Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

A caça ao tesouro...

 

 

 

- Não te parece que já sou um pouquinho crescida para a caça ao tesouro?
 
O marido olhou para ela, de soslaio.
- Desculpa… é o teu aniversário, portanto sê paciente. É uma surpresa, está bem?
- Uma surpresa… e quem te garante que eu vou gostar? Eu nunca fui lá muito do género de surpresas…
Ele entregou-lhe o pequeno envelope que tinha nas mãos.
- Por isso mesmo é que engendrei esta pequena caça ao tesouro. E não te preocupes… tenho a certeza que vais gostar…
Não totalmente convencida, abriu o envelope.
 
PISTA 1:       14 DE JULHO DE 2002
 
- O que é isto? - quis ela saber, franzindo a testa. Uma charada?
Ele riu, bem disposto.
- Não… é a tua primeira pista da caça ao tesouro… e não te preocupes, que não vais precisar de sair de casa… todas as respostas estão aqui dentro…
- Pistas? Queres dizer que é mais que uma? Vais pôr-me a procurar pela casa toda?
- Exactamente…
 
O que seria aquilo? A data… essa conhecia-a bem, fora naquele dia que partira da sua terra natal, do seu Brasil longínquo, rumo ao país do sol nascente. Seria possível já ter passado tanto tempo?
Aparentemente, sim.
Logicamente, o marido escondera alguma coisa, a pista seguinte… em algo relacionado com a viagem, mas o quê? Alguma mala?
Abriu duas malas, sem esperanças. Revirou as gavetas da cómoda, onde sabia ter guardado os documentos, os bilhetes de avião… como recordação. Nada.
O marido esticara-se no sofá da sala, defronte da televisão.
- Podias dar-me uma ajuda, em vez de ficares aí sentado… - ainda tentou.
- Nem penses… - respondeu ele, prontamente. - Assim deixava de ser uma surpresa…
 
Resmungou baixinho.
De repente… os olhos brilharam-lhe. Seria?
Dirigiu-se ao quarto de dormir. Sobre a escrivaninha, entre os papéis por arrumar, continuava a moldura de madeira, com a fotografia dos dois, junto às escadas do avião, antes do embarque. Fora a última fotografia tirada ainda em "solo natal" e no canto inferior… a máquina gravara digitalmente a data … 14-07-02.
Mal pegou na moldura, um pequeno envelope desprendeu-se da mola, tombando sobre a mesa.
Ela sorriu, vitoriosa.
- Esta já está - gritou, para que o marido a ouvisse. - Se pensavas que eu desistia, enganaste-te…
O marido respondeu-lhe qualquer coisa, mas ela nem o ouviu.
Abriu o envelope à pressa.
 
PISTA 2:       MARIA ANTONIETA
 
Como? Maria Antonieta? Quem é a Maria Antonieta?
Mentalmente, passou em revista alguns dos nomes de amigos e conhecidos. Mas não, desde que chegara ao Japão, não se recordava de ter conhecido ninguém com semelhante nome. Conhecera sim muitos Aki, Asaki, Akira, Hiroshi, enfim… alguns até de difícil pronúncia mas… Maria Antonieta ? Não… nenhuma.
Seria uma referência à rainha francesa?
Apanhou a enciclopédia. Teria o marido escondido alguma pista por entre as páginas da espesso livro? Abanou-o… mas nada caiu. Ainda o folheou, mas mais uma vez… nada.
- Tens algum caso com uma Maria Antonieta? - gritou ela - É isso?
Ouviu o marido a rir na sala, sobrepondo-se ao ruído de fundo da televisão.
- És horrível… e estás a divertir-te à minha custa…
 
Sentou-se. Maria Antonieta, Maria Antonieta, aquela que ficou sem pescoço… sempre com aqueles trajes…
Trajes?
Teve um palpite.
Quando fora? No Carnaval anterior? No ano anterior? Bem, isso não era importante… o certo é que - lembrava-se agora - fora mascarada de Maria Antonieta a um dos bailes de Carnaval, acompanhada do seu Zorro, que é como quem diz, do seu maridinho.
Onde guardara ela aquele vestido?
 
Claro que era. Mal o apanhou no guarda roupa, sentiu o ruído de algo a cair no chão. Mais um envelope.
 
- Estou a ficar profissional nisto, sabes?
Ele dedicou-lhe um sorriso e levantou-se, rumando à cozinha.
Abriu o envelope, disfarçando o nervosismo. Quem lhe diria que ainda se viria a sentir nervosas, a jogar à caça ao tesouro? Ai, ai… estes homens…
 
PISTA 3:       O TEU BRINDE FAVORITO
 
Aquela era difícil. Um brinde?
O que deveria procurar? A resposta mais óbvia seria uma garrafa… ou copos. Lançou-se para a sala, abriu as portas do bar e espreitou. Nada nos copos… e as poucas garrafas em exposição continuavam nos mesmos locais de sempre. Ainda levantou algumas… mas nada.
Um brinde? Lembrou-se do livro de receitas de cocktails. Seria?
Dirigiu-se à cozinha.
O marido colocava diligentemente pratinhos de aperitivos sobre a mesa; amendoins, cubos de queijo, pedacinhos de lula assada. Até fora apanhar os cálices de cristal, apesar de não ver nenhuma garrafa ainda sobre a mesa.
- Então… vens celebrar sozinho aqui para a cozinha… e deixas-me a revirar a casa do avesso, é isso?
Ele ofereceu-lhe um amendoim.
- Não… vou só ficar aqui à tua espera, está descansada. Aliás… suspeito que já estás muito, muito próxima… de descobrir.
Ela fez-lhe uma careta, divertida.
- Podes apostar que sim…
E saiu, em direcção ao quarto.
 
Olá… o que era aquilo?
Sobre a mesa da sala, bem entre o sofá e a televisão… um embrulho esguio, com um aparatoso laçarote amarelo e um cartão. Era capaz de jurar que até há minutos atrás… aquele embrulho não estava ali.
Aproximou-se. O que estava escrito no cartão?
 
PARABÉNS, MEU AMOR. VAMOS FAZER UM BRINDE?
 
Um sorriso iluminou-lhe o olhar. Por muito que às vezes lhe apetecesse bater-lhe… tinha que reconhecer que o seu "mais que tudo" sabia mexer com ela.
Pegou no embrulho e correu para a cozinha.
- Tu és horrível, horrível… a fazer-me sofrer deste jeito…
Ele ria, já um copo em cada mão.
- Vá, abre…
 
Ela abriu.
Uma garrafa de vinho do Porto? Da sua marca preferida? Onde conseguira ele arranjar aquela preciosidade… ali, no outro canto do mundo?
Ele leu-lhe os pensamentos.
 
- Vá… abres a garrafa? Por favor?
 
Ela lançou-lhe o melhor dos sorrisos.
 
- Ainda me continuas a surpreender… não há dúvida. - disse, por fim.

 

publicado por entremares às 18:52
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