Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Benjamin

 

- Inspirado na película " The curious case of Benjamin Button" -

 

 

Pegou novamente no diário.
“ ... mas, naqueles dias cinzentos, era inverno; e o salão do hotel continuava vazio... “
Benjamin Button surgiu então no grande écran. Por dois segundos.
Se existe algo de desagradável numa boa ida ao cinema... é a escolha dos piores momentos para colocar um intervalo. Apesar de o intervalo ser uma benesse, quando nos toca a ousadia de desafiar um filme com três horas de duração...
Piscou os olhos, ferida pela luz súbita que inundara a sala.
A noite fria e chuvosa afastara o público e assim, a plateia resumia-se a não mais que uma meia dúzia de espectadores que – como ela – estavam a dar por muito bem empregue aquele pequeno lapso de tempo.
Ajeitou-se melhor na cadeira – aquela perna... sempre aquela perna presa. Enquanto efectuava movimentos, ainda se tolerava... mas estar ali imóvel, durante tanto tempo... o seu reumatismo não apreciava mesmo nada. Mas enfim...
O cinema era isso mesmo – pensou. Quando as luzes se apagam e somos projectados para um outra realidade... o mundo lá fora fica em suspenso, como se o tempo abrisse uma leve brecha e durante toda aquela escuridão, a vida acontecesse simplesmente diante dos olhos, projectada num écran branco...
Sempre gostara de histórias... e de bons contadores de histórias. Nunca lera aquela novela de Fitzgerald, mas deu consigo a pensar que, por vezes, a realidade conseguia superar a ficção. Claro que também apreciava, por motivos estéticos, o actor...
Veio-lhe à memória – vá lá saber-se porquê – outro filme que também lhe deixara um sabor doce na boca, de um eternamente jovem Mel Gibson.
O tempo ... ou a passagem do tempo, tinha destas coisas; deixavam-lhe o pensamento completamente virado do avesso e às vezes descobria-se a si própria, perdida em sonhos, a divagar sobre a insustentável memória do presente, esse tão fugidio presente que teimosamente, logo se transformava em passado...
Mas o que se poderia fazer quanto a isso ?
Nada, rigorosamente nada. O tempo era a derradeira fronteira, aquela névoa que dava e pedia de volta a vida, num leve interregno durante o qual iam acontecendo coisas...
Quando deu por si, estava sózinha na sala.
A meia dúzia de espectadores optara por ir esticar as pernas e, quem sabe, beber um café. Decidiu fazer o mesmo.
Levantou-se e um pouco a custo, lá se dirigiu à saída.
- A bengala... – ainda murmurou, ao reparar que se esquecera de a apanhar.
Hesitou um segundo e depois seguiu em frente – façamos um esforço... e deixemos a muleta em paz. – rumo ao pequeno bar.
Os espectadores circulavam pelo átrio, observando os cartazes pendurados na parede, conversando baixinho. O eterno empregado do bar – lembrava-se daquela cara desde sempre – serviu-lhe um café e ela pegou na chávena e foi deambular pelo átrio alcatifado de vermelho.
Reviu o cartaz da estreia de “ E tudo o vento levou”, ainda pendurado na mesma parede, ao longo dos ultimos cinquenta anos, as fotografias já um pouco descoloridas da deusa Marylin Monroe, de Humphrey Bogart, de James Dean e mais dois ou três grandes monstros da época dourada de Hollywood.
Apesar dos seus quase setenta e nove anos – até lhe custava a acreditar, tantos ? – continuava fiel à magia do cinema. Nos seus tempos de juventude, corria para as estréias, conhecia de cor os trejeitos e excentricidades das estrelas, até conseguira um dia obter um autógrafo do seu melhor Tarzan de sempre, aquele nadador americano que fizera suspirar todas as da sua geração, o Weissmuller.
Chegou-se ao enorme espelho, junto do bengaleiro, para recompôr a aparência – não que fosse vaidosa, mas a idade ensinara-lhe que a verdadeira beleza residia nos pormenores. E como tal, havia sempre um ou outro pormenor necessitado de atenção.
O espelho devolveu-lhe uma imagem serena, de quem à muito descobrira a postura certa perante as vicissitudes da vida – e tinha tido algumas – mas que nunca se deixara abater por elas... e sobrevivido. Aliás, até estava a gostar particularmente do seu reflexo... provavelmente pela iluminação difusa do átrio, ou pelos reflexos quentes da alcatifa vermelha... até parecia mais jovem, com menos rugas.
Sorriu, e o espelho devolveu-lhe o sorriso.
- Estranha capacidade esta a nossa – pensou para si mesma – de nos continuarmos a ver jovens, mesmo depois de ser velhas...
Prendeu melhor a madeixa branca que lhe pendia para a testa e voltou tranquilamente para a sala. Pelo que ouvira ao empregado do bar, haviam decidido intercalar dois intervalos na projecção do filme, dada a sua enorme duração.
- Ora aí está uma medida muito acertada... – concordou ela – ao menos não ficamos com aquela sensação de pressa... e sempre podemos esticar as pernas...
Sentou-se confortávelmente, preparada para a segunda parte.
Sem se aperceber, a bengala escorregou para o chão... e por ali ficou.
 
