Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

O livro do futuro

 

O pequeno aprendiz ouvia, maravilhado, os ensinamentos do velho monje.
- Mestre... mas isso é mesmo verdade ?
O ancião sorriu-lhe, com a benevolência que o passar dos anos consegue transmitir aos mais insignificantes gestos.
- Claro que é verdade, Timo... tudo o que já aconteceu, tudo o que está agora a acontecer... e tudo o que vai acontecer.... está escrito aqui – e balouçava o pequeno livrinho de capa dura entre as mãos - ... neste pequeno livro...
O pequeno Timo não podia acreditar.
- Mas, mestre... como é possível isso acontecer ? O mestre consegue ler nesse livro o que aconteceu... ontem ?
- Ontem ? Ora deixa-me cá ver... – e folheou algumas páginas, até se deter numa em particular – ora pois bem... sim, claro... aqui tens... aqui está escrito o que aconteceu ontem... queres que te leia um pouco ?
E sem esperar pela resposta do seu jovem aprendiz, começou a ler.
- ... ora cá está... domingo... fomos visitados pela escola dos artesãos, logo pela manhã... o mestre Bernardo deslocou-se até à aldeia, para comprar sementes... o pequeno Timo deixou-se dormir e atrasou-se para a primeira aula da manhã... os canos da cozinha romperam-se ... queres que continue a ler ?
Timo, o jovem aprendiz, ainda não recuperara da surpresa.
- Mestre... está tudo aí... mesmo tudo ?
- Claro que não, Timo... claro que não. Aliás... este pequeno livro só diz respeito ... a ti, a este pequeno templo... aqui à nossa aldeia... nada mais. Mas existem muitos outros livros como este, espalhados por esse mundo...
Durante os dias que se seguiram, o pequeno Timo não conseguiu deixar de pensar no sucedido. Um livro que continha todas as histórias do passado... do seu passado, do seu presente... e do seu futuro ? Mas como podia ser possível ?
Mas certamente seria possível... o mestre assim o afirmara.
E, sendo possível... o que poderia conter ... o futuro ?
Poderia ele folhear as páginas já escritas do seu próprio futuro ?
O que poderia lá encontrar ?
O pensamento, de inicio fugaz como a aurora, depressa se avolumou e lhe dominou a imaginação, os pensamentos, tornando-se um tormento; não conseguia deixar de pensar naquele pequeno livrinho que vira balouçar nas mãos do mestre.
Passaram-se mais alguns dias.
Finalmente, não conseguiu resistir mais.
Precisava, era imperioso, era fundamental conseguir folhear aquele livro, contemplar as últimas páginas, vislumbrar o mais pequeno pedaço que fosse ... do futuro.
 
Procurou em todas as gavetas. Nada.
Debaixo da mesa, no armário da parede, junto da estante. Nada.
Quando mais desesperava, deu com ele, tranquilo sobre a mesa junto ao leito. Os aposentos do mestre, apesar de espaçosos, eram parcos de luxo e mobiliário; uma cama, algumas cadeiras, dois armários repletos de livros e uma pequena mesa junto à cama, onde pousava habitualmente os óculos e a chávena de chá quente que gostava de bebericar, antes de adormecer.
Os olhos do pequeno Timo brilhavam de excitação. Não pela invasão sorrateira aos aposentos do velho monje – a porta ficava sempre aberta – mas pela antevisão do prazer, do segurar o pequeno livro nas mãos e poder abri-lo, folhea-lo, escolher uma data ao acaso e... saber de antemão os acontecimentos que se iriam desenrolar nessa altura.
Sentou-se à mesa e com as mãos trémulas, procurou a data actual.
Mal a encontrou, começou a ler, sôfrego.
Não percebeu muito bem o inicio.
“ Segunda feira, dia 27 de abril.
O pequeno Timo está cada vez mais excitado, não consegue deixar de pensar no livro de capa dura, no livro do futuro...
Hoje, ele vai procurar... e vai encontrar o livro.
Vai começar a ler... e não compreenderá a totalidade das palavras, que lhe parecerão estranhas, amargas até.
Vai virar a página, e não vai conseguir compreender porque motivo a página está vazia, sem qualquer palavra escrita.
Vai procurar a data de amanhã... e encontrará uma página vazia, e também não compreenderá. Ficará desapontado.
Passar-se-á algum tempo e Timo descobrirá que o livro de capa dura não passa de um pequeno bloco de apontamentos, onde o seu mestre vai apontando as pequenas histórias do dia-a-dia.
Finalmente, colocará o livro onde o encontrou e abandonará o quarto, confuso, sem saber ao certo o que pensar. Hesitará em contar ao seu mestre o sucedido.
Finalmente... compreenderá.
Compreenderá que todas estas palavras foram escritas por ele, compreenderá que o futuro é sempre uma página em branco, compreenderá que até a página do presente está continuamente a ser escrita, apagada e novamente escrita.
E finalmente, compreenderá também que no futuro, ele próprio poderá ter que transmitir esse ensinamento a outros...”
 
Na sala ao lado, o velho mestre ouviu os passos inquietos do jovem Timo a abandonar o quarto, rumo ao jardim.
Sorriu.

 

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publicado por entremares às 22:08
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