Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Uma reclamação higiénica

 

 
A porta envidraçada abriu-se suavemente, à sua aproximação.
- Olha que luxo… - pensou ela, enquanto percorria o local com um olhar atento – isto sim, isto é que é conforto no trabalho…
O gabinete de atendimento não era grande, mas transpirava conforto. Luxo, até…
Meia dúzia de cadeiras estofadas, um televisor extra-plano pendurado na parede, um aquário iluminado encastrado num móvel de madeira – bonito, muito bonito – e um tapete a cobrir a quase totalidade do piso de pedra escura.
- Bem que podia ser a minha sala de estar…
A música de fundo, relaxante, disfarçava o sibilar do ar condicionado – não o via, mas aquele calorzinho em Fevereiro não vinha do sol, com certeza – e até a iluminação, difusa e de um branco pálido, lhe parecia bastante apropriada.
Abriu a mala e de lá retirou um envelope selado. Afinal, deslocara-se ali por algum motivo.
Aproximou-se do guichet de vidro e espreitou, à procura de alguém que a atendesse.
- Faz favor… - chamou ela, enquanto tentava descobrir algum rosto, do outro lado do separador de vidro baço.
Não encontrou um, mas três. Três funcionárias, calmamente sentadas – fechou os olhos com força, para se convencer que não estava a sofrer de alguma alucinação – defronte de uma lareira.
- Uma lareira ? – e ficou boquiaberta, a contemplar o cenário .
Uma das funcionárias reparou nela e levantou-se, dirigindo-se-lhe em seguida.
- Bons dias … em que posso ser-lhe útil ?
A recém-chegada ainda andava à procura das palavras.
- Ahn…. Bons dias… eu … eu venho pagar…
- Ah, certamente. – sentou-se e escreveu qualquer coisa no teclado – e tem aí consigo a referência do pagamento ?
A visitante puxou do envelope, que continha duas folhas de papel no seu interior, e passou-o à funcionária da repartição.
- Ah… a senhora vem pagar uma multa, é isso ? E qual é o seu sector de actividade ?
- Sector ? … Uma pastelaria …
- Certo, certo … - e a funcionária carregou em mais algumas teclas - … temos portanto aqui um código 514, não é ? … Exactamente, um código 514… - e ergueu os olhos para a visitante – isto é uma multa por insuficiência das instalações sanitárias, não é ?
A visitante, dona da pastelaria Maribel, D. Maria Isabel dos Santos Couto de seu nome ficou a olhar aparvalhada para a funcionária.
- Olhe, minha senhora… não percebo o que significa aí o seu código não sei das quantas… a única coisa que sei é que tive o azar de uns senhores da fiscalização me terem entrado lá na pastelaria e um deles pediu para ir à casa de banho. Só sei é que veio lá de dentro furioso, que se lhe tinha acabado o rolo de papel…
Uma segunda funcionária abandonou a lareira e veio juntar-se à colega, curiosa.
- Olha lá, Sónia… - lá foi dizendo – tens a certeza que é um 514 ? Pela descrição da senhora não deveria antes ser um 524 ?
- Um 524 ? – e carregou em mais algumas teclas – achas mesmo ? Olha … aqui diz que o 524 é “ stock insuficiente de produtos de higiene considerados necessários ao normal funcionamento de uma instalação sanitária de classe dois, com área não superior a 9 m2em zonas comerciais desprovidas de instalações sanitárias públicas.”
As duas funcionárias olharam em simultâneo para a pobre D. Maria Isabel.
- Qual é a área das suas instalações sanitárias ? – perguntou uma
- As suas instalações sanitárias são da classe um, dois ou quatro ? – quis saber a outra.
A dona da pastelaria abriu e fechou a boca várias vezes, como um peixinho vermelho fora de água. Se tivesse na mão dois pastéis de nata, perderia o amor ao dinheiro e esfregá-los-ia naquelas carinhas rechonchudas e com excesso de pó-de-arroz. Como tal não era possível, limitou-se a berrar.
- Isto é uma casa de malucos, ou quê ? Então eu venho pagar uma multa de 120€, porque um idiota aqui dos vossos colegas se lembrou de ir à minha casa de banho e, como deve estar mal habituado, gastou-me meio rolo de papel higiénico e ainda teve a lata de me passar uma multa… e vocês agora estão para aqui a gastar-me a paciência com os códigos das casa de banho ? Julgam que eu não tenho mais nada que fazer ?
A terceira funcionária levantou-se do seu banquinho junto à lareira e veio juntar-se às duas colegas.
- A senhora não precisa de ser rude… - exclamou ela, ao chegar-se ao balcão – As minhas colegas só estão a desempenhar as suas tarefas…
A D. Maria Isabel começou a ficar mais vermelha.
- Vocês são é umas marquesas… - e ia levantando mais a voz – estão aqui no bem bom, não fazem nada o dia inteiro e ainda por cima nos fazem perder tempo…
- Acalme-se, senhora… como é o seu nome ? … Ah sim… D. Maria Isabel… acalme-se… as minhas colegas passam-lhe já o recibo do pagamento… quanto é ?
- 120€ - rugiu a D. Maria Isabel, ainda mais alto – um autêntico roubo, por um idiota ter ido à minha casa de banho e não se ter contentado com meio rolo de papel … um roubo…
A primeira funcionária recebeu apressadamente as notas que a D. Maria Isabel pousara no balcão e emitiu de imediato o recibo do pagamento.
A dona da pastelaria entretanto, passara da cor vermelha para um arroxeado pálido, que não lhe ficava nada bem. Transpirava abundantemente e os olhos avermelhados não paravam quietos.
- Uma casa de banho – pediu ela, com a voz rouca – preciso de ir pôr água na cara, estou a arder…
As três funcionárias trocaram um olhar atrapalhado.
- Ahn… tem uma aqui duas portas ao lado…. Na casa dos hamburgers…
A dona da pastelaria olhou para trás. Junto à porta envidraçada por onde entrara, conseguia ver o dístico de uma casa de banho.
- Mas não é aquela porta ali ao fundo ?
Novo olhar atrapalhado entre as funcionárias. Finalmente, a última a juntar-se ao grupo lá avançou.
- Bem… não, não é… se reparar bem… tem lá escrito que aquela é só reservada aos funcionários…
 