Na escuridão envolvente, a história decorria. Envolvente, entremeada pelos acordes de uma banda sonora que apesar de ninguém ouvir... estava lá.
Benjamin continuava a envelhecer... e a rejuvenescer... enquanto o mundo, esse sim, continuava a correr sempre no mesmo sentido, atravessando guerras, pequenas alegrias e tristezas, ou não fosse ele feito disso.
A meia dúzia de espectadores permanecia imóvel, agarrada ao écran.
 
Quando as luzes se acenderam novamente, Bejamin acabara de atravessar o écran a conduzir uma moto, como um James Dean dos tempos de antigamente.
Lembrou-se que também, - há quanto tempo, sessenta anos ?- um dia ficara com uma imagem como aquela, guardada na memória para sempre. Não fora James Dean, nem nenhum outro astro de Hollywood... mas aquela outra metade da sua vida com quem vivera mais de meio século. Uma imagem de cabelos ao vento, o olhar rebelde de quem sabia poder tocar o céu... e que a arrastava com ele, para esse mesmo céu.
A sala esvaziou-se novamente, enquanto uma banda sonora desconhecida ia enchendo o ar de acordes tranquilos.
Ergueu-se da cadeira – bem confortável, por sinal – e apontou para as toilettes.
As duas outras espectadoras já se lhe haviam adiantado e monopolizavam os espelhos, retocando a maquilhagem. Não tinha pressa.
- Já não se fazem toilettes como antigamente – deixou escapar, enquanto se deliciava com os pormenores da decoração do século passado, os gessos do tecto, o candelabro de pendentes, os mármores rosa das paredes... – isto sim, é que eram toilettes...
Quando finalmente conquistou o seu espaço junto ao lavatório de mármore, abriu a bolsa de lantejoulas e de lá retirou meia dúzia de objectos, que colocou junto ao espelho.
Ergueu o olhar, mas o espelho não lho devolveu.
Algures, outro rosto que não o seu... fitava-a, com uma expressão em tudo idêntica à sua... mas não a sua.
Fechou os olhos, subitamente tonta.
Muitos segundos depois, atreveu-se e abriu os olhos, devagar, muito devagar.
O reflexo no espelho abriu também os olhos, imitando-lhe os movimentos.
Um rosto jovem, muito jovem, observava-a com atenção.
Sabia que estava a sonhar.
Um sonho delicioso, é certo, mas um sonho.
Aos poucos reconheceu-se naquele olhar, na cor dos cabelos, nas pequenas rugas de expressão que sempre tivera ao canto dos olhos, que aumentavam sempre que sorria.
Lembrava-se de quando aparentava aquele aspecto, ser aquela pessoa.
Por breves instantes, teve saudades de si própria, de voltar a ser aquela imagem do espelho, meio século mais jovem...
- Que olhar tão cheio de ilusões – ouviu-se a si mesma a dizer – que olhar ingénuo...
 
Quanto tempo passou ? Não o sabia dizer. Quando conseguiu desprender-se das recordações, correu o mais depressa que pode de volta à sala.
As luzes já se haviam apagado e ela foi tacteando as cadeiras vazias, habituando o olhar à escuridão e o corpo aquela sensação de juventude que já esquecera há muitos, mesmo muitos anos...
 
A banda sonora permanecia baixinho, agora que o filme terminara. Um após outro, os espectadores levantaram-se e relutantes, encaminharam-se para a saída.
O pano desceu e a funcionária da limpeza preparou-se para a tarefa habitual de retocar a sala para a próxima sessão. Desta feita, o trabalho seria pouco, meia dúzia de espectadores ... e uma meia hora seria suficiente.
Ligou o aspirador e começou pela última fila de cadeiras, como sempre fazia.
Iniciava a ronda pela fila seguinte, quando lhe pareceu ouvir um ruido, a sobrepôr-se ao roncar do aspirador. Intrigada, desligou-o.
Seria possível ?
 
Mas era. Onde ?
Conseguia ouvi-lo... nítidamente.
Alarmada, correu para a porta e ligou todos os interruptores. Agora, com toda a luz a inundar a sala, não podia já duvidar do que estava a ver, bem no meio da terceira fila, ao pé de um punhado de roupas e de uma bengala caída.
 
- Manuel... – gritou desesperada, para o empregado do bar – acode-me aqui, por favor... acode-me, que alguém deixou aqui uma bébé... acode-me Manuel...

 

publicado por entremares às 17:50
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3 comentários:
De carla a 22 de Fevereiro de 2009 às 20:46
perfeito este texto... muito obrigada pela visita que me permitiu descobrir a beleza da escrita quee xiste neste espaço
beijos
De Najla a 23 de Fevereiro de 2009 às 13:38
Os meus mais sinceros parabéns por este texto! Conseguiu que estivessemos naquela sala de cinema! Excelente!
De Anónimo a 23 de Fevereiro de 2009 às 14:55
Tem uma escrita muito interessanta. Parabéns

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