Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Madalena

 

 

Chegara o grande dia.
Madalena, quase sempre calma e controlada, até recuperara o velho vício de roer as unhas; Ora se apoiava num pé, ora noutro, lá ia passeando pela sala de espera, espreitando pela janela, pegando numa revista da mesa, para a largar logo de seguida.
O certo é que não conseguia permanecer quieta.
- Vá lá, vá lá... – sussurou, dirigindo-se a si própria.
Continuava sózinha na sala de espera. O marido ainda não voltara, provavelmente retido na secretaria a preencher mais uma dose de papéis, formulários, recibos, atestados, certificados, enfim... nem ela sabia bem o quê.
Chegara o grande dia.
Dali a pouco, aquela porta branca abrir-se-ia e o pequeno Ruben, de grandes olhos castanhos, ser-lhe-ia entregue para, de uma forma definitiva, passar a fazer parte da família, da sua família.  Sentiu apertar-se o coração.
O processo de adopção fora longo, mais longo do que sempre imaginara. Perdera a conta às entrevistas, às longas conversas com a psicóloga do centro, aos questionários que tivera que responder, aos atestados médicos, aos registos criminais... para finalmente poder chegar à segunda fase, aquela em que pôde conviver com o pequeno Ruben, primeiro no Centro, depois na sua própria casa, vê-lo a rir, a esticar os braços e a chamá-la, nas tais pequenas sílabas que a emocionavam; mã... mã...
Só de pensar naquelas pequenas recordações, sentia um nó na garganta.
Madalena, trinta e oito anos de idade, sem problemas de saúde, funcionária de repartição de finanças, casa própria, casa de férias no algarve, situação económica desafogada, casamento estável, marido mediador de seguros, horários descomplicados, sem filhos.
Poderia ser um pequeno retrato da sua vida... ou pelo menos, da sua vida actual; uma vida sem sobressaltos, sem problemas, bem organizada, metódica, muito urbana – como gostava de frisar o marido. Com isto ele queria referir-se ao modo como ambos gostavam de preencher os tempos de lazer, com idas regulares ao cinema, ao teatro, algumas escapadelas de fim de semana a pousadas de turismo, uma ou outra viagem ocasional, todas as exposições de fotografia que conseguissem descobrir e, claro está, aquele hábito que já nem era um hábito, mas sim um vicio, de ir almoçar ao restaurante do sr António, todos os domingos. O motivo? Um ensopado de borrego que era impossível de descrever, sem igual.
No entanto, a funcionária da repartição de finanças, sempre tão controlada – e não raras vezes, o serviço exigia mesmo doses extra de paciência e boa disposição – sentia-se naquele momento a tremer de nervosismo como se de uma criança se tratasse, apanhada a comer uma guloseima proibida.
Não tinha filhos.
Mas carregava consigo um segredo, um daqueles segredos que pesava na alma e que a acompanhava todos os dias, todas as noites, um segredo que lhe provocava pesadelos, insónias, dores de cabeça, um segredo que a fazia envelhecer... e que não desaparecia só por, regularmente, pintar a meia dúzia de cabelos brancos que lhe iam surgindo, semeados entre a longa cabeleira de madeixas castanhas.
Não, os segredos não se esfumavam assim, por muito bem guardados que fossem...
E tempos houvera em que Madalena, agora tão controlada, tão bem encaminhada na vida... tempos houvera em que Madalena fora uma pessoa diferente.
Aos dezasseis anos, farta de um ambiente familiar destroçado, farta das investidas de um padrasto pouco escrupuloso, fugira de casa, com o seu primeiro amor, um entregador de pizzas.
Ele dissera-lhe: Vem comigo, vamos os dois para fora daqui.
E ela fora, sem mais argumentos nem desculpas.
Lavou pratos, lavou escadas, varreu as ruas. Até teve um filho.
Mas não ficou com ele.
Arrependeu-se muito tempo depois, já era tarde demais.
A roda da fortuna girou de novo, e uma brisa mais suave bafejou-a de tempos mais amenos. Voltou a estudar, reconciliou-se com a mãe, entretanto já separada do padrasto, arranjou um emprego estável numa estufa de flores... e aí conheceu o Miguel, um jovem estagiário de agronomia que sonhava ser agricultor.
Casaram-se, ela tornou-se funcionária pública e ele mediador de seguros. Nunca tiveram filhos.
Nunca lhe contou o seu segredo. Sempre acreditou que aquela era uma cruz só sua, uma culpa muito íntima que, mais tarde ou mais cedo, precisaria de expiar. Mas nunca soubera como...
- Mas tens a certeza do que pretendes fazer ? – repetia-lhe o marido, perplexo – Tu já mediste bem as consequências ? Não te vais arrepender ?
Ela não tinha a certeza. Como ter certezas ? Mas sabia, sentia algures bem lá no fundo que precisava de fazer aquilo... como se aquela fosse a única forma possível de se redimir pela sua culpa, devolvendo agora, vinte anos mais tarde... amor.
A porta branca abriu-se e a assistente social entrou, segurando pela mão o pequeno Ruben.
Madalena não conseguiu conter as lágrimas. Correu para ele e abraçou-o, apertando-o apaixonadamente contra o peito.
- Meu pequenino... que saudades que eu tinha de ti...
Ele lançou-lhe um sorriso e abriu aqueles grandes olhos castanhos, que a tinham cativado desde o primeiro momento em que o vira.
- Mã... mã...
- Sou eu, Ruben.... sou eu... estou aqui...
O pequeno Ruben esticou os braços, tacteando o espaço à procura do rosto de Madalena. Finalmente encontrou-o... percorrendo-o demoradamente com as mãos, reconhecendo cada covinha, cada ruga, o nariz arrebitado, os longos cabelos.
- Mã... mã...
O Ruben era, sem dúvida, especial. Não só pelo pormenor de ser cego, cego de nascença.
Madalena sabia-o bem, pesara todas as consequências.
- Madalena... porque não... uma criança normal ? – insistira vezes sem conta o marido.
Mas ela mantivera-se firme. Vinte anos depois, sentira que acumulara amor suficiente para ultrapassar todos os obstáculos. E o Ruben, sabia-o bem, precisava dela.
- Anda, Ruben, anda... – e estendeu-lhe a mão – vamos para casa, anda...
 

 

publicado por entremares às 16:02
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