Terça-feira, 23 de Junho de 2009

A Prova

 

Certo dia, o rei Frederico convocou os seus três filhos à sala do trono.
O reinado fora longo e próspero, o reino gozara de uma paz duradoura e as feridas de guerras passadas cicatrizavam agora à sombra de colheitas generosas e tempos de abundância.
Mas o rei Frederico estava velho, e o fulgor dos tempos de juventude dera lugar ao cansaço e à doença. Tudo tinha o seu tempo e o rei sentiu naquele dia que o seu tempo era chegado; era altura de passar o testemunho, e considerava-se um homem feliz por ter três filhos, qualquer deles capaz de segurar as rédeas do reino, com firmeza e sabedoria.
- Meus filhos… chamei-vos hoje aqui para vos pôr a par da minha decisão…
Silandro, Orlando e Fernando trocaram olhares; Não podiam ser mais diferentes entre si.
Fernando, o mais velho, sempre demonstrara um à vontade notável nas artes da guerra, cavaleiro exímio, imbatível com a espada, vencedor crónico de todas as justas e torneios. Orlando, o filho do meio, desde cedo ganhara o cognome de “ O Formoso “, irradiando aquela aura cativante de boa disposição, sempre com um dizer afável na ponta dos lábios, um elogio cortês às damas da corte e, muito naturalmente, o solteirão mais cobiçado de todo o reino… e arredores.
Silandro, o mais novo dos três irmãos, sempre se entregara ao estudo e às artes. Uma queda de cavalo deixara-lhe como lembrança um leve coxear, e a vontade de nunca mais tentar competir com o irmão mais velho em torneios, fosse a pé… ou montado a cavalo. Sempre tivera a seu cargo a guarda da Torre Sul, onde se avolumavam os registos do reino, os alvarás, os éditos reais, os registos das propriedades… toda a história escrita do reino.
- Estou velho – continuou o rei – e em boa hora Deus me deu três ilustres filhos, qualquer deles merecedor de continuar o meu trabalho, è frente dos destinos do reino…
Fez uma longa pausa para respirar.
- Vou nomear um de vós Chanceler do reino… assumindo grande parte das minhas funções… até à minha morte, altura em que será coroado rei…
- Meu pai… afaste esses pensamentos tenebrosos – interpôs logo o filho mais velho - … ainda vai estar connosco por muitos e bons anos…
O ancião sorriu, benévolo.
- Talvez, Fernando, talvez… mas fraco rei seria eu senão acautelasse o futuro do reino… e o futuro passa por vós, os três…
- E qual de nós escolheu, meu pai, para essa tarefa ? – quis saber Orlando.
- Ainda não escohi, meu filho… aliás, vós mesmos ireis escolher… porque decidi propor-vos uma prova, um desafio… e o vencedor de tal prova será certamente merecedor de tomar nas mãos os destinos do reino…
Uma prova?
Os três filhos trocaram de novo olhares curiosos entre si.
- A prova é simples, meus filhos… amanhã, ao nascer do sol, vou entregar a cada um de vós um arcabuz e três balas de mosquete… somente três balas. Devereis dirigir-vos à floresta, sozinhos… e tentar caçar o maior veado que encontrardes. Esperarei por vós ao final do dia, aqui nesta mesma sala… e aí conhecereis a minha decisão.
O filho mais velho rejubilou. Uma prova de caça? De destreza com as armas? Pois aquilo seria o mesmo que entregar-lhe, já ali, as chaves do reino, pois todos sabiam que não existia caçador mais audaz, pontaria mais certeira que a dele, príncipe Fernando.
Silandro e Orlando permaneceram em silêncio, apreensivos.
 
E como o rei ditou, assim se fez.
Na manhã seguinte os três príncipes partiram para a floresta, sozinhos e em direcções opostas, à procura do maior troféu para apresentar ao pai, ao final do dia.
O futuro decidia-se ali… e todos sabiam disso.
 
