Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

O salto da alma nua

 

O novo endereço do ENTREMARES é: http://www.entremares-entremares.blogspot.com/

 

 

- Vais desistir, não vais?
Aquela voz irritante recordava-lhe a sua própria voz, de tempos idos.
Houvera um tempo longínquo em que se lembrava de ter tido uma voz assim – fina de falsete, adoçicada e sempre cheia de reticências.
- Não, não vou.
- Mas os obstáculos... já viste a altura do obstáculo? Tu nunca saltaste nada assim...
E a voz, cómodamente instalada na sua cabeça, mantinha-se inalterável no timbre, na entoação.
- E aliás... – continuou – o que te garante que depois desse obstáculo não exista um poço, uma pedra onde tropeçes? Podes cair, podes magoar-te, pensa nisso...
Tentou distrair-se, olhar pela janela. Lá fora, a paisagem era sempre a mesma, não existe muito que ver quando se está a voar a muitos quilómetros de altura, numa cadeira desconfortável e bem localizada sobre a asa do avião.
E a voz não sossegava.
- Repara... mesmo que consigas... por uma questão de sorte que eu nem acredito ... saltar esse obstáculo... haverá sempre outros depois... não os poderás ultrapassar todos... vê... reflecte...
Imaginou-se a ele próprio, diante do seu obstáculo.
Sabia que em parte, a voz irritante tinha razão num ponto. Nunca tentara antes saltar... sobre um obstáculo tão grande, tão complexo. Sabia. Sabia que carregava consigo o peso extra de muitos anos de dúvidas, de lastro emocional que agora lhe pesava sobre os ombros.
E a voz não desarmava.
- Repara... vê o que estás a fazer... embarcaste neste avião... nesta viagem... completamente às escuras de tudo.... estás seguindo um instinto, uma imagem... nada do que procuras é real, não existe...
Ergueu-se da cadeira e foi esticar as pernas doridas ao longo do corredor.
Não, não desistiria.
Sabia... – descobrira-o recentemente – sabia o que tinha que fazer.
E no seu cérebro, a imagem negra de um obstáculo intransponível desvaneceu-se aos poucos, acinzentando os cantos, deixando a luz entrar pelas frestas do quadro ressequido das suas próprias memórias.
Viu-se a tirar toda a sua roupa, do corpo e do espírito, até ficar nu, completamente nu.
Ao fundo, a voz irritante continuava a protestar argumentos confusos, cada vez mais distantes à medida que as peças de roupa iam tombando sobre o chão.
Finalmente, ficou nu.
Sózinho... ele e o seu obstáculo.
 
Correu.
Com todas as forças, como se estivesse a perseguir o último grão de ar, o último sopro de vida.
Saltaria aquele obstáculo, sim.
E aquela viagem.
E todos os obstáculos que estivessem depois daquele, escondidos na penumbra.
E todas as viagens, e todas as esperas que ainda se fizessem necessárias.
 
E foi então, algures por entre os passos sôfregos, o coração a bater cada vez mais rápido... que deixou de ouvir a voz.
 
Sorriu.
- Desistir? Nunca...

 

publicado por entremares às 00:09
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|

.mais sobre mim

.BlogGincana


.Fevereiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. O salto da alma nua

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.Os ouvintes das histórias

online

.links

.as minhas fotos

.Nº de Navegadores

Get a free html hit counter here.

.Google

.Quem navega...

Locations of visitors to this page

.Gazeta dos Blogueiros

Gazeta dos Blogueiros
blogs SAPO

.subscrever feeds