Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

O lápis mágico

 

-Não, não e não. Se a trigonometria fosse isso, eu já estaria no desemprego.

E levava as mãos à cabeça, a um milímetro do desespero absoluto.
Aquele dia conjugava três situações, qual delas a mais complicada; ser professor, ser professor de matemática e tentar explicar os fundamentos da trigonometria a duas dúzias de alunos que, simpatia à parte, estariam melhor nos bancos da escola primária do que ali, quase no término do ensino secundário.
- Mas tu sabes ao menos a diferença entre uma recta e uma curva ? - suplicou o professor, perante a expressão inocente do aluno.
O aluno não sabia. E não era o único.
Vinte rostos ansiosos viraram-se para ele, à espera do milagre do conhecimento.
O professor de matemática calou-se, passou as mãos pelo cabelo grisalho e deu meia dúzia de passos em frente ao quadro, a congeminar uma mudança de estratégia.
Apetecia-lhe começar pela tabuada, mas isso estava fora de questão, desenhar uns triângulos e uns circulos no quadro... já tentara e não resultara...
Continuava indeciso.
As mãos revolviam-se nos bolsos, como se procurassem a varinha mágica que resolveria todos os seus problemas.
O quadro parecia um mural egipcio, com rabiscos, traços, figuras, setas, chamadas de atenção - ao longe, autênticos hieroglifos. Aliás, o seu cérebro devia possuir, naquele momento, um aspecto semelhante.
Mas não se podia dar por vencido.
Afinal, ainda tinha um trunfo, uma arma secreta que, tinha a certeza, desequilibraria a balança para o seu lado. Mas – o problema é que existe sempre um “mas”... deveria utilizá-la ?
Dois segundos de indecisão depois, decidiu-se.
- Silêncio!
Dirigiu-se à sua pasta, já de cantos esboroados, e perante alguma curiosidade pelo tom enérgico daquele “Silêncio”, retirou de lá uma caixa do que aparentava ser madeira escura, muito escura.
- Tenho aqui a solução para os vossos problemas – anunciou, com um ar misterioso, enquanto levantava a caixinha negra de modo a que todos a pudessem observar.
Fez-se um momento de silêncio.
- O que tem aí dentro dessa caixa, stôr ? - quiseram todos saber.
-O que tenho aqui dentro ? – e o professor começou a abrir a caixinha, com uma lentidão propositada – ora vamos lá a ver o que é que eu tenho aqui dentro...
Abriu a caixa e retirou um lápis, um normalíssimo lápis de carvão, ainda com muito pouco uso.
Gargalhada geral. Um lápis ?
- Mas este lápis não é um lápis qualquer – e o professor foi até ao fundo da sala – e eu vou mostrar-vos porquê... – Manel !
O aluno visado interrompeu por momentos o desenho que fazia no caderno e ficou a olhar para o professor.
- Preciso que me ajudes na minha demonstração. Pode ser ?
O Manel levantou-se, sorridente. Tudo o que fosse diferente de trigonometria, só podia ser melhor.
- É claro, stôr. O que vamos fazer ?
- Só uma coisa muito simples, vais ver – e passou-lhe o lápis para as mãos – pegas aí numa folha de papel branco, e passa lá esta expressão que vou escrever agora no quadro...
- Éh, stôr... veja lá, já sabe que eu não percebo nada disto, o stôr disse que ia só fazer uma demonstração...
O professor chegou-se ao quadro e escreveu 235 x 245 x 28 =
- Manel, escreves-me aí o resultado desta conta, por favor ?
O Manel pegou na folha e rabiscou um número. Depois começou a rir.
- Pronto, Stôr. Agora já podemos ir jogar no euromilhões...
Nova gargalhada geral.
- Claro que vamos, Manel, claro que vamos. Ora dita-me lá o número que escreveste...
E o Manel lá foi ditando... 1 ... 6 ... 1... 2 ... 1... 0... 0
- Obrigado, Manel. Já agora, quem é que me faz aí esta conta, com a calculadora ?
De repente, todos se lembraram que tinham calculadora. Com alvoroço, um a um, lá foram fazendo a conta, e gradualmente, as gargalhadas foram desaparecendo, até se resumirem a um leve murmúrio.
As calculadoras, teimosamente, registavam todas o mesmo valor : 1 6 1 2 1 0 0
O professor de matemática saboreava o seu pequenino momento de vitória.
- Manel, passas aí o lápis ao João, por favor ? Vamos ver se o João tem jeito para o euromilhões...
O João pegou numa folha de papel e enquanto o professor escrevia nova operação no quadro, riscou furiosamente a folha branca, com grandes algarismos. 2 2 0
- Mas ele ainda não acabou de escrever a expressão – protestou o Manel – para que é que já estás a escrever o resultado ?
O professor terminou naquele momento de escrever. 45 x 44 x 43 : 387
- Ora bem, vamos lá tentar esta. João, diz-me lá o teu resultado. E voçês, façam lá as contas na calculadora...
O João lá repetiu 2... 2... 0... , ao mesmo tempo que choviam os resultados das calculadoras – é mesmo isso, Stôr, o resultado é esse...
