Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

O baile de finalistas

 

 
- Duzentos e noventa e nove euros ?
Encostou o nariz ao vidro da montra e por ali ficou, a sonhar acordada. Aquele era um dos mais lindos – não, correcção... aquele era o mais lindo - vestido de festas que os seus olhos alguma vez haviam contemplado.
Preto, como não podia deixar de ser; esguio, elegante, atrevido... um autêntico conto de fadas. Mas... ai aquele preço...
Encolheu os ombros e continuou o seu trajecto, de volta a casa. Uma sexta feira à tarde, sem aulas... sabia sempre bem. Claro que ainda saberia melhor se pudesse fazer o que todos os seus colegas, por essa altura, iriam estar a fazer, ou seja... preparar-se para o grande baile.
Como habitualmente, na última sexta-feira do segundo período lectivo, a escola engalanava-se de cerimónia, desdobrava-se o tapete vermelho, a orquestra tomava de assalto o refeitório e, por uma noite de magia, a velha escola – já tão precisada de reparos – transformava-se num castelo de ilusões, com príncipes e princesas, corcéis e carruagens e até, irreconhecível no seu papel, um mestre de cerimónias.
A noite ... do baile de finalistas.
Nos dias anteriores, um rodopio de estudantes excitados e pais contrariados esvaziara as lojas de vestidos de noite, echarpes, smokings, casacos de cerimónia, gravatas e – como não podia deixar de ser também – perfumes, brincos, pulseiras, gargantilhas e todos os objectos que numa noite de gala, ajudam as estrelas a brilhar ainda mais...
Lila não fazia parte, contudo, desse grupo.
Apesar de ser finalista – e muito boa aluna, diga-se de passagem – a presença no baile exigia um certo número de coisas que, pura e simplesmente, não estava ao alcance da sua bolsa.
Vivia com a mãe, varredoura de rua, numa pequena casa alugada, bem no centro da cidade. O dinheiro era contado e recontado, e nunca lhe faltara nada. Mas também nunca lhe sobrara nada. E como a mãe lhe dissera – Ou deixas de comer durante um mês, ou compras o tal vestido... mas se fosse a ti, preferia comer... haverá sempre tempo para outros bailes.
Concordara. Aliás, que podia mais fazer, senão concordar ? A mãe tinha razão, não por teimosia ou por estar a querer privá-la de algo mas, simplesmente... porque tinha razão, e nada mais.
Claro que tentara pensar em alternativas, evidentemente. Mas por mais voltas que desse ao guarda-fato, não havia maneira de transformar calças de ganga, blusas de algodão e t-shirts desportivas num vestido de noite. E também já passara longas horas a magicar possíveis maneiras de arranjar o dinheiro necessário... e acabara sempre por adormecer, sem encontrar a solução.
Na rua, toda a gente conhecia Lila. Desde pequenina.
Já ajudara a D. Maria – a florista – a vender as flores na praça, aos sábados de manhã, já substituira o sr. António na mercearia, naquelas alturas em que o pobre nem conseguia sair de casa, com as alergias da primavera e todos os anos, mal chegavam as férias de verão, lá ia ela trabalhar para a horta da D. Ermelinda, ajudar a tratar dos animais e da apanha da fruta. Portanto, o trabalhar nunca lhe metera medo.
Mas, desta feita, não teria tempo suficiente para o procurar.
Portanto, o baile de finalistas era um ponto arrumado, e era melhor não voltar a pensar no assunto.
 
Ia meter a chave à porta, quando a chamaram.
- Lila.... Lila.
Voltou-se curiosa.
- Ahh... D. Amélia... como vai ? Era a senhora que me estava a chamar ?
- Chega aqui, Lila... chega aqui...
A D. Amélia era uma quase vizinha, separada que vivia da sua casa por três portas de intervalo. Era mãe solteira de um casal de gémeos, crianças terríveis e bem barulhentas, que volta e meia colocavam a rua inteira em sobressalto, com gritos de fazer toda a gente sair de casa e vir espreitar à rua... e não ser nada, para além das vulgares brigas de irmãos.
Lila chegou-se até à porta da vizinha.
- Então, D. Amélia... como vai ? Estava a chamar-me...
- Preciso de ti. Lila... preciso muito de ti – começou ela, enquanto a puxava para si – e tu és a pessoa certa para me ajudar neste apuro...
- Essa agora, D. Amélia... parece coisa séria...
- Preciso que me fiques com os meus meninos amanhã, durante todo o dia... trocaram-me o serviço de turnos, lá no hospital... e não posso faltar mais nenhum dia, este mês... eu não estava à espera... mas também não posso faltar ... eu compenso-te...
Lila continuava a olhar a vizinha.
- Olha Lila... e se eu te pagar como baby-sitetr... achas que podes ficar a tomar conta dos meus meninos ? Podes ? É só amanhã... eu até acho que consigo voltar cedo...
Uma luz pequenina brilhou de repente e Lila sorriu.
Oh, D. Amélia ... não se preocupe, claro que posso. Amanhã é sábado, não tenho aulas, não tem problema nenhum...
- Eu sei que não tens aulas, Lila, eu sei... mas hesitei muito em pedir-te isto... porque sei que hoje à noite tens o teu baile de finalistas... e sei que vais chegar tardíssimo a casa e depois... nem vais quase ter tempo para dormir porque eu começo o meu turno às oito da manhã... mas não tenho mais ninguém a quem recorrer...
Lila voltou a sorrir-lhe, bem disposta.
- A sério, D. Amélia... não precisa de ficar preocupada... eu nem vou ao baile de finalistas, portanto... tenho muito tempo para dormir...
- Não vais ao baile de finalistas? – e a D. Amélia surpreendeu-se – Tu, a cara mais linda destas redondezas... não vais ao baile de finalistas ? Como assim ?
Lila lá lhe explicou devagarinho os motivos enormes que impediam a sua ida ao baile - ... e como vê, D. Amélia... a sério, não faz mal... haverá sempre outros bailes, e no futuro, quando tiver um daqueles grandes empregos... aí terei tempo para ir a todos os bailes...
A D. Amélia emudeceu. Combinaram as horas e cada uma voltou para a respectiva casa.
 
