Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

As bolinhas amarelas

 

 

 

A mercearia do senhor Joaquim - bem ao fundo da rua das flores -  resistia, ano após ano, ao avançar do grande comércio, das galerias, dos hiper e dos super-mercados. Por entre as montras envidraçadas das perfumarias, ourivesarias e até algumas lojas de roupa, as estantes de fruta alinhadas no passeio  e os expositores de guloseimas continuavam a dar aquele toque colorido à rua que já perdera os canteiros de flores que lhe tinham dado à luz o nome.

O senhor Joaquim, claro, era ele próprio uma relíquia, uma daquelas personagens de tempos idos, sempre empertigado dentro do seu avental, servindo os clientes fiéis com um sorriso genuíno, que acompanhava com o seu cumprimento habitual – “Então ora muito bom dia, minha cara senhora, que prazer me dá a sua inestimável visita”

Os clientes, na sua maioria donas de casa idosas do bairro, entregavam-lhe os destinos culinários das famílias, com a confiança inabalável de muitos anos – Ah, senhor Joaquim.... nem imagino o que vai ser o nosso almoço hoje... olhe... escolha por mim, está bem? Já sabe que o meu marido prefere carne... escolha... escolha qualquer coisa por mim...”

E o senhor Joaquim escolhia, um prato de frango com vegetais para a dona Aurora e o marido, ambos de dieta, um delicioso coelho com arroz de ervilhas para a dona Margarida, sempre protestando contra a carestia de vida, coitada, até umas postas de bacalhau congelado para a menina Ritinha, sempre atarefada na corrida para a universidade.

O senhor Joaquim decidia, estava decidido.

- E tu, meu menino, o que desejas?

O rapazinho largou por momentos a sua adoração a um expositor de barras de chocolate e aproximou-se do balcão.

- Quanto... – hesitou – quanto custa aquela caixa de chocolates... aquela da fita amarela?

O senhor Joaquim deixou-se rir.

- Tens bom olho, rapazinho, tens bom olho... tinhas logo que olhar para a melhor... e mais cara? Olha... eu creio que devem ser uns cinco euros... mais ou menos.

O rapazinho franziu a testa, ultrapassado que estava – e em muito – o seu apertado orçamento.

- E não tem alguns desses bons mas... assim um bocadinho mais baratos?

O senhor Joaquim pôs-se a fazer contas de cabeça.

- Hum... mais baratos? Sim... talvez, talvez... e diz-me lá... quanto pretendes gastar, com os chocolates, no máximo? Quanto dinheiro trazes?

- Setenta e três cêntimos... mas acho que consigo arranjar ate oitenta...

O bom do senhor Joaquim nem sorriu. Sabia perfeitamente os pensamentos que assaltavam o olhar do seu jovem cliente. Então lembrou-se.

- Olha... chocolates de oitenta cêntimos neste momento estão esgotados... mas temos ali uma promoção, de rifas da sorte, cujos prémios são também aqueles palhaços de chocolate que estão naquele expositor – e apontava para o fundo da loja – até pode ser que queiras tentar a sorte... e se tiveres sorte, o chocolate e grátis, nem precisas de pagar nada... o que me dizes?

Os olhos do rapazinho brilharam de excitação – claro, o que tinha ele a perder? Nada.

- Claro que quero... eu sempre tive sorte nas rifas da feira...

O senhor Joaquim desapareceu por instantes e quando voltou, trazia nas mãos um pequeno saquinho de flanela verde.

- Olha... é esta a promoção... não sei se vais acertar ou não... mas se tiveres sorte... estão aqui dentro do saco dez bolinhas... nove pretas e uma branca. Se tiveres sorte e conseguires colocar cá dentro a tua mão e retirar a bolinha branca... podes ir buscar o palhaço de chocolate...

Nem foi preciso explicar segunda vez. O rapazinho avançou resoluto e meteu a mão dentro do saco. Cerrou os dentes num desejo surdo e quando a retirou... trazia entre os dedos um pequeno berlinde de vidro branco.

- É branca – gritou entusiasmado – é branca, é branca... isso quer dizer que ganhei?

O senhor Joaquim olhava para ele, espantado.

- Claro... claro que sim... as regras eram essas... se acertasses... ganhavas o palhaço de chocolate.... podes ir buscá-lo... são aqueles lá ao fundo...

O rapazinho correu célere a resgatar o seu prémio e pouco depois saía para a rua, feliz e contente, saboreando o seu tesouro.

 

- Tu não resistes, pois não?

Virou-se. A mulher, dona Catarina dos Santos, limpando as mãos ao avental, olhava rindo para o marido.

- Ora... que querias tu que eu fizesse? O miúdo só tinha oitenta cêntimos...

Ela aproximou-se, pegou no pequeno saco de flanela e despejou-o sobre o balcão. Imediatamente nove berlindes brancos rolaram sobre o tampo de madeira, tilintando uns contra os outros.

- Pois... mas sabes quel é o problema, meu querido marido, sabes? E que com este teu hábito de encheres o saquinho só com berlindes brancos... eu tenho que estar sempre a refazer os conjuntos dos saquinhos... estamos a ficar sem berlindes brancos, sabias?

Não queres pensar em começar a utilizar outra cor, por exemplo?

O marido devolveu-lhe o mesmo sorriso cúmplice.

- És capaz de ter razão, minha querida... és capaz de ter razão... e que me dizes se passar a colocar cá dentro... amarelos, achas bem?

Ela abanou afirmativamente a cabeça.

- Muito bem, muito bem... passarão então a ser... bolinhas amarelas…

publicado por entremares às 16:39
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16 comentários:
De Paula Raposo a 22 de Outubro de 2009 às 18:00
Que ternura!! Beijinhos.
De entremares a 23 de Outubro de 2009 às 13:14
Olá Paula...

