Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Memórias de uma lâmpada...

 

 

Monótono. Aborrecido. Entediante.
Tentou lembrar-se de outros adjectivos... mas até isso lhe parecia particularmente desinteressante.
Revirou-se no grande almofadão de seda azul, debruado a fios dourados, procurando algo para fazer.
Nada. Rigorosamente nada para fazer.
Voltou a encher o cachimbo de água, o mais lentamente que lhe foi possível. Mas, por mais tempo que emprestasse à tarefa, sabia que ainda lhe sobraria muito mais, muito mais tempo... sem absolutamente nada para fazer, excepto estar ali, à espera...
A vida de Al-Kazan, Al-Kazan Be-Dur de seu nome completo, dependia do tempo; apesar de ser escravo dele.
Al-Kazan era um mágico da lâmpada.
Dito desta maneira, poder-se-ia pensar que a sua vida seria excitante, plena de aventuras e peripécias a correr o mundo mas... a verdade, essa... era exactamente o oposto.
Al-Kazan era um mágico de carreira, herdara a profissão do pai, que por sua vez também já a herdara do seu avó, e assim sucessivamente. Uma nobre profissão, diga-se de passagem, e muito respeitada.
E, como em qualquer profissão que se preze, existiam regras, regras que tinham que ser cumpridas, mesmo que Al-Kazan não concordasse com elas...
Quantas missões já cumprira ?
Pois... residia aí o pequeno problema.
Al-Kazan ainda tinha pela frente mais uma obrigação... a última. O contrato que assinara era muito claro, e lá colocara a sua assinatura, sem hesitações; Cinco missões, cada uma delas com três desejos, demorasse o tempo que demorasse a cumprir...
Só depois viria a reforma, e a liberdade absoluta.
- Por este andar... ainda serei velho antes de me reformar... – queixava-se repetidamente, resmungando consigo próprio pela aparente falta de sorte da sua pessoa. Conhecia alguns colegas – bastantes, até – que em meia dúzia de anos, haviam cumprido o contrato inteiro e ele, Al-Kazan, já por ali andava há mais de quinze séculos... e ainda lhe faltava uma missão para cumprir.
Sinceramente... já era falta de sorte.
Aspirou demoradamente a névoa esbranquiçada que se desprendia da infusão de ervas que depositara no cachimbo de água. Já perdera a conta ao número de cachimbos que fumara; aliás, já gastara todos os jogos que conhecia, jogando-os sózinho ou contra si próprio, deitado sobre os tapetes persas que cobriam por completo o interior da lâmpada.
Aborrecido, mesmo muito aborrecido.
Apesar do interior da lâmpada ser confortável – bastante confortável, mesmo – não se comparava com o exterior, com aquela sensação única de estar sob o sol do deserto, sentindo a pele a aquecer, o vento a agitar as folhas das palmeiras, o travo amargo das tâmaras a escorrer pelos cantos da boca.
Engoliu em seco. Pensar em todas essas coisas ainda o deixava mais deprimido. A sua função era a de esperar ali, pacientemente, até que alguém solicitasse a sua intervenção, no mundo exterior. Nessa altura, saíria, cumpriria os três desejos estipulados, desejaria muito boa sorte a esse ultimo amo e ... partiria para bem longe dali, para o conforto do seu deserto natal, algures nas arábias...
A memória de um mágico da lâmpada era uma autêntica colecção de momentos ímpares, decorridos nos quatro cantos do mundo, realizando todo o tipo de desejos, desde os mais fúteis aos mais estranhos, inúteis ou disparatados.
Mas não era sua função julgar os desejos dos seus amos; simplesmente providenciar para que eles se cumprissem... e o melhor possível. É claro que por vezes precisava de intervir um pouquinho, quando alguns desejos eram mesmo impossíveis de realizar. Nesse caso, a sua função era ajudar o autor do desejo a compreender a impossibilidade do pedido e a reformulá-lo em algo mais... realizável.
Sorriu, ao recordar o seu primeiro trabalho, para o Emir de Sevilha, um velhote simpático que acreditava piamente que, apesar dos seus quase oitenta anos, ainda possuia o fulgor da juventude de outros tempos. Pedira-lhe – imagine-se só – que rejuvenescesse todas as esposas do seu harém, que claro, também tinham uma idade compatível com a sua.
Al-Kazan obedeceu e, com a inexperiência própria da sua juventude na profissão, obedeceu sem medir as consequências do desejo que estava a cumprir.
Claro está que o pobre Emir faleceu pouco depois, esgotado, nos braços das dezenas de jovens mulheres que ele, o mágico inexperiente, lhe colocara no harém.
Prometera para si próprio ter mais atenção, antes de realizar desejos daquela natureza.
