Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Ensaio sobre a beleza

 

 

- É hoje ?
- É hoje Marilia, é sim... mas tem a certeza do que pretende fazer ?
- Certeza ? ... Acha mesmo que estou em posição de poder ter certezas ?
E enquanto dizia isto, sorria.
Tinha um sorriso bonito, era o que todos diziam. Um sorriso bonito, lábios cor de morango, um nariz esguio e olhos de um violeta raro. A cabeleira, longa e cinzenta, emoldurava um rosto sereno, simétrico, pacífico até.
Era dificil definir aquele rosto, para além da sua mais que evidente beleza. Transparecia uma energia cativante, uma aura de simpatia que nem mesmo a terrível cicatriz que o rasgava de lado a lado conseguia ocultar.
No auge da juventude, um improvável acidente de viação deitara tudo a perder; o resultado mais evidente fora precisamente aquela cicatriz, que lhe rasgava a face quase de lado a lado.
As feridas do corpo saram sempre mais depressa que as da alma – dizia ela. E com razão.
Os medos, os pesadelos, a insegurança... esses iriam permanecer durante muito tempo, mesmo que a cirurgia plástica conseguisse devolver a beleza original ao seu rosto.
Para a alma... só o bálsamo do tempo.
Tempo... muito mais tempo do que aquele que já passara, quase um ano em hospitais, a sarar o corpo das mazelas daquela noite fatídica, onde uma alegre festa de aniversário se transformara num calvário doloroso.
Mas a vida era isso mesmo... um sopro de instantes imprevisíveis.
A enfermeira apertou-lhe a mão, carinhosamente.
- Marilia... sabe que não precisa de fazer isto...
- Sei sim,Joana... mas mesmo assim... vou fazê-lo... eu preciso.
Retribuiu-lhe o gesto de afecto, enquanto se deitava na maca.
Chegara finalmente o dia.
Dali a pouco, um cirurgião pegaria nela e devolver-lhe-ia o seu rosto.
E, com o rosto, um pedaço da alma voltaria também.
- Eu fico aqui à espera – ainda repetiu baixinho a enfermeira, enquanto ia empurrando a maca ao longo do corredor, em direcção ao bloco operatório.
A porta envidraçada abriu-se e um outro enfermeiro veio apanhá-la.
Acenou-lhe uma última vez.
- Eu fico aqui... prometo.
 