Silêncio.
A D. Maria Isabel permaneceu imóvel, ora fitanfo a lareira, ora a porta da casa de banho, ora os rostos das três funcionárias. A sua pele foi retomando a cor normal, compôs a postura e um leve sorriso começou a desenhar-se-lhe nos lábios.
… Portanto – disse ela, muito fininho – esta repartição não tem … instalações sanitárias que eu possa utilizar ?
A funcionária que falara por último confirmou, com um aceno de cabeça.
- Deixe-me colocar a questão de outro modo – continuou a D. Maria Isabel – Esta repartição, que tem aquela morada que aparece nos meu livro de reclamações lá da pastelaria … não tem uma casa de banho para o público que aqui vem… é isso ?
A funcionária concordou de novo.
A D. Maria Isabel sorria de novo.
Ergueu os olhos aos céus e os seus lábios pareceram agradecer qualquer coisa, em voz baixa.
- Minhas marquesas… - e esticou o dedo para as três – façam o favor… e tragam-me o livro de reclamações. Já.
publicado por entremares às 15:17
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5 comentários:
De Anónimo a 14 de Fevereiro de 2009 às 16:47
O sol acende a tímida luz do dia
E embarco na viagem que nunca faço…
Abraço manhãs no ceio da chuva fria
Desbravo os ventos em trilhos do acaso

Grato estou pelo comentário
No meu “pensamentos”…
Que adormecem
Ao relento do alento
E enriquecem
Meus esplêndidos momentos

Um resto de um bom fim-de-semana

O eterno abraço…

-MANZAS-
De vida de vidro a 14 de Fevereiro de 2009 às 17:53
A vingança é um prato que se serve frio... :)**
De vida de vidro a 14 de Fevereiro de 2009 às 17:56
A vingança é um prato que se serve frio... :)**
De Jorge Soares a 14 de Fevereiro de 2009 às 23:33
Vim retribuir a visita.... e fiquei cliente. Excelente texto.

Abraço
Jorge Soares
De conceiçao duarte a 15 de Fevereiro de 2009 às 01:06
Muito interessante esta sua história!
Ainda voltarei para te ler mais.
Obrigada pela visita no meu modesto blog.
Tenha ótimo domingo, beijinhus CON

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