É claro que muitas vezes – e isto era o seu segredo – nem o próprio amo sabia muito bem o que estava a pedir.
Veio-lhe à memória aquele físico inglês – não recordava o nome – que, desesperado na procura de uma fórmula qualquer, se deitou à sombra de uma macieira e desejou que ele, o grande Al-Kazan, lhe encontrasse a resposta para o seu problema.
E ele obedecera, claro... deixando-lhe cair propositadamente uma maçã em cima da cabeça. Afinal de contas, resultara, e isso era o mais importante. O físico encontrara a solução do problema que o perseguia e ele cumprira a sua missão, satisfazendo mais um desejo...
Mais uma aspiração no cachimbo de água.
Mil e quinhentos anos... caramba, custavam a passar...
O seu terceiro amo, qual fora ? O velhote despenteado de cabelos brancos ? Não... esse fora depois... ah, claro, como se podia esquecer ? O explorador...
O explorador fora dos poucos que conseguira concretizar os três desejos a que tinha direito – aliás, ainda conservava de recordação o chapéu redondo, colonial, que ele lhe oferecera, à despedida.
Guardava do explorador uma memória simpática. Não pedira riquezas, nem nada de extravagante... isto é, acabou por pedir uma coisa, mas foi em desespero de causa.
Sempre que recordava o episódio, não resistia a uma boa gargalhada.
Livingstone... era esse o nome do dito explorador. Uma vez... – parecia que fora ontem - ... começara a entrar água, muita água, para dentro da lâmpada. Nunca lhe ocorrera tal. Enquanto corria de um lado para o outro, a tentar desviar os tapetes e as almofadas de seda... ouviu o tal explorador, a implorar pela vida, desejando que o salvasse daquela aflição.
Claro que o mágico obedeceu. Quando se reformasse, já tinha uma história inédita para contar aos netos... ou mais algum mágico se poderia vangloriar de ter salvo o seu amo de ser cozinhado numa grande panela, já cheia de água quente e têmperos... e quase comido por canibais ? Duvidava...
As aventuras que já vivera...
O seu último amo fora, em vários aspectos... especial.
Também não ligava nada a riquezas, e os dois primeiros desejos que lhe concedera nem mereciam quase o nome de desejos – um automóvel novo e um bilhete para a estréia de um ballet, só porque o dito cujo, também cientista por coincidência, se apaixonara perdidamente pela dançarina principal...
Mas lá que o homem era inteligente, lá isso era...
Quanto a esta última aventura, Al-Kazan sentia-se particularmente orgulhoso.
O cientista de cabelos brancos – porque teimava ele em andar sempre despenteado ? – pedira-lhe, como terceiro desejo, que o ajudasse a completar uma fórmula matemática que – dizia ele – revolucionaria tudo aquilo que era conhecido.
Mas matemática não era própriamente o ponto forte de Al-Kazan. Ainda tentara dissuadir o cientista do pedido. Poderia trocá-lo por outra coisa ? Um outro automovel novo, talvez ?
Não... o que ele queria era mesmo a fórmula.
Mas o problema era que ... enfim ... E = MC ... que diabo de fórmula era aquela ?
Sem saber o que fazer, entreteve-se a desenhar um quadrado à volta da fórmula, com a caneta preta. Não fazia a mínima ideia de como poderia ajudar o seu amo naquela tarefa...
Mas então, milagre... o velho cientista olhara para aquilo e e começara a rir, a rir como um garoto com um saco de rebuçados, a dar saltos à volta da mesa, como nunca vira.
- Um quadrado, claro... claro que faltava um quadrado... ó génio, ó génio... como é que tu percebeste que só faltava o quadrado ?
E rabiscou um algarismo na fórmula, radiante.
Al-Kazan ainda hoje não percebia qual fora a sua contribuição para o desejo do amo. Mas que resultara... lá isso resultara, e isso é que fora o mais importante...
Dispunha-se a encher novamente o cachimbo de água quando um leve estremecer da lâmpada o trouxe de novo à realidade.
Poderia ser possível ?
Seria, agora... finalmente... não, era bom demais para ser verdade... e contudo, a lâmpada continuava a estremecer...
Levantou-se de um salto e esperou, impaciente.
O tremor desapareceu, e durante longos segundos, nada aconteceu.
Depois, de repente... a névoa tão característica... o abrir da rolha que vedava a lâmpada e...
Chegara a hora.
Finalmente.
Ajeitou o casaco vermelho e compôs o turbante. Precisava de estar impecável – afinal, a primeira impressão é sempre a mais importante.
Saiu para o exterior, ainda envolto na névoa.
- Quem chamou o génio da lâmpada ? Eu estou aqui para o servir, meu amo... e para lhe proporcionar três desejos...

 

publicado por entremares às 15:14
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