Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

O patinho feio

 

 

O patinho feio – como todos os patinhos feios – sentia nas penas o fardo óbvio da sua condição; era feio.
Feio e desajeitado.
Esforçando-se por não ficar para trás, lá foi nadando atrás dos irmãos, contornando os molhos de vegetação que enxameavam o lago. Bem na frente do cortejo, a mãe soltava sonoros “Quac”, incentivando a prole a não a perderem de vista.
E lá iam eles, os quatro magníficos, penugem brilhante, pescoços altivos, treinando os primeiros grasnidos.
A mãe, orgulhosa, lançava-lhes de vez em quando um olhar de aprovação, que depressa se transformava em lamento, quando reparava no último da fila.
E o último era, invariávelmente... o patinho feio.
Pouco depois, o pelotão dividia-se.
A mãe, nadando com destreza, obrigava-os a um esforço heróico. Os quatro bem-aventurados acompanharam-lhe o ritmo, balouçando enérgicamente o corpo, as patas amarelasnum constante vai-vém sob a superfície das águas.
O patinho feio... bem... esse foi ficando para trás, cada vez mais para trás.
 
Do alto do penhasco, viu-os a aproximar-se. Um, dois, três, quatro... refeição fácil... e bem necessária. As crias esfomeadas, bem atrás de si, clamavam incessantemente por comida, sempre mais e mais comida.
A imponente águia real abriu as asas e projectou-se nos céus, num voo picado sobre o lago.
A surpresa, como sempre, seria a sua arma. Se conseguisse descer em silêncio, talvez até conseguisse capturar com as suas fortes garras não um, mas talvez dois patos pequenos... o que seria uma esplêndida caçada.
Planou, afastou-se um pouco e sobrevoou o lago. Apareceria por trás, rasando as águas, num voo veloz e mortal, sem hipóteses de fuga para as presas desprevenidas.
Colou as asas ao corpo... e mergulhou.
 
O pequeno patinho feio acabara de contornar uma rocha solitária, bem no meio do lago. Foi então que a viu, aquela mancha escura a descer dos céus, em silêncio.
Não sabia o que era, mas o instinto gritou-lhe “ Perigo, perigo” e de imediato abriu as asas e grasnou, o mais alto que pode, tentando alcançar a mãe e os irmãos.
Tal foi o ruido e o esbracejar de penas na água que a mãe acedeu a olhar para trás, na sua direcção.
Viu a águia.
Segundos depois dispersavam, cada qual para seu lado, escondendo-se aflitos na densa vegetação das inúmeras ilhotas do lago.
A águia tocou as águas e voltou a subir Às alturas, a surpresa desfeita e a caçada gorada.
Voltaria, claro; a paciência e a necessidade das crias assim o exigiam.
 
Bem abaixo, à superfície das águas, o cortejo refez-se novamente, salvo pelo alerta do pequeno patinho feio.
A mãe lançou um novo olhar à prole e lá foram eles, nadando em fila indiana, o patinho feio a atrasar-se novamente, incapaz de acompanhar o ritmo da mãe e dos irmãos.
Nenhum olhou para trás, nem o ritmo abrandou.
No mundo dos patos.... as emoções dos que estão a ler esta pequena história não existem.
E mais uma vez, e apesar do grasnar aflito do patinho feio, lá foi ele ficando cada vez mais para trás, mais para trás.... até novamente os perder de vista.

 

publicado por entremares às 14:24
link do post | comentar | ver comentários (15) | favorito
|

.mais sobre mim

.BlogGincana


.Fevereiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. O patinho feio

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.Os ouvintes das histórias

online

.links

.as minhas fotos

.Nº de Navegadores

Get a free html hit counter here.

.Google

.Quem navega...

Locations of visitors to this page

.Gazeta dos Blogueiros

Gazeta dos Blogueiros
blogs SAPO

.subscrever feeds