O professor apanhou o lápis da mão do João, que atónito, observava o quadro sem perceber muito bem o que estava a suceder. Um sorriso malandro iluminava-lhe o olhar, enquanto calcorreava o espaço entre a porta e a sua secretária, fingindo estar a concentrar-se em algo tremendamente importante...
- Quem quer tentar novamente ? – disparou ele.
Todas as mãos se levantaram. – Que se lembrasse, nunca vira tantas mãos ao alto naquela turma... ou noutras turmas.
- Maria... toma o lápis. E vem aqui para ao pé de mim, para eles não pensarem que estás a fazer batota, ou coisa parecida...
A Maria quase que correu para ele. Já trazia a folha de papel na mão e começou logo a escrevinhar, à medida que o professor, vagarosamente, ia digitando a nova operação no quadro.   ( Sen 45º + Cos 45º )2
- Dois, Stôr... o resultado é 2 ... – gritou a Maria, e o resto da turma gritou em uníssono – Doooiiissssss....
O professor recolheu novamente o lápis e deixou-os entregues a si próprios. Cada um gritava por seu lado, alguns reviravam as folhas onde o Manel, o João e a Maria haviam escrito os resultados, à procura de uma cábula, de uma resposta minúscula escrita num cantinho da folha, ou de qualquer outra razão para aquela ... que nome se poderia dar aquilo que se estava ali a passar ? Magia ?
Largos minutos depois, o professor levantou-se e de repente, fez-se um silêncio absoluto. O professor revirava o lápis por entre os dedos e aparentemente, tinha algo de importante a dizer-lhes...
- Bom... imagino que quando vos disse que tinha comigo a solução para os vossos problemas... ninguém me acreditou... o que é perfeitamente natural, eu sei. Mas... a verdade é que este é mesmo um lápis mágico, e como puderam observar, ele sabe responder a tudo, mesmo a tudo aquilo que nós possamos perguntar...
- Oh, Stõr... nas outras disciplinas também ? – quiz logo saber o Ernesto, o tal Ernesto que ele pensava que só sabia dizer “hum” e “ahn”.
- Claro que sim, nas outras disciplinas também... mas sabes, existe também um pequeno problema...
Um burburinho de contrariedade subiu de tom.
- É que só existe um lápis... este lápis – e segurou o lápis bem acima da cabeça, para que todos o pudessem ver melhor.
- Então como é que nos vai ajudar, se só tem um lápis ?
- Teremos que chegar a um acordo, não há outro remédio... – e o professor de Matemática continuava a agitar o lápis mágico, e a turma inteira a segui-lo com os olhos... – E já sei como vamos fazer. Primeiro, todos são obrigados a guardar segredo... não quero neste momento a escola inteira a perseguir-me e a tentar tirar-me o lápis, estamos de acordo ?
Todos estavam de acordo.
- Segundo... eu vou emprestar o lápis por um dia, aquele de vocês que conseguir responder acertadamente a um pequeno questionário, que vos irei fazer todos os dias... estamos de acordo ? Ou preferem tirar à sorte ?
Discussão generalizada. A hipótese questionário venceu. O que, na próxima aula, tivesse a melhor pontuação no questionário, levaria o lápis por um dia, e poderia utilizá-lo em todas as outras disciplinas...
Ainda a discussão ia a meio, e mal se ouviu a campainha, a anunciar o final da aula.
- Lembrem-se – e o professor colocou o dedo junto aos lábios - ... segredo...
E a turma lá foi saindo, na gritaria habitual de todos os intervalos, talvez naquele dia um pouco mais ruidosa do que o habitual.
Sentou-se a saborear o momento. Havia dias assim, em que um pequeno lápis, muita paciência e um pouco de magia fazia a diferença...
Pegou na caixinha de madeira escura e abriu-a sobre a sua secretária.
Propositadamente, não mostrara o seu conteúdo, limitara-se a retirar do seu interior o lápis de todas as magias. Agora, já sózinho na sala, retirou os outros dois objectos que a caixa ainda continha ; uma borracha branca e um outro lápis, este já bastante gasto e com poucos centímetros de comprimento.
Tomou o pequeno lápis nos dedos e escreveu o sumário no livro de ponto, antes de o voltar a escrever, desta vez a tinta negra.
Como o tempo passava depressa...
Numa outra sala, numa outra escola... lembrava-se como se fosse hoje, uma aula de desenho, nunca conseguira fazer aquelas figuras geométricas como o professor queria, os bicos de carvão partiam-se, as folhas dobravam-se ...uma autêntica nulidade. Fora então que o velho Baltasar ( chamava-se assim o professor de desenho) perante o seu desespero, lhe colocara nos dedos aquele lápis, dizendo-lhe que experimentasse...
E ele experimentara... e nunca mais fora o mesmo.
Quantos anos se haviam passado ?
Muitos, certamente.
Arrumou as suas coisas na pasta de cantos gastos, desligou as luzes e saiu porta fora.
O velho Baltasar afinal tinha razão... a história repetia-se...
publicado por entremares às 00:12
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