Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

O tempero secreto...

 

 
A casa de frangos do sr. Januário era – e disso não havia a menor dúvida – a mais afamada da terra; em especial aos fins-de-semana, quando uma romaria de clientes fiéis esperava pacientemente pela sua vez, numa fila de espera que transbordava do pequeno estabelecimento e inundava todo o exterior.
Mas valia a pena – e de que maneira.
Os frangos do sr. Januário tinham qualquer coisa de diferente – para melhor – que os tornava únicos.
E como um estômago contente é publicidade garantida, os frangos do sr. Januário eram tão conhecidos como as bifanas de Vendas Novas, o leitão da Mealhada ou a caldeirada de marisco de Sesimbra.
Eram, simplesmente... únicos.
A D. Alzira, por outros motivos, era também, à sua maneira, única.
Mulher desembaraçada, já na casa dos cinquentas, era conhecida na terra por já ter experimentado todas as profissões, enterrado três maridos e... ter um especial afecto por bebidas espirituosas, fossem brancas, tintas, fermentadas ou destiladas; ou seja, todas.
Para além disso a D. Alzira acumulava ainda as funções, tão típicas das terras pequenas, de alcoviteira, transmissora de boatos, casamenteira e – se fosse preciso – carpideira.
Todos conheciam portanto – uns de longe, outros de vista, outros de bem perto – a D. Alzira.
 
Naquele sábado, necessitava de um franguinho. Com molho.
Habituamente trazia o seu Josué consigo – o quarto e actual marido – mas de há uns dias a esta parte que ele se sentia adoentado da barriga, sem disposição, e pedira-lhe para não a acompanhar, preferia ficar em casa, à lareira.
Esperou pacientemente a sua vez na longa fila de clientes.
- D. Alzira, que prazer em vê-la – cumprimentou afávelmente o sr. Januário – como vai ?
Ela devolveu-lhe o melhor dos sorrisos.
- Januário... cá vamos indo, cá vamos indo... – e ia remexendo o porta-moedas – e a propósito, diga-me lá, por acaso não reparou se eu me esqueci cá da mala, do fim-de-semana passado, quando aqui estive da última vez ?
O proprietário do estabelecimento riu-se alegremente.
- Oh, D. Alzira... vocemessê só não se esquece da cabeça porque enfim... – e apontou para a porta do fundo – para falar verdade, ficaram aqui esquecidas um par de coisas nos últimos dias ... guardei-as ali na arrecadação... se quiser ter a maçada de ir verificar... pode ser que alguma delas seja a sua mala...
E apontou novamente a pequena porta da arrecadação, bem ao lado das arcas frigoríficas.
A D. Alzira dirigiu-se à empregada, uma moça nova que pelo sotaque, devia ser emigrante de leste.
- Mónica... hoje preciso só de um franguinho... mas com bastante molho, está bem ? Enquanto o despachas, eu vou então lá dentro, ver se por sorte encontro a minha mala...
E desapareceu pela arrecadação.
 
Meia dúzia de clientes depois, o sr Januário limpou as mãos gordurosas ao avental de xadrez e dirigiu-se também à arrecadação.
A D. Alzira desaparecera da vista. Espreitou os cantos ... e nada. Atrás do móvel dos detergentes, no interior da chaminé que utilizava como depósito, até por baixo da grande secretária de madeira que jazia a um canto, à espera de um tempo vago para uns pequenos reparos... mas não, nem sinal da freguesa Alzira.
Enrugou a testa, preocupado.
A arrecadação só comunicava com dois compartimentos; a zona do balcão, onde atendia os clientes – e donde entrara – e a sala dos temperos, como ele lhe chamava.
- Terei deixado a porta aberta ? – resmungou baixinho
 
A sala dos temperos era expressamente interdita ao pessoal – sem excepção – e o sr. Januário sempre fora bem claro acerca do assunto. Ali, ninguém – nem Deus – podia entrar; aquele era o seu santuário, o local onde misturava os ingredientes do seu tempero secreto, que tanta fama lhe granjeara ... e aos seus frangos.
Por mais que uma vez despedira funcionários curiosos – apanhara inclusivamente um rapazito novo que veio a descobrir depois ser um sobrinho do dono da churrascaria do Amândio, o seu maior rival no negócio.
O segredo do tempero – e o sr. Januário inchava-se sempre quando lhe perguntavam isto – o segredo do tempero nunca o revelaria a ninguém... era uma coisa que ele haveria de levar para o túmulo...
 
