Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

A canção do engate

 

- Não és capaz – desafiava um dos amigos.
- Não sou capaz ?, Essa agora, ...claro que sou capaz... – defendia-se o acusado – vocês julgam que é assim tão dificil ?
Os três amigos entreolharam-se.
O Miguel, o mais extrovertido, sempre com um sorriso ao canto dos lábios, achava-se capaz de tudo e mais alguma coisa, de mover o mundo, se necessário fosse; tudo se limitava a colocarem-no defronte do desafio certo... provocarem-no até ao ponto crítico e ... voilá, o Miguel aceitaria qualquer tarefa, por mais disparatada que fosse, só para conseguir provar aos amigos do que era capaz. Os seus dois amigos, inseparáveis desde que conseguira aquele novo emprego na farmácia, eram precisamente os seus colegas de trabalho, o Mário e o André. Bastante mais calmos, seguiam quase obrigados as loucuras do amigo e, não raras vezes, eram eles que conseguiam resolver alguns dos embróglios em que o Miguel os colocava... a todos.
Naquela noite, no bar do costume, a situação prometia transformar-se em mais um desses casos.
- Mas tu já reparaste no aspecto da mulher ? – dizia o Mário... Dá perfeitamente para ver que está à espera de alguém...
- ... E esse alguém não és tu, de certeza absoluta – completava o André, com um sorriso irónico.
E iam lançando olhares esfomeados na direcção do balcão corrido do bar, onde meia dúzia de clientes eram atendidos pelo barman. Em particular... para uma cliente.
O objecto das atenções respondia pelo sexo feminino, e o seu aspecto não poderia deixar ningém indiferente; fosse pelo penteado exótico a imitar – era a opinião do André – uma juba de leão , pelo latex negro muito justo que lhe revestia as formas ... ou pelo tamanho e forma da mini-saia vermelho vivo, que se recusava terminantemente a tapar o que quer que fosse. Seja como for, os olhares masculinos convergiam – uns disfarçadamente, outros nem por isso – para aquela figura, muito apetecível da ponta das botas – vermelhas também, claro está – até à ponta dos cabelos.
O MIguel, moço bem parecido, faíscava. Nos últimos três meses – precisamente desde que conseguira o emprego na farmácia onde já trabalhavam o Mário e o André, saía regularmente com os amigos e, por vezes, lá faziam as suas apostas... quem bebia mais disto ou mais daquilo, quem chegava primeiro ao trabalho, quem aguentava mais a fazer uma determinada tarefa... – até já tinham um dia apostado quem conseguia comer mais pastéis de bacalhau, competição que o André ganhou com um à-vontade impressionante – e naquela noite... estavam precisamente a começar uma nova aposta.
- Portanto... o que é que vocês apostam, digam-me lá ?
- Miguel, Miguel... desta vez estás muito enganado – dizia o André – apostes lá o que apostares, dali não levas nada... – e apontava o dedo na direcção da mulher de mini-saia.
- Eu aposto – lançou o Mário – que não consegues ir até ali ao balcão, meter conversa... e sair por aquela porta fora... – e apontava para a porta do bar – nem isso, nem mais nada depois disso, está-se mesmo a ver...
O André concordava entusiaticamente, abanando a cabeça.
- E o que é que vocês apostam ? Alguma coisa que valha a pena ?
- Um Jantar, com ementa à tua escolha – alvitrou o Mário.
- Um fin-de-semana no Algarve, com tudo pago... empolou o André, sempre mais dado a exageros.
O Miguel ficou a olhar para eles, desdenhoso.
- Só isso ? Vocês estão muito forretas... quer dizer, eu posso ir ali, apanhar assim um valente par de tabefes ou coisa pior... para ganhar um jantar ? Nem pensem...
- Então... sem ser um jantar... escolhe tu qualquer coisa... mas qualquer coisa que nos interesse, porque como vais perder... não queremos ganhar assim umas bugigangas...
O Miguel passou a mão pelo queixo, pensativo. Algo importante ? Algo valioso ?
Uns segundos depois, descobriu a aposta perfeita.
- Já sei... uma coisa que é óptima para todos ... eu aposto um ano de serviços nocturnos na farmácia...
Os outros trocaram olhares entre si, perplexos.
- Como assim ? Um ano ? – gaguejava o Mário.
- ... E todos os serviços... mesmo todos ? – o André esbugalhou os olhos.
Foi a vez do Miguel se rir.
- Então... agora já perderam a coragem, é ? Foram vocês que quiseram fazer a aposta e agora já estão a perceber que vão perder, não é ? ... – e soprava com desdem sobre os ombros - ... eu compreendo, rapazes, deixem lá... eu compreendo...
Os dois amigos empertigaram-se, reagindo à provocação.
- Tudo bem... por nós, tudo bem... mas olha lá bem onde te estás a meter, porque depois não venhas dizer que queres voltar atrás... é mesmo um ano, inteirinho... de serviços nocturnos lá na farmácia, é isso ?
- É isso mesmo – concordou o Miguel.
O Mário e o André ainda trocaram um último olhar, antes de acenar uma aprovação.
- Está apostado – resmungou o Mário. Agora, vou sentar-me aqui ... e ficar a ver.
 
