Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

O girassol imóvel

 

 

Era uma vez um girassol.
Um girassol quase vulgar, idêntico a tantos outros – castanho e amarelo, caule viçoso e erecto, bem equilibrado sobre o solo pedregoso, algures no meio do vale.
À sua volta, uma multidão de outras flores, inclluindo os da sua própria espécie, olhavam-no com um misto de estranheza e desdém, incompreensão até.
Aquele girassol em particular não acompanhava todos os seus iguais naquilo que precisamente os tornava únicos; poder girar, orientar-se para o sol, poder seguir a fonte de luz do nascente ao poente.
Não. Aquele girassol permanecia imóvel, sempre fitando um ponto desconhecido dos céus, alheio à luz do astro rei.
- Mas porque não giras tu com o sol? – questionavam-no sempre.
E ele, empertigado de vaidade, desdobrava-se sempre na mesma resposta.
- Ah, não vale a pena... vocês não percebem? O sol está tão fraquinho hoje... nem compensa o esforço de me mover.... quando chegarem aqueles dias de verão... então talvez me convençam...
E por melhores conselhos que lhe dessem, ninguém o demovia da sua estranha teimosia.
 
O inverno deu lugar à primavera e a primavera preparava-se para receber o verão, os dias corriam frescos e velozes, as papoilas intrometiam-se pelo amarelo dos malmequeres e lilás do alecrim. O campo de girassóis, colorido e viçoso, apresentava aqui e ali algumas clareiras, pejadas de outras flores e, a um canto... um girassol levemente diferente de todos os outros, de caule verde claro, pétalas delicadas e um tufo central castanho mel, de tonalidades muito mais claras que os demais girassóis.
E os vizinhos, da forma costumeira, lá insistiam.
- Então... é hoje que giras, girassol?
E o nosso girassol, sempre empertigado, lá lhes devolvia o mesmo olhar superior de sempre.
- Não... ainda não. Eu mereço um sol grande, um sol completo... não esta amostra insignificante. Esperarei mais alguns dias ainda...
 
Às portas do verão, aquele dia amanheceu sem a habitual brisa fresca das montanhas. O sol, livre de nuvens, brilhava com esplendor sobre o manto verde amarelo dos campos.
A temperatura subia... e subia... e subia...
Os girassóis, incomodados com tal calor, desviaram graciosamente o olhar para o chão.
Todos... todos excepto aquele girassol tão especial que, finalmente, decidira mover-se e girar, acompanhando o astro rei no dia mais quente do ano.
E aquele dia prolongou-se, prolongou-se... em luz e calor... por muito tempo.
Chegara o verão.
 
Na manhã seguinte, ninguém estranhou. Ninguém foi perguntar novamente ao girassol empertigado se ele finalmente se moveria.
A noticia correra célere pelo campo. A meio da tarde, o incauto girassol, sofrego de luz e calor, tombara queimado no chão, para não mais se erguer.
 
Um, dois, talvez três comentários em voz baixa sobre o assunto, não mais. Não valeria a pena. Ano após ano... a história repetia-se.
Os girassóis mais próximos trocaram entre si olhares de entendimento.
 
E o verão continuou, como se nada fosse com ele, abrasador e cheio de luz.

 

 

publicado por entremares às 20:36
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23 comentários:
De GiGi a 5 de Novembro de 2009 às 20:52
Gostei :-)

:-*
De entremares a 6 de Novembro de 2009 às 11:17
Oi, Gigi...

Aceitas um café ?
Está ali ao fundo, serve-te.

Tudo de bom para ti.
Rolando
De DyDa/Flordeliz a 5 de Novembro de 2009 às 22:16
Há sempre uma ovelha (ranhosa) teimosa até nas plantas???
Olha que tu!...
Mataste o Girassol. Mesmo tendo mau feitio era bem jeitoso e merecia castigo, mas nem tanto. Assim ,nem chegou a aprender a lição.
Pronto vamos lá semear mais girassóis e que não sejam "torrões".
De entremares a 6 de Novembro de 2009 às 11:40
Olá, Flordeliz...