Olhou em direcção à porta e o seu coração sobressaltou-se. Estava entreaberta.
Sem pensar duas vezes, irrompeu por ali adiante, temendo no que iria encontrar.
Infelizmente, a realidade ultrapassava os seus maiores receios.
 
Mal transpôs a ombreira estreita da porta, deteve-se.
A sala dos temperos era de reduzidas dimensões , bastante semelhante à arrecadação, mas desprovida de mobiliário. Uma mesa larga, um par de cadeiras e um pequeno armário de parede compunham a decoração austera. O armário ostentava uma colecção de pequenos frascos, de diferentes formas e tamanhos, uns vazios, outros parcialmente cheios de liquidos coloridos. Sobre a mesa, dois grandes boiões, um frasco mais pequeno e alguns panos espalhados, sobre os quais estavam depositadas pequenas pirâmides de pô branco.
A D. Alzira encontrava-se sentada na cadeira, parcialmente debruçada sobre a mesa. Ria convulsivamente, agitando as mãos como se estivesse estado a beber. Algumas peças de roupa tinham sido atiradas para o chão e o rosto, bastante corado, ainda apresentava vestigios brancos, como se tivesse encostado a face a um prato com farinha.
- Januário... Januáriozinho... adoro os teus frangos...
O sr. Januário entrou num crescendo de fúria.
- Oh, mulher desgraçada... o que estiveste tu a fazer ? ... Arruinas-me... arruinas-me...
E a D. Alzira ria – não conseguia parar - ainda com mais vontade, enquanto atirava com gestos trôpegos, mais uma peça de roupa para o chão.
- Januáriozinho... sinto-me tão levezinha... este teu tempero é mesmo... uma ma-ra-vi-lha... anda cá... – e esticava os braços na direcção dele...
Ele desviou-se, tentando apanhar o frasco ainda aberto sobre a mesa.
- Januário... estou um bocadinho... pedrada, não estou ? – Riu ainda uma última vez, antes de tombar sobre a mesa, os braços pendentes, um sorriso que teimava em não desaparecer da face demasiado corada.
- Oh mulher... nem tu imaginas como....
O sr. Januário fechou cuidadosamente o seu frasquinho de pó branco. Aquele sempre fora o seu mais secreto ingrediente, o ingrediente que lhe garantia que os clientes sempre voltariam , viciados no sabor único dos seus frangos.
A D. Alzira... bem, podia dizer-se que a D. Alzira exagerara no tempero...
Sorriu, tentando acalmar-se.
Vagarosamente, pegou no frasco de pó branco e foi colocá-lo no armário, junto dos outros condimentos do seu tempero secreto.
tags:
publicado por entremares às 18:55
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Bruno Fehr a 9 de Fevereiro de 2009 às 05:05
:O

O Januário colocava coca no molho, ahahahahaha
De entremares a 9 de Fevereiro de 2009 às 15:14
É verdade... e eu que adorava aquele molho...

Comentar post

.mais sobre mim

.BlogGincana


.Fevereiro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. O unicórnio branco

. Nascer de novo

. Noites de lua nova

. Perguntas e Respostas

. Roby, o rei leão

. Onde mora o paraíso?

. Sinais

. Um novo destino

. O profeta

. Ele e Ela

. As doze badaladas

. O salto da alma nua

. O rei morreu... Viva o re...

. Blog Gincana - Novembro

. A dúvida humana

.

. João e o Mestre

. Aniversário

. E depois do adeus

. A pimenta do amor

. O que fazer?

. Sem título

. A mulher invisível

. A escolha dos anjos

. Os amantes

. A Dama do Outono

. Um pedido

. Simplesmente Eugénio

. Carmen Miranda

. A decisão

.arquivos

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

.Os ouvintes das histórias

online

.links

.as minhas fotos

.Nº de Navegadores

Get a free html hit counter here.

.Google

.Quem navega...

Locations of visitors to this page

.Gazeta dos Blogueiros

Gazeta dos Blogueiros
blogs SAPO

.subscrever feeds