Nove da noite.
Lila acabara de lavar o último prato da loiça do jantar. Na sala, a mãe ia alternando uma piscadela de olhos à novela da televisão e ao ferro de engomar – não fosse ele aquecer demasiado – enquanto tentava despachar a pilha de roupa acumulada de uma semana inteira.
- Lila …. – gritou a mãe – estão a bater à porta…
A filha pousou o prato, passou as mãos pelo avental húmido e dirigiu-se à porta – áquela hora, o mais certo era ser a vizinha Joana ou mesmo a D. Amélia, para um pouco de conversa com a mãe.
Abriu a porta.
 
O mundo inteiro, tal como Lila o conhecia, desabou-lhe aos pés. À sua frente, a D. Amélia, um sorriso radiante, segurava nas mãos um caixote enorme, envolto num papel prateado e com uma grande fita vermelha, formando um laço. Ao seu lado … - o que fazia ali toda aquela gente ? – o sr. António, o velho Ramirez, a D. Joana, até o taxista Daniel e… o que era aquilo ali ao fundo ?
Os olhos cobriram-se-lhe de lágrimas.
Bem no meio da rua, a D. Ermelinda, ao comando da sua charrete da quinta, puxada pela égua Matilde, a sua boa amiga Matilde… e como estava linda… toda coberta de fitas e de um pano colorido, tal como a carroça, transformada por mãos artistas numa verdadeira carruagem de contos de fadas…
- Mas… - e Lila não conseguia soltar as palavras - … o que é isto ?
A D. Amélia colocou-lhe o embrulho prateado nas mãos.
- Isto, minha pequenina Lila … é o teu bilhete para o baile de finalistas… ou tu julgavas que os teus amigos te iam deixar aqui ficar, como a gata borralheira ?
- Mas… mas… não percebo … como é que… como é que fizeram tudo isto ?
A D. Ermelinda, sentada no alto da sua charrete, protestou, naquela voz característica de quem está habituada a ser sempre obedecida. – Miúda reguila… vê se te despachas, que aqui a minha Matilde já está a ficar impaciente… e eu estou aqui com esta carroça no meio da rua, achas que quero ser multada ? Onde é que já se viu ?
A D. Amélia piscou-lhe o olho. Empurrou Lila para dentro de casa e fechou a porta, não sem antes gritar para a pequena multidão que entretanto se formara junto à porta.
- Se me dão licença… a nossa princesa precisa de se arranjar. – e pegando-lhe no braço - … estás pronta ?
Lila beliscou-se com força, esperando não acordar. Finalmente, lá conseguiu arranjar forças para lhe responder.
- Se estou pronta ? … Há tanto tempo que estou pronta …
E agarrou-se-lhe ao braço, com toda a força.
- Estou pronta, sim… vamos.
publicado por entremares às 16:57
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Anónimo a 21 de Fevereiro de 2009 às 01:40
Gostei muito da história. Está bem escrito Virei mais vezes.
bom fim-de-semana
De maria ruas a 21 de Fevereiro de 2009 às 01:55
texto muito interessante. vou começar a passar por aqui

Comentar post

.mais sobre mim

.BlogGincana


.Fevereiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. O unicórnio branco

. Nascer de novo

. Noites de lua nova

. Perguntas e Respostas

. Roby, o rei leão

. Onde mora o paraíso?

. Sinais

. Um novo destino

. O profeta

. Ele e Ela

. As doze badaladas

. O salto da alma nua

. O rei morreu... Viva o re...

. Blog Gincana - Novembro

. A dúvida humana

.

. João e o Mestre

. Aniversário

. E depois do adeus

. A pimenta do amor

. O que fazer?

. Sem título

. A mulher invisível

. A escolha dos anjos

. Os amantes

. A Dama do Outono

. Um pedido

. Simplesmente Eugénio

. Carmen Miranda

. A decisão

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.Os ouvintes das histórias

online

.links

.as minhas fotos

.Nº de Navegadores

Get a free html hit counter here.

.Google

.Quem navega...

Locations of visitors to this page

.Gazeta dos Blogueiros

Gazeta dos Blogueiros
blogs SAPO

.subscrever feeds