O Miguel acabou de beber tranquilamente o resto da cerveja. Compôs a roupa, levantou-se, respirou fundo – adorava toda aquela encenação – e lá se dirigiu até ao balcão.
 
Sentados à mesa, os dois amigos riam bem dispostos. Conseguiam ver o Miguel, a dirigir-se hesitante para o bar. Empurrou um, depois outro... e lá conseguiu aproximar-se da mulher em causa, que nesse mesmo momento “despachava” em alta velocidade um pretendente mais afoito. O comentário, apesar de eles, sentados à mesa, estarem demasiado longe para o ouvir, deveria ter sido digno de registo, porque provocou uma gargalhada geral entre todos os clientes que se encontravam junto ao balcão.
Adivinhava-se portanto igual sorte para o MIguel.
Mas era bem feito – o Miguel às vezes tinha destas coisas, inchava de manias e de ares de conquistador – e um ano de serviços nocturnos, bem vistas as coisas... eram muitos serviços. E , quer para o Mário, quer para o André, o sabor da vitória sempre seria mais saboroso...
Viram o Miguel acercar-se da mulher de mini-saia vermelha. Entabulou conversa, conseguiu um sorriso como resposta, depois disse-lhe qualquer coisa e por ali ficaram, entretidos num diálogo que nem o Mário, nem o André, àquela distância, conseguiam perceber.
Dois minutos depois, ela levantou-se e ele lançou-lhes um olhar – bem... o tal olhar – enquanto abanava a cabeça.
Mário abriu a boca e gaguejou qualquer coisa, que nem André conseguiu perceber.
Entretanto, Miguel e a desconnhecida saiam calmamente pela porta do bar, perante o olhar atónito dos dois amigos.
 
- Achas que ficou tudo bem ? – perguntou ela, mal se apanhou no exterior do bar.
- Oh... tenho a certeza que sim... – e Miguel colocou o mais inocente dos sorrisos – neste momento, ainda estão os dois de boca aberta... e sem dizer palavra.
Dirigiram-se os dois até à viatura de Miguel, parada no estacionamento privativo do bar.
- E então ? Qual vai ser o resultado ? – quis saber ela, curiosa.
- O resultado ? Oh, meu amor... o resultado é que o teu maridinho acabou de ganhar um ano de folga nos serviços nocturnos lá da farmácia...
E ria-se perdidamente.
- Achas que eles não suspeitaram de nada ? – insistiu ela receosa.
- Suspeitaram ? – ele agarrou-a carinhosamente – Se eles nem sonham que eu sou casado... quanto mais suspeitar de ti, que nem te conhecem... Não... Para eles, eu só fui o D. Juan e tu... bem ... tu foste a mais bonita mulher de vermelho que eles já viram na vida....
Ligou a ignição e arrancou.
Segundos depois, desapareciam na escuridão.
publicado por entremares às 08:11
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