Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Liria

 

 

Era uma vez … uma rapariguinha chamada Liria.
Liria vivia numa pequena aldeia, uma das pequenas e insignificantes aldeias do interior, cercada de montes e afastada das principais cidades.
Em Musia – assim se chamava a pequena aldeia – todos os habitantes conheciam a pequena Liria; tratavam-na pelo nome, conheciam a sua familia, o seu passado, conheciam-lhe os amigos e os gostos… enfim, era a “sua” Liria.
E estimavam-na.
A pequena aldeia ficava fora das rotas dos turistas. Para a alcançar, tornava-se necessário percorrer a vintena de quilómetros que a separava da cidade mais próxima, ao longo de uma estrada sinuosa e a precisar de reparações urgentes. Duas vezes por semana, o velho Marques – toda a gente lhe chamava assim, apesar do seu nome ser Manuel José Matias – carregava a sua velha carrinha de mercadorias e fazia-se à estrada, rumo à pequena aldeia de Musia, para vender na praça a sua fruta, as galinhas, alguma batata e  até alguns bolos.
Naquele dia, levava também mais uma encomenda, uma encomenda muito especial.
Como sempre fazia, parou a carrinha junto das traseiras do mercado e lá foi carregando toda a mercadoria para a sua banca de pedra, bem ao lado da zona reservada aos vendedores de fruta.
- Sr. Marques, sr. Marques...
O comerciante não precisou de olhar para trás para identificar quem o chamava assim.
- Liria... onde anda a minha pequenina Liria ?
Liria aproximava-se em passo rápido, a bengala fina a tactear o terreno à sua frente, apesar de conhecer de cor e salteado todas as ruas e recantos da aldeia.
Abraçaram-se efusivamente e ele afagou-lhe os cabelos, encantado.
- Como adivinhaste que eu já tinha chegado ?
Ela riu-se alegremente.
- Julga que que se consegue esconder de mim ? ... Conheço o som de todas as buzinas e de todos os automóveis que aqui passam... não acha que conseguiria reconhecer o seu ?
Ele assentiu com a cabeça, apesar de ela não o ver.
Liria nunca vira a luz do sol. Cega de nascença, abandonada por uma mãe que não chegara a conhecer, fora recolhida pelos avós paternos e trazida para a aldeia. Ali passara toda a sua infância, rodeada de uma enorme família de vizinhos e amigos para quem Liria se transformara na menina, na filha da aldeia. Agora, com quase onze anos, em breve passaria a deslocar-se todos os dias até à cidade, frequentar a escola dos grandes – como ela gostava de dizer – acompanhada do Roberto e da Maria, as outras duas crianças da aldeia.
Mas Liria possuia ainda uma outra característica, que a tornava ainda mais única na aldeia.
Liria tocava harpa.
Aprendera sózinha, a partir dos rudimentos que a professora Rosário – que saudades – lhe conseguira transmitir.
A professora Rosário, já falecida, dera-lhe a sua harpa, teria Liria aí uns três anitos. Usara-a para acalmar as crianças, nos tempos idos em, sendo a professora primária de Musia, não existia ainda a televisão, os computadores ou as novidades tecnológicas que nos dias de hoje, as crianças já possuem.
- Lembrou-se do meu pedido ? – quis ela saber, curiosa.
- Ora, ora... e alguma vez eu me poderia esquecer dos pedidos da minha princesa ?
E pegando numa pequena caixa de cartão, aninhada entre as embalagens dos ovos, colocou-lha nas mãos ansiosas.
 - Aqui a tens...
Ele deu-lhe um beijo apressado, guardou o seu pequeno tesouro no bolso da saia e rumou a casa.
- Não se vai embora sem se despedir de mim, pois não ? – gritou.
Ele continuou a arrumar a mercadoria, enquanto a via afastar-se.
- Claro que não... eu toco a buzina, antes de partir...
Ela já desaparecera, algures por detras do mercado.
 
Com impaciência, rasgou o embrulho que o velho Marques lhe entregara. No seu interior, um outra caixa, mais pequena. Abriu-a e retirou um longo fio escuro, enrolado em torno de um pequeno cilindro de madeira. Pegou na sua harpa e meticulosamente, retirou a corda partida e substituiu-a pela nova, aquela que o velho comerciante lhe acabara de entregar.
 
Sentou-se, ajeitou a pesada harpa contra o corpo e passou os dedos por entre as cordas. Um som cristalino fez-se ouvir, sobrepondo-se a todos os outros.
Liria improvisou. As suas mãos percorriam as cordas, os dedos num compasso ritmado, subindo e descendo, tacteando os longos fios como se de uma dança se tratasse, enquanto uma música eterea se assenhorava do espaço e coloria o silêncio da velha casa.
Quando tocava... Liria via.
Sem nunca ver, via os sons que se desprendiam da harpa, formando imagens, palavras e estrofes que sossegavam o espírito e embalavam o corpo...
A música surgiu, espontânea, imprevisivel como a aurora, muito azul.
Liria tocava... e Liria via.
Enquanto a musica ia preenchendo os recantos da escuridão, o velho Marques deteve-se.
Pousou a última cesta de fruta e deixou-se ficar ali, imóvel.
Era impossível, dada a distância, ouvir o que quer que fosse, mas sentiu de repente uma música inundar-lhe o espírito, os sons da harpa... e, sem ver, conseguiu ver a pequenina Liria a tocar, na escuridão de uma sala vazia...
Um som cristalino percorreu a aldeia, baixinho.
Liria tocava...
Sorriu.
Por vezes, a felicidade surgia em coisas tão pequenas... 
publicado por entremares às 21:41
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3 comentários:
De bento a 11 de Fevereiro de 2009 às 01:36
aQUI SABE-SE CONTAR UMA BOA HISTORIA!
De Professorinha a 11 de Fevereiro de 2009 às 18:29
Eu gosto tanto de ler as histórias que aqui escreves...

Beijos
De entremares a 11 de Fevereiro de 2009 às 21:45
Obrigado a todos...
Todos precisamos de fantasia... e às vezes, a fantasiar, lá vamos contando ... umas verdades.

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