Aquele girassol era... como dizer? Sentia-se tão importante que tudo era pouco para ele...

... e portanto, o tudo acabou sendo demais para ele...

Beijos
Rolando
De Jorge Soares a 6 de Novembro de 2009 às 00:11
Curioso, quando comecei a ler o que me veio à cabeça foi "Ser diferente é bom"... afinal, ser diferente por opção, por teimosia, por vaidade... é mau... até para os girassois.

Gostei.

Abraço
Jorge
De entremares a 6 de Novembro de 2009 às 11:41
Amigo Jorge...

Certamente todos nós conhecemos muitos girassóis como este, mas com duas pernas.... não é?

Um abraço.
Rolando
De Sara a 6 de Novembro de 2009 às 04:00
Pois... até nos girassóis á aqueles que "têm a mania"... Só tu Rolando para criares um girassol empertigado ;) Pelo menos o girassol ou os girassóis terao aprendido a sua licao ou nem por isso? Na vida real tb há girassóis empertigados... mas por vezes por mais que se "esturriquem" nao aprendem!

Escrevo-te ás 5h da manha de cá.... vou agora sair para o trabalho!!! Desejo-te um bom dia, a comecar como o meu com um bom cafézinho :)

Beijinhos
De entremares a 6 de Novembro de 2009 às 11:43
Ah, Sara...

Que hora tão madrugadora para começar a trabalhar...

Olha, ao menos aceita um chocolate bem quente para a viagem. E se possivel, que te cruzes com girassóis pelo caminho ( sem ser empertigados )

Beijos
Rolando
De MARIA a 6 de Novembro de 2009 às 08:37
Goste da forma de ser e estar dos girassóis..., gostei deste novo girassol, diferente por opção.

:)) Mágicos Beijjjjjjjjjjjjj

Desejos de bom fim de semana.
De entremares a 6 de Novembro de 2009 às 11:47
Maria...

Ser diferente por opção é sempre bom, reconheço.
Mas na vida real, por vezes.... as opções tem consequências... imprevisiveis.

E depois... é preciso saber lidar com elas. Não achas?

Beijos
Um óptimo fim de semana para ti
Rolando
De MARIA a 6 de Novembro de 2009 às 12:08
Pois é Rolando, cada opção nossa, ou daqueles que ama-mos, assim como de toda a Humanidade, gera consequências, creio eu...,penso que cada acto tem sempre o retorno do mesmo não achas???

Obrigado pelo teu carinho e pelas tuas maravilhosas histórias.

Bom fim de semana por ai.

:)) Mágicos Abraços
De Regina d'Ávila a 6 de Novembro de 2009 às 12:28
Querido Rolando,

Vou te dizer uma verdade ... contrariando todos os comentários, que sei ...são mais sensatos que este meu....mas....
Queria ser assim, como este “teimoso” girassol. Identifiquei-me com ele
Não ser o que todos esperam que eu seja, não ser o que exigem que eu seja, não ter a conduta que esperam...E viver como quero...e aceitar morrer por esta decisão, por escolha própria... por pura opção. Afinal... este belo girassol não importunou ninguém...quis, simplesmente, viver o que achava que merecia...só. Os outros é que se incomodaram.
Talvez a soberba, a arrogância tenham sido exageradas...mas...Ele decidiu, fez e assumiu todas as conseqüências.. Não teria sido uma vida mais prazerosa, mais intensa, mais desejosa? Aguardar o seu dia...Enfim ele teve um objetivo, esperar o “seu sol”...o seu...só o seu. Aquele que o faria feliz, realizado. Aquele que o faria completo. E conseguiu!!!
Como será que foi para ele “este dia”? O dia do “seu sol”? Valeu a espera de toda uma vida? Acredito que sim.