Segunda-feira. Um dia auspicioso.
Uma nova semana, quem sabia senão uma nova vida também... um novo ciclo.
No quarto número 12 do hospital, reinava o silêncio.
A enfermeira Joana lançou um olhar esperançoso ao médico, um cirurgião ainda muito jovem. Ele sorriu-lhe, animado.
- Então, Marilia... vamos a isso ? – e o médico aproximou-se dela.
Marilia continuava sentada na berma da cama, as mãos a apertar com força o cobertor branco. A face, completamente oculta por ligaduras, não permitia vislumbrar a ansiedade que lhe assaltava a alma. Só um leve tremor dos dedos denunciava a angústia que lhe queimava as entranhas. Baixou a cabeça, numa concordância muda.
Joana, a enfermeira, aproximou-se também e, com todo o cuidado possível, começou a desenrolar a comprida ligadura que cobria por compelto o rosto.
Aqueles segundos – como era possível ? – eram a parte mais dolorosa...
Finalmente... a última volta...
A expressão de vitória do médico espelhava o sucesso da operação.
O rosto de Marilia, límpido e tranquilo, não exibia nenhuma recordação da cicatriz que, até há poucos dias atrás, o desfeara de forma tão atroz.
A enfermeira levou a mão aos lábios, contendo um esgar de admiração – que rosto lindo.
- E então... – murmurou Marilia, a voz a tremer-lhe de emoção - ... como estou ?
A enfermeira tomou-lhe as mãos e fê-las tocar o rosto, agora já livre das ligaduras.
- Marília... o seu rosto... está lindo... tem o seu rosto de volta.... eu sabia que tudo iria correr bem...
Ela percorreu o rosto com as mãos; a boca, o nariz, os olhos, a testa... todos os pequenos recantos antes interrompidos pelas marcas do acidente... haviam desaparecido.
- A cicatriz... – gaguejou ela, a voz trémula - ... desapareceu ? A sério ?
- Completamente, Marilia... – e o médico regojizava - ... é como se nunca tivesse tido aquele acidente...
Marilia sorriu, feliz.
O médico, esfusiante de alegria, correu até à mesa de cabeceira, pegando no espelho que ali se encontrava.
- Marilia... – continuou ele – despareceu por completo, acredite... – e colocou-lhe o espelho defronte do rosto – veja por si mesma, veja ... nem um arranhão.
A enfermeira levou as mãos à cabeça, aflita.
- Doutor... – ainda tentou, mas a voz morreu-lhe na garganta.
Marilia segurou o espelho que o médico lhe colocara nas mãos.
Queria acreditar. Fez um esforço enorme, como se todo o seu ser pudesse vergar o tempo à sua vontade... e fazê-lo recuar até àquela noite fatídica... mas infelizmente, tal não seria possível. Assim, limitou-se a presentear o médico com o melhor dos sorrisos.
- Eu bem que gostava, doutor... eu bem que gostava...
Por mais que tentasse ... nunca o conseguiria. No principio, ainda acalentara esperanças, os médicos repetiam vezes sem conta que a cegueira seria temporária, talvez um nervo magoado, nada de muito grave.
No seu íntimo, sempre soube que seria definitivo.
O rosto podia recuperar a beleza de tempos idos, o corpo recuperaria certamente de todas as mazelas, mas o resto...
Continuou a segurar o espelho, a imagem refletida.
- Ao menos – murmurou – que esteja bela para os outros...

 

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publicado por entremares às 15:39
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5 comentários:
De zélia a 23 de Fevereiro de 2009 às 16:51
______________________________________

Muito bom o seu conto!

Ser bonita ao menos para os outros...Antes assim.

Beijos de luz e o meu agradecimento pela gentil visita!!!

____________________________________________
De maria carvalhosa a 23 de Fevereiro de 2009 às 22:44
Olá Rolando,

Naturalmente que depois da sua visita ao meu espaço e do gentil comentário que lá deixou relativamente aos meus escritos, senti curiosidade em visitar o seu.
Pois é! Quem é, afinal, um excelente contador de histórias? O meu simpático recém-visitante... nem mais. Parabéns!
Gostei muito e, para não o perder de vista, vou adicionar o seu blogue àqueles que, por uma razão ou por outra (sempre especiais para mim), gosto de seguir.
Um abraço.
maria carvalhosa
De lizz Marcella a 23 de Fevereiro de 2009 às 23:17
Sinta se a vontade para compartilhar de meus posts e das ideias, assim como tambem me sinto tender para o lado de suas inspirações que são incríveis por sinal.
Belo texto.
Beijos
De Sara a 24 de Fevereiro de 2009 às 11:17
Sem dúvida, um texto magnífico, muito bem extruturado.
A beleza, como se diz por aí sempre, não é tudo mas sem dúvida que é muito, o seu texto é um exemplo. Ela podia não ver aquele novo rosto, belo, limpido mas sentia-se bem por o ter recuperado (...) ela sentia-se bem pelos outros a verem bela.
De Nicole a 26 de Fevereiro de 2009 às 11:36
Descobri este blog por acaso e não resisti a ler e comentar este post.

Adorei o texto. Está fantástica a forma como se desenrolam os acontecimentos e como termina com a declaração da cegueira de Marilia.

Também me levou para outro campo, a beleza física é sem dúvida muito importante mas irrelevante perto de um caso de cegueira. Não me consigo imaginar cega, sem a capacidade de ver todos os meus pequenos e grandes defeitos!

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