Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Paris, mon amour...

 

 

Paris, manhã de domingo.
Sempre gostara de Paris. Não sabia bem porquê, e nem isso era importante - quando muito, conseguia explicar que era uma cidade que lhe transmitia uma sensação saborosa, vagamente parecida a uma brisa, uma cidade romântica, de recantos. Sim, era isso mesmo, recantos.
Ao virar de cada esquina, um pátio, um pequeno jardim, um fontanário, uma ponte. Perdia-se no Quartier Latin, correndo os alfarrabistas, admirando os pintores de rua, espiando as montras das croissanteries - autênticas obras de arte. Como era possível fazer uma montra se croissants… e o resultado ser digno de passar num desfile de alta costura?
Só mesmo Paris, pois então…
Quando decidira pegar no primeiro voo disponível, esquecer tudo e oferecer a si próprio um par de dias de absoluto abandono… só aquele destino o seduziu.
E agora ali, vagueando ao acaso às primeiras horas da manhã… veio-lhe à memória o prazer de respirar o ar boémio da cidade, recordando-lhe que houvera um tempo da sua vida em que ele próprio também fora assim, também se sentira um espírito mais livre, menos acomodado…
O primeiro barco de turistas - japoneses de máquina fotográfica sempre pronta a disparar - soltava amarras no Sena, fazendo-se à cidade luz. Encostado à amurada, inspirou profundamente o ar da manhã.
- Já devia ter feito isto… há muito, muito tempo… - murmurou.
 
Encaminhou-se para uma das muitas esplanadas, ainda quase vazias.
 
- Um café… um croissant com queijo…. Um sumo de laranja.
Esticou-se, o sol nascente a bater-lhe de frente, cegando-o de luz. Era mesmo disso que precisava - ainda pensou - sol, muito sol… nada como o sol para afastar os nevoeiros…
Levou a mão à testa, protegendo a vista.
Na sombra momentânea que se seguiu… viu-a.
 
Há imagens que, talvez pela surpresa, ficam gravadas para sempre no fundo dos olhos, naquele recanto da memória onde cabem as melhores recordações.
Aquele rosto feminino, emoldurado pelo verde das árvores, com o rio Sena ao fundo, seria certamente uma dessas imagens…
Teria uma idade aproximada da sua, se bem que nunca fora muito certeiro em adivinhar a idade do sexo oposto. As mulheres - sabia-o bem - eram exímias actrizes na arte da camuflagem, da transformação… e quando elas não o permitiam, nem adiantava tentar descobrir-lhes a idade… eram intemporais.
Mas … algo naquela mulher era diferente, especial até. Não conseguia compreender, mas sentiu uma mola interior disparar, obrigando-o a não conseguir desviar o olhar.
Ela lia tranquilamente um livro, compassado com alguns goles de chá fumegante.
 
Só quando ela ergueu o olhar, muitos minutos depois, é que ele compreendeu que ainda não deixara de a contemplar, completamente inebriado de uma sensação de beleza, de uma beleza tranquila que - mesmo aquela distância - conseguia encher todo os espaço em redor.
Os olhares cruzaram-se. Ela esboçou um indefinível sorriso, qual Mona Lisa moderna de uma qualquer esplanada. Em seguida retornou à sua leitura, sempre condimentada com alguns goles de chá.
 
- Posso … posso fazer-lhe companhia?
 
Os últimos segundos pareciam ter sido varridos da memória. O que fazia ele ali, de pé e a segurar a bandeja do seu pequeno-almoço, junto da mesa dela? Nem se lembrava de se levantar, percorrer os poucos metros que os separavam, estar ali.
Em simultâneo, um calafrio de vergonha e timidez percorreu-lhe a espinha, paralisando-o. Desejou que o chão de abrisse e que ele pudesse mergulhar, desaparecer por completo da face da terra. Mas… ao invés disso, ali estava ele, de pé, com um sorriso tonto nos olhos, a importunar uma perfeita desconhecida e a impor-lhe a sua presença.
 
Ela olhou-o tranquila, despindo-lhe a alma. Pousou o livro sobre a mesa e inclinou-se um pouco para a frente, as madeixas alouradas a cair sobre os olhos.
 
- Antecipou-se um par de linhas… eu ia fazer exactamente a mesma coisa, pegar no meu chá e perguntar-lhe se lhe podia fazer companhia… mas não resisti a terminar este capítulo do livro… e você antecipou-se…

 

publicado por entremares às 10:40
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