A ternura? Sim, sempre, muita. faz falta.

para tudo, não é?

beijos.
Rolando
De GISLENE a 22 de Outubro de 2009 às 18:38
OLÁ, ROLANDO!
SOUBE QUE ESTÁS FELIZ, ISTO É MUITO BOM...
AGORA O SEU JOAQUIM, COMO VOCÊ MESMO CITOU, É UMA VERDADEIRA RELÍQUIA... É TÃO GOSTOSO QUANDO ENCONTRAMOS PESSOAS ESPECIAIS ASSIM... SABER QUE DE FATO EXISTEM E NÃO SÃO APENAS SONHOS...
LINDO TEXTO!
GENEROSIDADE, É A PALAVRA...
SABE, O QUE PARECE TÃO POUCO PARA ALGUNS, É O QUE BASTA PARA TANTOS OUTROS...
UM GRANDE ABRAÇO,
GISLENE.
De entremares a 23 de Outubro de 2009 às 13:16
Oi, Gislene...

Aquilo que escreveste... como é verdade. A "dose" do que queremos é tão diferente de pessoa para pessoa. Produzimos sub-entendidos, mal-entendidos... às vezes só por desejar as mesmas coisas... em quantidades diferente.

Muitos beijos
Rolando
De Existe um Olhar a 22 de Outubro de 2009 às 19:06
Olá Rolando
Isto é o que eu chamo uma verdadeira dádiva, dar sem esperar nada em troca, neste caso foi um simples chocolate, mas podia ser amizade, carinho, compreensão...bom afinal...foi isso tudo o que o Sr. Joaquim ofereceu.
Tu Rolando, não nos dás chocolates, dás-nos histórias de vida, que nos fazem pensar em verdades e condutas que por vezes esquecemos de pôr em prática.
Beijos
Manu
De entremares a 23 de Outubro de 2009 às 13:17
Ah, Manu...

Como eu gostava que o mundo fosse feito de Joaquims e de palhaços de chocolate...

Gostava que as coisas fossem como eram na infância: simples, sem dúvidas existenciais, coloridas e cheias de sol.

E que persistisse sempre a ternura dos gestos.

Beijos
Rolando
De Jorge Soares a 22 de Outubro de 2009 às 22:00
Que ternura!

O Sr Joaquim deixou-me com um sorriso nos lábios, já não fazem vidas assim Rolando,.... o que vale ao mundo... é que te temos a ti.

Abraço
Jorge
De entremares a 23 de Outubro de 2009 às 13:19
Amigo Jorge...

Aqueles que tens aí em casa e a quem chamas filhos... são a melhor prova de sabes bem... e usas também um saquinho de flanela verde, cheio de berlindes brancos, quem sabe amarelos.

Sei disso.

Um grande abraço.
Rolando
De DyDa/Flordeliz a 23 de Outubro de 2009 às 00:48
Aceitou o repto e saiu-lhe a bolinha branca (o senhor bondoso) sorteada.
Lindo!
Assim até parece fácil fazer e ser feliz...
Na verdade já não há muitos senhores Joaquins (mas há alguns) com lojas destas e estão em extinção os meninos gentis que sabem pedir.
Falo assim porque ainda hoje levei com um "chorrilho de palavrões" porque não dei uma moeda. E esta não seria de certeza para comprar caramelos.
Digo eu!...

P.S.: Desviei-me do tema - desculpa!
De entremares a 23 de Outubro de 2009 às 13:21
Oi, Flordeliz....

Não, não te desviaste do tema... disseste simplesmente que querias com força - tal como eu - que se multiplicassem os senhores Joaquim, que o mundo se enchesse com esses gestos desprendidos e soltos.

Foi isso que disseste. Eu sei.

Beijos
Rolando
De Ana Lucia a 23 de Outubro de 2009 às 01:25
Lindo texto, Rolando! Um sopro de ternura nessa noite quente brasileira!
De entremares a 23 de Outubro de 2009 às 13:23
Oi, Ana Lucia...

Que bom ver-te aqui, à volta da fogueira.
Aceitas por favor um palhaço de chocolate? Estão ali sobre a mesa, ao lado das xicaras de café.

Vai servir-te, vai...

Beijos.
Rolando
De lis a 23 de Outubro de 2009 às 03:56
Oi Rolando
Depois de uma traição , rsrs vem voce com esses lindos tabletes de chocolate a nos diexar com água na boca.
, outra covardia rsrsrs
E já nao se faz mas Joaquins assim ! é possível que chamem a pollícia pra tirar o moleque do estabelecimento!
Bom te-lo aqui, com generosas historias.
Abraços e desculpe a brincadeira braisileira sobre como se sentir traida, rsrsrs
De entremares a 23 de Outubro de 2009 às 13:25
Oi, Lis

Sobre a "traição"... deixas-me subornar-te com um chocolate?

E os Joaquims... espero, espero mesmo com muita força continuar a descobri-los algures por aí, alguns desencantados, outros cansados.

Mas ainda com um brilho nos olhos...

Beijos
Rolando
De libel a 23 de Outubro de 2009 às 09:38
Olá Rolando, mais uma bonita história onde reina a bondade no coração das pessoas, é muito bom ficarmos com esta sensação, apesar de ser apenas uma história.
"Não é preciso que a bondade se mostre; mas sim é preciso que se deixe ver "..

Gostei muito!!

Beijinhos

De entremares a 23 de Outubro de 2009 às 13:27
Oi, Libel...

Ainda bem que escreveste aquilo...
Posso responder-te?

" Aquilo que a mão direita dá... a esquerda não precisa de saber."

Será que concordas?

Beijos
Rolando

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