Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

O suicidário

 

Vagarosamente, como se o gesto lhe pesasse o mundo inteiro, encostou o metal frio à testa e fechou os olhos. O contacto fê-lo estremecer.
Não era natural.
Voltou a baixar a arma e ficou a olhar para ela, sem a ver. Os olhos continuavam perdidos noutros mundos que não aquele, em tempos já passados, desfilando momentos em conta-gotas, como se a vida inteira pudesse ser desmontada numa sequência de imagens e repassadas diante dos olhos, uma a uma…
Porque seria que a eminência do fim tornava tão clara a percepção do passado ?
De repente, recordava pormenores que julgara perdidos há muito; o sabor dos bolos caseiros da avó Joana, o perfume dos cabelos do seu primeiro amor, o ruído manso do rebentar das ondas na praia das Maçãs, a sensação que lhe fizera estremecer os dedos, quando comprou o seu primeiro automóvel e o conduziu pela primeira vez… ou o rosto da mãe, falecida na véspera do seu sexto aniversário.
Como era possível aquela recordação tão nítida ?
Continuou sentado no banco de jardim, debruçado para a frente, as duas mãos a segurar aquele objecto escuro, frio e mortal.
- Hoje é um dia tão bom como outro qualquer … - ouviu-se a ele próprio dizer, em voz baixa.
Qual era o seu papel, no meio de tudo aquilo ? Afinal de contas, todos temos que ter um papel, não é ? Seja ele o de protagonista, o de actor secundário ou simplesmente figurante.
Mas, naquela precisa situação… não estava a conseguir descobrir qual era o seu papel.
- Detesto o papel de figurante…
Por um momento, sentiu que a sua importância se resumia a zero – inexistente. Quem sentiria a sua falta ?
- Um par de amigos, talvez…
Os amigos ? Sim… os amigos ainda eram uma das coisas boas desta vida, isso era verdade… os amigos não eram como a família, que acontece, sem escolha ou decisão própria… os amigos ao menos escolhem-se… e só se escolhem aqueles e não outros quaisquer.
Mas não era suficiente. Ou pelo menos, naquele momento… sentia que nada era suficiente.
Ergueu de novo o braço e voltou a encostar o cano frio da arma à testa.
Um segundo. Só precisava de um único segundo e depois… depois já nada teria importância, tudo se esfumaria numa névoa e algo aconteceria. O quê, não sabia. Mas estava preparado para tudo… e o que viesse a seguir … que viesse.
A mão tremeu-lhe, quando encostou o dedo ao gatilho.
Inspirou fundo e, sem pensar mais, carregou com força.
Um estalido … e pronto.
 
A escuridão veio depois.
Um escuridão bem densa, quase palpável, que se colava ao corpo como um nevoeiro de Inverno, fria e desconfortável.
Os segundos passaram… e a escuridão permaneceu. Tal como o silêncio, um silêncio pesado, sem o toque de trombetas, o cantar dos anjos ou as labaredas do inferno. Nada. Só mesmo o silêncio.
 
Finalmente… a luz.
Um luz imensa, projectada directamente sobre ele, ofuscante.
Levantou-se comovido, ainda a piscar os olhos e sem conseguir ver nada.
O público batia palmas entusiasticamente.
O som era ensurdecedor, mas maravilhoso.
Curvou-se, agradeceu os aplausos, uma e outra vez.
O pano teimava em não cair e ele ali permaneceu, despido de vaidades, sozinho no palco, a agradecer os aplausos do seu monólogo com a morte.
- Obrigado… obrigado …
E uma e outra vez, curvou-se para agradecer os aplausos…
publicado por entremares às 12:19
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