Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

A alma gémea... existe?

 

Sonhador_28 acreditava que sim.
Joaninha_azul também.
 
Conheceram-se num fórum, quando ambos pesquisavam quais os melhores alimentos para os periquitos, a sua paixão comum.
Depressa descobriram, para além do nome das sementes preferidas dos pequenos pássaros coloridos, muitas outras coisas… comuns.
Sonhador_28 depressa se transformou em José Maria… e a Joaninha_azul… em Maria de Fátima; ele, ainda inexperiente na criação dos pequenos pássaros, ela já cheia de truques e pequenas artimanhas.
- Mas tu não sabes que a primeira coisa a fazer é colocar os poleiros de madeira? – foi logo a primeira reprimenda – os coitadinhos detestam aquelas coisas de plástico…
O José Maria não sabia. Como também não sabia que os periquitos apreciavam bastante um bom banho, ou umas folhas suculentas de alface. A Maria de Fátima, é claro, já sabia tudo isto… e lá foi retransmitindo a sua ladainha de conhecimentos ao seu jovem amigo e parceiro de conversas da Internet.
Claro que o tema dos periquitos depressa se esgotou e logo passaram para divagações mais interessantes… e foi então que descobriram possuir muitos … mas mesmo muitos gostos em comum.
Ela era gémeos de signo, criativa, eloquente nas palavras, um humor que desarmaria a mais sisuda das criaturas. Ele, sagitário, fogoso e irreverente, rebelde, idealista. Ela perseguia uma alma gémea que nunca encontrara. Ele acreditava numa alma gémea que ainda não procurara, na esperança de tropeçar nela, num acaso do dia-a-dia.
Nunca trocaram fotografias. Ela não queria deixar-se influenciar pela beleza dele, dizia.
Ele dedicava-lhe poemas de amor.
Primeiro... uns breves minutos defronte do computador... depois aquela angústia da distância, a solidão da espera. Ambos em Lisboa, ambos anónimos no meio da multidão... quem sabe, talvez até já se tivessem cruzado na rua, um dia qualquer...
 
Combinaram encontrar-se. Na esplanada da avenida. Num domingo de manhã.
Ele iria de verde, ela de branco. Ambos levariam debaixo do braço uma agenda vermelha, tomariam um café, ficariam a conhecer-se, cara-a-cara... e logo se veria...
 
Os dias passaram, ao ritmo costumeiro, excepto para os amantes adiados, a quem o tempo nunca chega. Mas finalmente...
 
Galgou os ultimos degraus da escadaria do metro, desembocando directamente na avenida, a poucos passos da esplanada. Apertou com força a agenda vermelha, debaixo do braço. E se ela não estivesse lá? E se tivesse mudado de ideias? E se?
Um turbilhão de ideias desconexas inundou-lhe o espirito.
Não.
Devia afastar os pensamentos... todos os pensamentos. Seria alta? Baixa? Loura, ruiva, morena? Bonita? Simpática? Sensual? Magra, roliça, gordinha?
Como deixar de pensar?
Acercou-se do local combinado, aquela hora, quase vazio.
Uma... duas... três mesas ocupadas – um casal de namorados, um grupo de turistas, com aspecto de alemães, uma senhora, já de certa idade. Onde estaria a Maria de Fátima?
- Ainda bem que cheguei mais cedo... – deu consigo a murmurar sózinho... assim perceberei logo ...
Sentou-se numa das mesas vazias, entre o casal de namorados e a senhora já de certa idade.
Colocou a agenda vermelha em cima da mesa. Quando Maria de Fátima se aproximasse... saberia logo a quem se deveria dirigir...
 
- José Maria?
Virou-se para o lado, à procura. Não dera pelo aproximar de ninguém, mas a voz soara estranhamente próxima.
- José Maria?
Os olhares encontraram-se.
- De..deve... ser... engano...
Ela sentou-se no lado oposto da mesa, o olhar brilhante e inquiridor.
- José Maria... és mesmo tu? Essa agenda vermelha...
Ele engoliu em seco, e de repente o mundo desabou-lhe sobre os ombros, soterrando-o sem apelo.
- S... So...sou... sou... sou. Sou mesmo eu... e a ... a senhora... é...
A senhora já de certa idade, que estivera sentada por um bom par de minutos na mesa ao lado, sorriu maravilhada.
- Sim... sou eu... Maria de Fátima...
 
Olharam-se demoradamente, analisando a estranha situação.
Ele nunca lhe dissera a idade... 27 anos... nascido a 30 de Novembro... ela também não .... 72 anos... nascida a 31 de Maio...
 
Foi ela que finalmente rasgou o silêncio.
 
Então, José Maria... diz-me lá... ainda acreditas na alma gémea?

 

publicado por entremares às 21:10
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