Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Uns e os outros ( Retratos da vida )

 

Seis, sete… oito… nove. Nove pessoas.
Como era possível, nove pessoas? “Les uns et les autres”, a repetição rara de um clássico, numa sessão da meia noite… e só nove pessoas? Mas por onde andava o bom gosto? Ou só aqueles filmes de Hollywood com as grandes estrelas é que conseguiam esgotar as salas de cinema?
Não… decididamente, devia ser uma questão de gosto…
A sala, mergulhada na penumbra, ronronava ao som ténue de uma musica ambiente, indefinida.
Escolheu uma fila sensivelmente a meio da sala, cadeira numero nove. À sua frente, um casal de namorados, um pouco mais longe uma mulher sózinha e bem atrás de si um grupo de cinco adolescentes, ali sentados certamente por engano. Finalmente, bem na última fila, um solitário já de certa idade. Ficou na dúvida se estaria acordado ou a dormir, tal a posição incómoda em como dobrara o pescoço para trás.
O pano subiu.
Um a um, os bailarinos do Folies Bergière entraram em cena, o filme começava com todo o brilho dos anos trinta, numa Paris cheia de luz, desafogada e boémia, indiferente aos ventos da guerra que se aproximava.
Os cortinados das portas abriram-se ainda uma vez, dando passagem a mais dois espectadores atrasados. Um deles correu para a primeira fila – que estranho – e o outro sentou-se na mesma fila que a sua, mas no outro extremo.
 
Estaria a chorar?
Tentou olhar para ela, sem chamar demasiado a atenção.
O som abafado de um choro, disfarçado pela banda sonora do filme, chegou-lhe aos ouvidos.
O vulto feminino, sentado na sua fila, a meia dúzia de cadeiras de distância, agitou-se um pouco, ocultando a face com as mãos.
Estaria a chorar?
 
No grande écran, as tropas alemãs entravam triunfalmente em Paris, marchando sob o Arco do Triunfo. A música subia de tom, num rufar de tambores, para logo se distanciar, enquanto as imagens se sucediam, misturando a alegria dos vencedores com a amarga tristeza dos vencidos. A guerra, com toda a crueza da morte, enchia o ecran embrulhada de música, com se de um requiem se tratasse.
Olhou de soslaio para o lado.
Por um segundo, os olhares cruzaram-se... e ele desviou-o prontamente, aflito.
 
Alheias à vida real, as personagens da vida dos outros continuavam a desfilar, diante dos olhos. Algures, um pai recebia a noticia da morte dos seus dois filhos, enquanto ao lado uma mãe recebia um postal rabuscado à pressa pelo filho. A guerra continuava a ceifar vidas, num filme sem heróis. E a musica... sempre a musica... magnética, como um perpétuo bolero, acompanhando as histórias cruzadas de gente vulgar, vivendo momentos invulgares.
Não resistiu e virou-se lentamente.
Ela olhava-o fixamente e ele sentiu um frio a subir-lhe pelos dedos. E novamente desviou o olhar.
 
O bolero de Ravel.
Impossível não sentir algo. Apesar de ser a segunda vez... a sensação era a mesma. Aquele torpor saboroso que lhe assaltava os membros, adormecendo-os gradualmente, enquanto a música, repetitiva, ia subindo num crescendo. E no grande écran, o bailarino compassava os movimentos ao ritmo dos acordes, subindo, descendo, voltando a subir...
Sem dar conta, olhou para o lado, à procura dela.
Inclinada para a frente, parecia sofrer.
Um segundo antes de se arrepender, levantou-se da cadeira.
De cabeça baixa, percorreu as poucas cadeiras vazias e foi sentar-se ao lado dela.
 
- Sente-se bem?
Ela ergueu o olhar e uma lágrima rebelde disse-lhe que não, que não estava bem. Quis murmurar algo, mas os lábios entreabriram-se num silêncio suplicante.
- Precisa de algo? Não se sente bem? – insistiu ele, tentando ler-lhe os lábios.
- Não... obrigado – estou bem...
E debruçou-se de novo para a frente, os cabelos em desalinho a esconder-lhe o rosto.
- Venha apanhar um pouco de ar... far-lhe-á bem... venha...
E tocou-lhe no ombro.
Ela olhou-o bem no fundo dos olhos, como se lhe estivesse a decifrar os pensamentos.
- Você também veio procurar um local para chorar? – perguntou ela finalmente.
 
Ele não entendeu.
- Desculpe... não a compreendo...
Ela limpou os olhos húmidos com as costas da mão. A voz ainda lhe soluçava na garganta.
- O meu marido partiu ontem para o Afganistão... e eu estou em pânico... a sério que estou... tenho medo, tenho muito medo que alguma coisa lhe possa acontecer... a guerra é uma coisa horrível...
Ele ficou a contemplá-la, sem saber o que dizer.
- E você? Reparei que também estava triste, há pouco... o que veio aqui fazer?
 
Ele não lhe respondeu. Por um segundo, veio-lhe à memória a primeira vez que vira aquele filme, há mais de vinte anos. Na altura, numa sala cheia, ruidosa. Entrara de braço dado com a mulher, a gozar o último fim de semana de lua-de-mel. Ela adorara o filme e fizera-o prometer que voltariam uma segunda vez, só para poder apreciar de novo aquele bolero de Ravel.
 
Não pudera satisfazer-lhe o pedido.Poucos dias depois, um motorista embriagado ignorara um semáforo... e assim, simplesmente assim, de uma maneira tão fútil e sem sentido... perdera-a.
Para sempre.
Mas aquela mulher sentada ali ao seu lado não sabia isso.
Como no filme, a vida de uns simplesmente coexistia com a vida de outros.
Alheia a todos os pequenos dramas da vida real.
Involuntáriamente, abraçou-a.
 
No grande écran, o bolero de Ravel continuava, imperturbável, o seu crescendo, explodindo num frenesim de luz e de cor, com Paris ao fundo.

 

publicado por entremares às 21:33
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