Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

João e Maria

 

 

- Meu bem… a nossa relação está entrando numa fria… - lá ia dizendo a esposa, ironizando com o sotaque tão típico das novelas brasileiras.
Ele não apreciava. Nem as novelas nem quando a esposa utilizava aquele sotaque. Habitualmente, significava que se avizinhava uma discussão, um sermão ou, no mínimo, uma admoestação.
Pesou mentalmente o seu dia no lar. Ter-se-ia esquecido de fazer algo importante? Não, pela expressão da esposa não parecia ser nada relacionado com a arrumação da casa, a roupa fora do lugar, a porta da garagem que prometera arranjar já ia para umas duas semanas…
O que seria então?
Não se esquecera de algum aniversário? Vejamos… o aniversário dela, do casamento, da mãe dela, do dia em que se haviam conhecido… não, também não lhe parecia que fosse algo relacionado com datas de aniversário…
- João… tu ainda gostas de mim?
O marido viu os seus pensamentos interrompidos.
- Como assim? Se ainda gosto de ti? Olha que pergunta …
A voz da esposa não transparecia irritação, aborrecimento ou até recriminação. No entanto, ao invés dessa observação o aliviar, deixou-o preocupado. Não era normal a esposa dirigir-se-lhe num tom tão calmo, tão… dialogante.
- Claro que gosto de ti, sabes isso muito bem… - apressou-se a continuar, enquanto pousava a revista e lhe dirigia toda a atenção - … a que propósito veio agora essa pergunta ?
A esposa acabara de dobrar a tábua de passar a ferro. Encostou-a à parede e foi sentar-se junto dele, no sofá. Um clique no telecomando e a televisão emudeceu de som e imagem.
De repente, fez-se silêncio.
 - Acho que tu já não gostas de mim… ou pelo menos, já não gostas tanto como antes gostavas…
- Porque dizes isso?
- Por nada, não sei… nem sei bem explicar…
O marido chegou-se mais a ela.
- Oh, Maria… que tolice. Claro que gosto de ti… e gosto de ti muito mais agora do que gostava antes…
A esposa ficou a olhar para ele. Parecia estar a escolher as palavras com muito cuidado, com receio de poder vir a ser mal interpretada. Finalmente…
- E o que é que gostas mais em mim?
Foi a vez dele de ficar pensativo, quase atordoado. Aliás, para um domingo de manhã, aquele dia fugia – e muito – à rotina de todos os domingos de manhã.
- O que gosto mais? Deixa-me ver… assim uma virtude, é isso que pretendes saber?
- Isso mesmo… não tinha pensado nesses termos, mas pode ser… uma virtude. Tenho alguma virtude para ti?
- Virtude… vejamos… és paciente, o que é uma virtude, és… inteligente, aliás, és muito inteligente, senão não terias reparado em mim – sorriu para ela - … e que mais ? Também és… teimosa, o que em ti eu não chamaria de virtude, mas também não é nenhum defeito…
Ela retribuiu-lhe o sorriso, um sorriso muito calmo, levemente enigmático, como ele não se lembrava de lhe ver; e, tendo em conta que já viviam juntos ia para cinco anos, pensava que já houvera tempo suficiente para lhe conhecer todas as expressões, todas as curvas do corpo, todos os estados de espírito… mas afinal, aparentemente não lhe conhecia todos os sorrisos…
- Sim, eu sei… - respondeu-lhe ela – já imaginava que seria difícil responderes a uma pergunta destas… mas é importante para mim, acredita… saber algumas respostas… e ainda preciso de saber mais, muito mais…
Ele assentiu com um leve abanar de cabeça.
- Muito bem… e como queres fazer isso? É só perguntares… que mais coisas intrigantes pretendes saber, neste já de si tão estranho domingo de manhã? – ironizou.
Ela deu-lhe um beijo ao de leve na testa.
- Vamos fazer um jogo – murmurou – pode ser?
E, sem esperar pela resposta, Maria pegou em duas folhas brancas que se encontravam pousadas na mesa.
- Tu ficas com uma, eu fico com outra… - e entregou-lhe um lápis.
O marido ficou a observá-la, perplexo.
- E… o que queres tu que eu faça com esta folha de papel, pode saber-se?
- Vamos jogar… aos desejos. Quero que tu escrevas aí uma lista de desejos.
João pestanejou, ainda sem perceber muito bem a situação.
- Uma lista de desejos? Dos meus desejos, é isso? Coisas que eu gostaria de te oferecer, ou algo assim?
- Não, não… o contrário. Coisas que tu penses que eu gostaria de receber… coisas que eu desejasse…
Ele riu-se com vontade. Desejos? O que ele gostaria de lhe oferecer, seria … tanta coisa. Mas aparentemente, não era isso que a sua Maria gostaria de saber. Maria pretendia que ele adivinhasse quais seriam os seus – dela – desejos… ou seja, tinha que pensar um pouco.
- E suponho que tu irás fazer o mesmo, não é assim? – e João ia apontando para a folha de papel branco nas mãos de Maria.
- Isso mesmo…
Muito bem. Se era isso que Maria desejava, então mãos à obra.
Fez-se novamente silêncio.
Maria escreveu qualquer coisa curta e depois ficou a olhar para a folha de papel, pensativa. João escrevia furiosamente várias linhas, inspirado. De vez em quando, lançava-lhe um olhar de soslaio, para lhe interrogar o olhar, mas ela continuava absorta, olhando para a folha de papel quase vazia.
Uns bons minutos depois, o marido deu por terminada a sua lista.
- Acabei – exclamou, triunfante. – E tu, já tens a tua lista ?
- Também já terminei…
- E agora, o que fazemos ? Trocamos os papelinhos, é isso ?
- Pode ser…
- Não… vamos fazer um de cada vez…. E como as senhoras são sempre primeiro… toma, lê o meu… - e esticou-lhe a sua folha de papel.
Ela colocou a sua folha de papel sobre a mesa e pegou na dele.
- Queres que leia em voz alta ?
- Sim, por favor… pode ser que me tenha esquecido de algo…
Ela desdobrou a folha de papel, como se de uma carta de amor se tratasse e começou a ler.
- … Uma casa nova… aquele vestido azul comprido que vimos na montra daquela loja… o perfume – não se lembrava do nome – que é vendido naquele frasco com a forma de um cisne…
A lista prolongava-se por quase vinte items…
Quando a terminou, ela lançou-lhe um olhar carinhoso.
- Gostei muito…
João sentiu-se de repente bastante melhor consigo mesmo.
- Agora posso ler a tua… vamos a isto… mas eu reparei que escreveste muito pouco… ou seja, deves pensar que eu não tenho desejos, não é? Bonito, bonito …
E desdobrou a folha de papel que Maria escrevera.
 