- Entrem, meus filhos, entrem…
O rei Frederico já se encontrava sentado no trono, ladeado pelos seus mais fiéis e antigos conselheiros.
O príncipe Fernando entrou triunfante na sala, arrastando um enorme veado. A custo, foi deixá-lo aos pés do trono.
- Aqui tendes, meu pai… o resultado da minha prova. Estou certo que será merecedora da vossa atenção…
Soltaram-se murmúrios de espanto; não era todos os dias que se conseguia vislumbrar um animal de tal porte, com um ar tão imponente… um belíssimo exemplar, sem dúvida alguma.
- Estou sem palavras, meu filho… é na verdade um exemplar magnífico, e tenho a certeza que todos os presentes partilham da minha admiração…
O príncipe Orlando entrou então na sala, acompanhado do seu aio. Juntos, arrastaram até junto do rei uma presa ainda maior, um veado de pelo castanho, um macho imperial, que todos já julgavam extinto na floresta.
Os conselheiros do rei levantaram-se em desassossego.
- Como é possível? - murmurava-se pelos cantos – sempre pensámos que já não existiam mais…
- Meu pai – e o príncipe Orlando colocou um pé sobre a presa abatida – estou certo que reconhecereis que a minha prova alcançou os melhores propósitos … e resultados. Espero que esta presa imponenteseja do vosso agrado, e eu merecedor da vossa escolha…
O rei fitava o enorme animal, tombado a seus pés.
- É na verdade, impressionante, meu filho. Creio que nem eu próprio algum dia vi tamanha beleza ou porte num destes animais… Estou sem palavras…
Finalmente, o filho mais novo entrou na sala do trono.
Mas, ao contrário dos irmãos, vinha cabisbaixo e de mãos vazias.
Aproximou-se lentamente do trono e aí se quedou, joelho em terra, vergado pelos olhares desdenhosos de todos os presentes.
- Meu pai… não tenho nada para vos entregar… e apesar de todos os meus esforços… não consegui capturar nenhuma presa…
Risos, murmúrios.
O rei ergueu a mão, impondo silêncio.
- Mas, Silandro… o que aconteceu? Os teus irmãos apresentaram-me peças dignas de um rei e tu… dizes-me que não conseguiste capturar nada ?
- É verdade, meu pai… e lamento profundamente a vergonha que a minha falta de destreza vos cause… pensava ter acertado em duas presas magníficas… mas elas conseguiram fugir-me, como se ajudadas por uma força sobrenatural…
Fez-se um silêncio pesado na sala.
Durante longos momentos, o rei passou a mão pelo queixo, pensativo. Finalmente, ergueu-se, desceu os degraus que o separavam do filho mais novo e, segurando-o pelos ombros, exclamou bem alto:
- Ergue-te, ó chanceler do reino!
 
A sala de pronto se encheu de comentários e protestos. Como era possível? Escolher o benjamim, precisamente aquele que fracassara na mais elementar prova de destreza e coragem, para chanceler do reino? Como era possível?
- Meu pai… - e o filho do meio avançou dois passos, furioso – só podereis estar a brincar…
O rei levantou de novo a mão e o olhar, antes cansado e dormente, recuperou por instantes o fulgor de outros tempos.
- Silêncio.
Assim se fez.
 
- Meus filhos… hoje, todos vós – e ia apontando um a um todos os nobres presentes na sala – devereis aprender uma lição… porque governar bem não é só ser corajoso, audaz, temerário até… bem pelo contrário… governar bem obriga a ser humilde… a saber reconhecer as suas próprias limitações, saber assumir os erros… ser verdadeiro.
Ninguém compreendeu as palavras do rei. Mas só o seu mais velho conselheiro se atreveu a colocar tais pensamentos em palavras.
- Meu rei… conhecemo-vos há muito tempo… e sabeis decerto que respeitaremos a vossa vontade, seja ela qual for… mas não compreendemos o que neste momento aparentemente nos estais a querer dizer…
O rei, virando-se para o seu conselheiro, sorriu.
Havia muito, muito tempo, que ninguém via o rei Frederico sorrir assim…
- Compreendo a vossa estranheza… - continuou o rei – mas a explicação é simples. Eu próprio coloquei a pólvora seca na munição que os três príncipes levaram hoje para a floresta… e como todos vós deveis saber, a pólvora seca não abate nem um insignificante pato, quanto mais estes belos exemplares que tenho a meus pés…
E, virando-se para os dois filhos mais velhos:
- A pólvora seca só abate a ganância… e a vaidade…
 
Debruçou-se sobre o filho mais novo, boquiaberto e ainda de joelho em terra, e voltou a repetir, bem alto:
 
- Ergue-te, Chanceler do reino!

 

publicado por entremares às 20:31
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