Um lindo sol para você !!!
Mil beijos(oz),
Regina d’Ávila.
De entremares a 6 de Novembro de 2009 às 12:41
Querida Regina...

Que bom que queiras ser uma girassol teimosa, gulosa de sol e ávida de calor.
Que bom que queiras ter o sol completo, brilhante e quente, a aquecer-te as pétalas.

Felizmente, não tens a vaidade empertigada deste pequeno girassol, que simplesmente sentia que nada era suficientemente bom para ele.

Aqui deste lado do mar, sempre se contou uma frase de uma personagem histórica que, na véspera de uma decisão dificil e de uma revolução disse:

Antes ser rainha por um dia do que princesa por toda a vida...

Muitos beijos(oz)
Rolando
De Najla a 6 de Novembro de 2009 às 16:50
Quantos de nós não somos como esse girassol, tão empertinados, que nos esquecemos de gozar a maravilha de um dia nublado, a beleza de um dia de chuva, à espera sempre, mas sempre de um dia melhor. E com isto, arrastamos as pequenas coisas, como perder 5 minutos com que amamos, telefonar só para dizer um "olá"....e tudo porque não vale a pena! E tudo porque esperamos por um dia melhor e porque o que temos não nos merece....pobres que somos! Pobres almas que divagamos e deambulamos por algo irreal, e deixamos que a vida nos corra ao lado, sem sequer lhe olhar e apreciar a sua beleza!
De entremares a 7 de Novembro de 2009 às 11:44
Najla...

Como é bem verdade, tudo o que escreveste.... e como seria fácil, parar para pensar um pouco que as coisas grandes são todas construidas com com coisas pequenas... às quais é preciso dar atenção...

Percebo bem isso...

Um óptimo fim de semana para ti.
Rolando
De Lis a 6 de Novembro de 2009 às 19:04
O meu fuso horário não combina muito com o de Elvas, quando chego aqui todos já comentaram e receberam suas preciosas respostinhas e eu , tenho a sensação de estar atrasada, as vezes até perco a tal maravilhosa fala do autor.
Hioje nao sei , tentei adiantar, com o horario de verão, o sol ainda está brilhando e forte pra caramba, o maior calor do ano! e naturalmente aí já anoiteceu e deve correr aquela brisa do outono, nao?
E. quanto aos girassoís eles podem tudo, sao grandes, altos, imponentes e tentam alcançar o sol,, só um menos arrogante se dignou só apreciar o que estava ao seu redor. E naquele dia muito quente , como hoje no Brasil, aquele girassol conseguiu reparar quão grande também era o Sol que todos tanto queriam imitar.Só isso. rsrsrs
Ih,Rolando acho que delirei um pouco, deixa sair desse seu jardim florido e voltar ao meu sol brasileiro, rsrsrs
muitos abraços
De entremares a 7 de Novembro de 2009 às 11:46
Oi, Lis

É bom quando a gente delira um pouco, como dizes.
Aqui ... os girassóis estão tremendo de frio, vem aí chuva e vento fresco. Mas vou dizer-lhes que o Brasil continua quente e com um sol divino.

Beijos.
Rolando
De DEUSA a 6 de Novembro de 2009 às 19:10
Olaaaaaaaa meu amigo Rolando
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Olaaaaaaaa meu amigo Rolando <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Saudadessssssss</A> <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Ja</A> estou de volta ao Rio De Janeiro <BR>Quanto ao girassol , temperamental é o que tem mais , vagando por aí.... <BR>Sob vários prismas poderemos ve-Lo , até mesmo na sua história <BR>Mas eu quero ver todos ....como simples Girassóis apenas <BR>Tão amarelos e tão alegres , nos encantando SEMPRE ! <BR>Abraço Bem Apertado
De entremares a 7 de Novembro de 2009 às 11:47
Deusaaaa...

Saudades de te ver.
Que esse sol do Rio te plante muitos girassóis na varanda, no jardim. E que haja muito sol para todos eles.

Beijos.
Rolando

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