisa de ser segredo, meu filho… claro que serão os dois muito bem recebidos no grupo…

- Três, meu pai…

- Desculpa?

- Três… eu disse que somos três…

- Três? Vem mais alguém convosco?

 

O novo rei Roby rugiu de mansinho, enquanto chamava Lara para junto de si.

- Vem sim… um herdeiro…

 

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