Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

A casa dos dois espelhos

 

 
Pesadamente, como se um enorme fardo lhe pesasse aos ombros, deixou-se cair sobre o sofá, abatido.
Sentia-se demasiado aborrecido para ler o jornal, ligar a televisão ou suportar os amigos de fim-de-semana; já lhe bastavam os conhecidos de todos os dias, sempre a maça-lo, de roda dele, com minúsculos “Olás” e intermináveis perguntas de curiosidade.
Por tudo isso, morava sózinho.
Sempre achara não precisar de companhia. Aprendera isso de pequeno, desde as brincadeiras de escola onde não entrava, das festas de liceu onde não era convidado, dos bailes onde nunca dançava.
E assim, aos fins-de-semana, terminado o trabalho, ficava invariávelmente só, entregue aos afazeres domésticos ou ao seu hobbie preferido, o xadrez. Conseguia jogar com ele próprio, e até desenvolvera uma simpatia especial pelas peças brancas. Enfim, uma mania como outra qualquer.
Para além do xadrez cuidava do jardim e do aquário. Ambos requeriam bastante atenção; no jardim, as tulipas e as orquideas exigiam-lhe diáriamente a sua presença, pedindo água, abrigo do sol ou vento ... ou simplesmente atenção. Ao aquário, reservava os seus momentos nocturnos, tirando especial prazer na limpeza das pequenas pedras coloridas e da gruta que construira para os seus habitantes – três peixes tropicais, um vermelho, um azul e um peixe-palhaço, o mais colorido de todos.
Uma vez vira um filme de que gostara especialmente, - não se lembrava agora do nome - por sentir o personagem principal bastante semelhante a si próprio. Até as situações vividas na película bem que poderiam ter sido retiradas da sua própria vida...
Mas também raras vezes se deslocava aos cinemas; não gostava de estar na companhia de tantas pessoas e sentia – tinha a certeza – que esse sentimento também era recíproco.
Na sua última ida a uma sala de cinema – precisamente para assistir ao dito filme que tanto o tocara – fizera convergir para a sua pessoa grande parte das atenções.
- Não é mesmo parecido ? – murmuravam uns – Talvez seja até o próprio – sugeriam outros. – Seja como fôr, é preciso muita coragem para se atrever a vir aqui – alvitravam ainda outros.
Fosse como fosse, servira-lhe de lição. O melhor seria, sem dúvida, ficar em casa, sozinho, longe da vista dos curiosos.
Na sua sala, pejada de armários e de estantes vergadas ao peso dos livros, passava grande parte do seu tempo livre; num canto o aquário, noutro a televisão. Ao centro da parede principal, bem por cima da lareira de pedra, um enorme espelho.
Aproximou-se.
Comprara aquele espelho numa feira; era um daqueles espelhos curvos, que distorciam as imagens, transformando os gordos em magros e vice-versa. Aquele, em particular, distorcia dos dois modos, consoante as áreas da imagem; A cabeça poderia resultar muito estreita, o tronco muito largo, as mãos diminutas, as pernas muito largas...
A imagem que o espelho lhe devolveu era dificil de reconhecer.
Na parede oposta da sala, um outro espelho, mais pequeno, emoldurado por uma modesta armação de ferro forjado, ocupava solitário toda a parede.
Desviou-se do primeiro espelho e colocou-se defronte do espelho mais pequeno.
Este devolveu-lhe um corpo mirrado, um crânio enorme e de formas protuberantes, um rosto desfigurado, um olhar inumano e triste, mais triste que qualquer outro olhar...
Num desespero repentino, apanhou uma pequena estatueta da mesa e atirou-a com toda a força contra o espelho, desfazendo-o em minusculos pedaços.
Lembrara-se subitamente do nome do filme que procurara recordar.
O homem elefante.
Sentou-se novamente no sofá da sala, a cabeça disforme enterrada entre as mãos.
Não queria mais espelhos. Espelhos verdadeiros.
Por cima da lareira, o espelho da feira continuava, impávido e sereno, a reflectir todas as imagens.
Distorcidas, revolvidas, imperceptíveis.
O homem elefante ergueu um braço, observando o seu reflexo no espelho.
A imagem distorcida assemelhava-se muito a um vulto indistinto, a erguer uma extremidade.
Sorriu, um sorriso triste.
A partir daquele momento, aquele passaria a ser o seu espelho verdadeiro.
publicado por entremares às 21:44
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1 comentário:
De Kleinexa a 13 de Fevereiro de 2009 às 13:43
Obrigada pelo comentário deixado no porto de abrigo...
Por aqui encontri uma realidade de espelhos nem sempre fácil de aceitar, voltarei.

Beijinhos, poema sublime...

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