O ar tornou-se espesso, ou pelo menos pareceu-lhe que sim, porque de repente deixou de conseguir engolir. A garganta atrofiou-se num nó, que não atava nem desatava. Os olhos, habitualmente sorridentes, começaram a arder-lhe e sentiu que a folha de papel lhe estava a tremer nas mãos.
Aproximou mais o papel.
Leu novamente as poucas palavras que Maria escrevera.
E depois, ainda mais uma vez.
 
A folha de papel só continha quatro pequenas palavras.
“ Vais ser Pai. Aceitas? “
publicado por entremares às 12:17
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4 comentários:
De Manzas a 12 de Fevereiro de 2009 às 16:56
Redigi no pulsar
Do meu ser
Uma valiosa
Carta guardada...
O sol não nascerá
Sem que passe por lá
Para a ler,
Ou ela será
Lacrada.

(rss)

Obrigada pela visita
e comentário
Que deixou no meu

Pensamentos

O eterno abraço...

-MANZAS-
De Raquel a 12 de Fevereiro de 2009 às 17:51
Obrigado pelas visitas :)
gostei muito deste texto, prendeu me durante minutos, uma grande forma de dar a boa nova, inicialmente parecia uma discussao, porque sao normalmente assim que elas começam, mas depois surprendeu-me

Beijinhos*
buttercup26.blogspot.com
De BlueShell a 12 de Fevereiro de 2009 às 23:40
O "suspense"...
Gostei da construção das personagens, do ritmo do diálogo, da situação em si.
Uma narrativa cativante, de facto.
Abraço,
BShell
De ana a 13 de Fevereiro de 2009 às 01:56
Vim agradecer sua visita, espero poder contar com ela mais vezes.

beijooo.

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