Sábado, 14 de Novembro de 2009
Memórias de um quarto vazio

 

 

 

"As horas morrem, assim de repente

E eu morro com elas.

Trocava a glória, o beijo da eternidade

Pela paz dos anónimos, pela felicidade,

Um jantar à luz das velas

Um leito desfeito, um amor presente."

 

 

O prefácio, como todos os outros da sua já longa lista de obras publicadas, fora escrito pela sua amiga Joana, na forma de um poema.

"Memórias de um quarto vazio" - assim se chamava aquela punhado de páginas, com uma capa carmim, exibindo uma peça de roupa abandonada no chão atapetado de um quarto de hotel; um punhado de folhas na forma de um romance, retratando a vida de uma quase vulgar vendedora de produtos de cosmética, saltitando de hotel em hotel, de cidade em cidade, os seus amores e desamores, a sua procura por uma paz tardia de encontrar.

Eunice, a escritora, também bebia muito da sua personagem, desenhara-a à sua imagem e semelhança, como barro fresco. A vendedora, a irrequieta Sofia, era uma mulher independente e rebelde, que disfarçava a solidão com aquele hábito de nunca conseguir adormecer sozinha, mesmo que a companhia fosse alguém que acabasse de conhecer durante a noite. Ela, Eunice, não era independente mas ainda rebelde. De uma forma que não conseguia definir por completo, sentia que ainda não folheara as páginas mais interessantes da sua vida. E talvez por isso mesmo agora se sentisse mais apressada, mais sôfrega, na ânsia de atingir esse ponto de não retorno, onde tudo mudaria, e quem sabe…. A Eunice do presente voltasse a ser a Eunice que sempre desejara ter sido.

Com um gesto vagaroso, sorveu o café quente da caneca de louça.

O sol de Inverno entrava timidamente pela janela, rasgando os vidros baços e reflectindo-se no tapete branco e na roupa nele despejada de rompante.

Por um momento, imaginou o mesmo sol noutra vidraça, num outro lugar, talvez numa cabana à beira mar, numa casa velha de província, num recanto com um jardim de rosas e malmequeres, um quintal de arvores de fruto, telhados de madeira e quem sabe, uma chaminé para as noites frias de Inverno.

Mas nem isso seria o mais importante.

 

Mais um gole.

Um suspiro e um revolver de lençóis.

Olhou de soslaio por cima do ombro. Ainda dormia.

Tentou desesperadamente lembrar-se do nome dele, mas não conseguiu. Recordava simplesmente que o conhecera durante o jantar, na noite anterior, depois da sessão de autógrafos - o lançamento do novo livro.

 

A solidão - pensou - não era boa companheira. Mas a companhia de ocasião… seria?

 

Pousou a caneca vazia e em silêncio, foi apanhando as peças de roupa atiradas para o chão. O espelho do quarto - enorme, como em todos os quartos de hotel - surpreendeu-a assim, nua e agarrada a um punhado de roupas. Abriu os olhos de espanto.

A sua Sofia, a vendedora de cosméticos, deveria ter aquele aspecto. Imaginara-a assim, também, sem maquilhagem, as primeiras rugas a despontar, o peito a perder a firmeza de outros tempos.

 

- Adeus, Sofia…. - disse finalmente, como se falasse para consigo mesma  - estou farta de viver a tua vida…. Vou voltar a ser Eunice…. 



publicado por entremares às 17:21
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11 comentários:
De Óscarito a 14 de Novembro de 2009 às 17:38
A solidão, que é a companhia de tantos...
Os encontros ocasionais mais acentuam a solidão de quem a vive.
Eu entendo assim!
Abraço/Óscar


De entremares a 14 de Novembro de 2009 às 23:18
Amigo Óscar

Verdade.... a solidão assume muitas formas, contornos e rostos. Este medo da solidão.... é só um deles, não é?

Um grande abraço.


De neli araujo a 14 de Novembro de 2009 às 19:03
Olá, Rolanndo!

