Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

A rádio pirata

 

 

Sobrepondo-se claramente à voz da locutora embaçada, o outro, o tal locutor dos programas piratas de fim de semana, começou a anunciar a frequência, sempre diferente de dia para dia, em que seria transmitido o próximo programa.
Um pouco surpreso mas imensamente feliz com a nova opção para o que estava a ser um dos programas mais sonolentos da noite, rodei o pequenino botão azul da minha velha telefonia até sintonizar o novo posto, e por ali me deixei ficar.
- Muito boa noite ... – lá ia animando o locutor – ... a rádio pirata em sua casa, a alternativa ideal para as suas noites...
Deixei-o falar, claro. A conversa era sempre a mesma, mas a música era bastante mais sofrível, e não me feria tanto os tímpanos como a anterior.
Após uns minutos iniciais de cuidada atenção, voltei-me de novo para a pilha de testes ainda por corrigir.
- De hoje não passa – e ataquei o primeiro de caneta vermelha em punho, olhos de lince à procura da primeira escorregadela ou conta mal feita.
A rádio pirata estava passando agora uns temas da minha especial preferência e claro, para lá orientei mais umas gramas extras da minha atenção. O locutor, como sempre, pregava a apologia das rádios livres, a indepedência em relação a blá-blá-blá... mas isso também não era importante, principalmente quando ele se calava e deixava só a música a correr. Claro que uma vez, lembro-me bem, deve ter ido beber um cafézinho mais prolongado e ficámos todos a ouvir um disco riscado durante uns bons minutos mas enfim, são coisas que acontecem.
Um estalido diferente trouxe-me de volta à realidade.
Algo de muito estranho se estava a passar junto da minha velha telefonia.
Olhei com mais atenção; ou estava a sonhar, ou a quantidade de asneiras do último teste era tanta que o meu pobre cérebro me estava já a pregar a partida.
Nunca ouvira falar de ser possível sair gente – sim, isso mesmo, gente vivinha da silva – do interior de uma velha telefonia.
Mas eram mesmo piratas.
De palmo e meio de tamanho, mas mesmo assim, piratas; de venda no olho, perna de pau e papagaio ao ombro.
Quase conseguia reconhecer o terrível Barba Azul, o terceiro a contar da esquerda...
Aproveitando o meu espanto natural, um deles saltou-me para cima e, desembainhando o seu sabre, encostou-mo ao nariz.
- A bolsa, cavalheiro! E nada de truques, olhe que isto pica mesmo, não é só a bricar...
E para melhor exemplificar, enterrou a lâmina uns milimetros na pobre ponta nasal.
- Ai – protestei, ainda atordoado.
- Era só para ver que eu não estava a brincar... e já agora... dá-me a bolsa ?
Perfeitamente baralhado e confuso com o assalto surrealista, apontei-lhes a minha carteira que repousava incauta sobre a mesa de cabeceira.
Um dos piratas, precisamente aquele que me parecera ser o Barba Azul, foi até lá, e dela retirou as poucas notas que ainda restavam – estamos em fim de mês .
- Mas voçês estão a roubar-me – ainda protestei
O pirata chefe espetou mais uns milimetros o seu sabre no meu nariz e aí achei que um pouquinho de prudência não me ficaria nada mal. Ou seja, calei-me.
Ficou a cobrir a retirada, cómodamente sentado sobre o meu nariz ferido, enquanto os outros se iam agrupando em redor da minha velha telefonia. Quando já lá estavam todos, saltou também e, num segundo, estava junto deles, também.
Ainda de boca aberta, deixei-me ficar deitado, o nariz ainda a doer das duas picadas do pirata chefe.
- Adeus cavalheiro... e até à próxima.
Um após outro, desapareceram todos, tal como haviam surgido; do interior da minha velha telefonia, já quase desconjuntada por anos de experiências não totalmente conseguidas.
Quase a tremer, estiquei a mão e rodei de novo o botão azul que seleccionava os postos emissores, à procura da maravilhosa locutora de voz enfadada e do não menos maravilhoso programa monótono de todas as noites – sim, estava mais que visto que ouvir rádios piratas podia ser um pouquinho perigoso e nada, mesmo nada lucrativo..
- Bolas ... e não é que ainda me ficou a doer o nariz ?
Voltei de novo a minha atenção para a pilha de testes por corrigir.
A caneta vermelha deslizou como que por magia, encostando-se à ponta dos dedos.
Não pude evitar um sorriso.
- Aposto que o próximo vai ter nega, olá se vai...
tags:
publicado por entremares às 00:00
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.BlogGincana


.Fevereiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. O unicórnio branco

. Nascer de novo

. Noites de lua nova

. Perguntas e Respostas

. Roby, o rei leão

. Onde mora o paraíso?

. Sinais

. Um novo destino

. O profeta

. Ele e Ela

. As doze badaladas

. O salto da alma nua

. O rei morreu... Viva o re...

. Blog Gincana - Novembro

. A dúvida humana

.

. João e o Mestre

. Aniversário

. E depois do adeus

. A pimenta do amor

. O que fazer?

. Sem título

. A mulher invisível

. A escolha dos anjos

. Os amantes

. A Dama do Outono

. Um pedido

. Simplesmente Eugénio

. Carmen Miranda

. A decisão

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.Os ouvintes das histórias

online

.links

.as minhas fotos

.Nº de Navegadores

Get a free html hit counter here.

.Google

.Quem navega...

Locations of visitors to this page

.Gazeta dos Blogueiros

Gazeta dos Blogueiros
blogs SAPO

.subscrever feeds