Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Um passeio matinal

 

 
Com um salto, esquivou-se mesmo a tempo.
- Idiota - pensou - condutor de domingo, nem vê as passadeiras...
E era bem verdade; atravessar a rua numa passadeira já não era tão seguro como antes... nem aos dias de semana, nem aos fins de semana. Também era verdade que muitas das passadeiras só o eram de nome, porque as listinhas brancas já tinham mudado de cor há muito tempo - branco sujo, branco muito sujo, cinzento e depois... preto. Ou seja, zero, nada de passadeira.
Continuou tranquilamente ao longo do passeio, quase vazio de transeuntes. Aos sábados de manhã, o panorama era sempre o mesmo. Antes das nove, as ruas permaneciam desertas, o comércio fechado, o estacionamento dos taxis reduzido a um único exemplar sem clientes. O unico movimento girava em torno da padaria.
O cheiro a pão quente transbordava porta fora e obrigava a um desvio estratégico; ou entrar... ou fugir rápidamente.
Ao fundo da rua, nova esquina, nova passadeira, desta vez vazia.
A pequena loja da sra Marquita abria as portas nesse mesmo momento. A proprietária, teimosamente a lutar contra a idade da reforma, lá ia colocando os caixotes com a fruta e os legumes, no exterior, para atrair a clientela. A seguir foram as batatas e as cebolas e numa pequena mesa, ainda se conseguiu arranjar espaço para uns frascos com calda de pimentão - uma delicia caseira de produção própria que conquistara clientes fiéis ao longo dos anos. Mesmo na porta ao lado, o sr Manuel subia os estores metálicos da porta do Café Central.
Desviou-se a tempo de levar um valente encontrão. O sr Manuel, mesmo com os óculos, era um míope incorrigivel e não valia a pena medir forças no embate - o sr Manuel, com aquele peso, levava sempre a vitória assegurada.
O sol radioso convidava ao passeio matinal.
Em passo de corrida miudinho, duas raparigas ultrapassaram-no, vestidas a rigor para o jogging diário. Dirigiam-se, tal como ele, para o jardim - era habitual vê-las por lá, correndo por entre os obstáculos da pista de manutenção.
Não tinha pressa. Se havia coisas que lhe davam especial prazer, percorrer a distância da praça principal até ao jardim - ainda por cima, sempre a descer - era uma delas, principalmente aquela hora da manhã, com céu azul e um sol que, apesar de Fevereiro, já aquecia.
- O caminho da volta é sempre pior - lembrou-se.
Cruzou-se com o homem do quiosque das revistas, que àquela hora, levava sempre o seu cão a passear - mas nunca ao jardim. O cão, um belo pastor alemão com um pelo negro brilhante, ainda lhe lançou um ar desconfiado, mas seguiu tranquilamente o seu caminho.
Melhor assim. Nunca simpatizara em particular com os pastores alemães.
Uns minutos, três esquinas e muitas passadeiras depois, chegou aos portões do jardim.
Dois velhotes, as duas raparigas do jogging e um gato vadio pareciam ser as unicas almas vivas por ali. - Os pássaros da gaiola e os patos brancos do lago não se incluiam nesta contagem.
Deteve-se, observando com atenção tudo o que o rodeava.
Uma vontade súbita fê-lo recordar que existiam certas necessidades fisiológicas básicas que necessitavam de ser satisfeitas.
Olhou novamente.
Vagarosamente, aproximou-se de uma árvore já bastante velha, mesmo junto do lago dos patos.
Com um equilibrio resultante de muitos anos de prática, levantou a pata e regou a árvore.
Espreitou para confirmar se o guarda do parque não estaria por ali perto, a vigiar.
Não. A costa estava livre.
Era mais forte que ele.
A tentação do perigo.
Sorrateiramente, dirigiu-se até ao poste de madeira que, bem junto da entrada do parque, sustentava o aviso de que " Não são permitidos animais sem coleira "
Ninguém à vista.
Desta vez, primeiro a pata esquerda. Mais um esguincho . Depois, a pata direita. Novo esguincho.
- Missão cumprida... podemos voltar ao aconchego do lar... o dono já deve estar a estranhar a ausência... 
publicado por entremares às 00:09
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2 comentários:
De Lizz Marcella a 19 de Fevereiro de 2009 às 02:20
A visão de mundo de um cachorro pode mesmo ser bem minuciosa,,,
pensei que fosse um homem até o último minuto..rsrsrs
belo blog, beijos obrigada por ter lido meu post
De Najla a 19 de Fevereiro de 2009 às 14:20
Excelente texto!
Parabéns!

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