Lindo, porém muito triste teu conto!

Há muitas pessoas que não conseguem lidar com a solidão da forma como deveriam...e acabam se enroscando nas tais "companhias de ocasião"...e acabam numa solidão maior ainda...

Esta realidade é que é triste!

Sembre bela e surpreendente a tua forma de retratar uma bela imagem também! Adorei!

beijinhos saudosos,

neli


De entremares a 15 de Novembro de 2009 às 15:56
Oi, Neli...

A solidão tem muitos rostos, muitos quartos vazios, muitas memórias por contar.... e sim, tantas vezes terminam assim, de forma.... ainda mais vazia.

beijos.
Rolando


De MARIA a 14 de Novembro de 2009 às 21:00
Para muitas pessoas , estes são os únicos momentos que têm companhia,,,e neste corre corre,
há cada vez mais personagens como esta.
Uma história cada vez mais actual.

:)) Doce carinho


Rolando não sei o que se passa com meu blog, mas minha filhota diz que consegui aceder hoje da parte de tarde.
Amei sua nova casa, já comprou o vinho, para brindarmos?




De entremares a 15 de Novembro de 2009 às 15:58
Oi, Maria...

Já tenho o vinho....
Sentas-te um pouquinho para um brinde?

Tchim-tchim...

beijos
Rolando


De libel a 14 de Novembro de 2009 às 21:46
A boca já não tem mais o gosto de tutti-frutti. Acordou com o pescoço dorido, dormiu de mau jeito. A almofada amassada na cabeceira, a de apoio acidentalmente no chão. A cama está vazia.
Marcada e vazia. A cama?...

Os olhos não brilham tanto assim no espelho. O frio na barriga vira uma saudade do que não houve, nunca houve. Olha a parede verde, olha as fotos na parede, se pergunta o que está fazendo ali. Vê a poltrona vermelha e sente algo familiar. Roupas por guardar, roupas para lavar, uma mistura de perfumes em cada uma delas. Lembra.

O relógio apita novamente, redundante. Ela já está de pé. Dormiu? Aperta o off, que horas são. Aonde vai hoje, fará o quê. Almoçará correndo. Fome?
Leite, café, pão, sem nada, puro, molhado na caneca vermelha. A cama continua desforrada, a forra como pode, queria ouvir música a essa hora da manhã. Precisa de melodia. Precisa de poesia. As chaves. Sai.

"Em paz eu digo que eu sou
O antigo do que vai adiante
Sem mais eu fico onde estou
Prefiro continuar distante..."

Beijokas Rolando

P.s. Rolando tentei comentar no teu novo blog "entreartes" mas não consegui, escolhi o perfil direitinho (nome/URL)..e quando fazia enviar simplesmente não seguia, o que poderei estar a fazer mal?...No entanto fica aqui a minha intenção de felicitar, pois senti um místico fabuloso nas imagens, vou concerteza acompanhar essa onda de pensamentos. Parabéns.


De Sara a 15 de Novembro de 2009 às 12:21
Por vezes vestimos a pele de certas "personagens" que acabam por nos "dominar" e deixamos de ser nós próprios... mas é bom quando temos a coragem e com um grito bem alto conseguimos romper com a rotina e voltarmos a ser nós próprios!!!

Beijinhos


De Professorinha a 15 de Novembro de 2009 às 14:57
A solidão pode ter muitas formas e assumir muitas consequências... Por acaso nunca assumi outra personagem nas minhas solidões ao longo dos anos...


De Jorge Soares a 15 de Novembro de 2009 às 23:51
Há muitas formas de matar a solidão, a maioria delas só serve para criar mais solidão, numa espiral em que o tempo vai passando e vamos vivendo...só vivendo se aprende a viver... não é?

Abraço e boa semana
Jorge Soares


De Paula Raposo a 16 de Novembro de 2009 às 15:28
Existe um determinado momento em que não somos propriamente o que desejamos. Até que um dia o somos...
Beijos.


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