Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

As dúvidas do senhor Ernesto

 

 

Ainda tentou encontrar uma estação de rádio com musica aceitável... mas sem sucesso.
Invariávelmente... publicidade, tertúlias aborrecidas, anúncios, notícias e mais notícias e claro... desporto, muito desporto. Música... nada.
Desligou o rádio e abriu os vidros. Apesar do calendário indicar Outubro, ninguém diria. Calor, muito calor... daquele calor abafado que prenuncia tempestades, apesar do céu continuar azul e limpo de nuvens.
- Vamos ter um inverno bem seco – dissera o locutor segundos antes. E era verdade.
 
Precisava de se afastar, de deixar que os pensamentos pousassem traquilos, precisava de um tempo para si próprio.
E como em tantas outras situações passadas, pegou no carro e fez-se à estrada, sem destino, simplesmente pelo prazer relaxante que lhe advinha de calcorrear o asfalto da estrada, solitário, só ele e a sua colecção de dúvidas.
Mal saiu da povoação, a primeira surpresa.
Junto da bomba da gasolina, uma jovem de braço esticado, o dedo arrebitado naquela postura inconfudível de quem pede boleia para algum lado.
- Há quanto tempo eu não via alguém a pedir boleia... e esta miúda arrisca muito, que isto hoje em dia... – ainda pensou.
Nunca fora grande adepto de parar e permitir-se à companhia de estranhos, dentro do seu próprio carro. Claro que, enquanto jovem, também pedira boleia... mas os tempos era outros, bem mais tranquilos, nada que se comparasse com os relatos de violência que todos os dias, enchiam os noticiários das televisões.
Apesar de toda esta relutância, parou junto da rapariga.
- Para onde vai? – perguntou-lhe.
- Para Lisboa? Pode deixar-me num sitio qualquer, sempre será uma ajuda...
Algo no aspecto dela – ou até a entoação da voz – lhe fez lembrar a sua filha mais velha. Aquele visual a lembrar as modas hippies dos anos sessenta, os lenços à volta do pescoço, a ganga esboroada e bastante roçada dos jeans, tudo isto numa rapariguinha que não teria mais que vinte anos, talvez nem tanto.
Ela acomodou-se no banco, a mochila aos pés.
- Não é perigoso andares assim à boleia... sózinha?
Ela riu-se, divertida.
- Claro que é... mas eu também não peço boleia a todos...
Foi a vez dele se rir.
- Ah, bom... sinto-me lisongeado... quer isso dizer então... que eu sou assim uma espécie de...
- ... isso, - terminou ela – isso... uma pessoa de confiança.
Ele ficou a olhar para ela de soslaio. Uma miuda simpática, não havia dúvida.
E falava imenso, oh como falava.
Conversaram sobre o tempo, sobre a universidade, sobre a poluição dos mares, sobre os sonhos dela vir a ser uma reputada biologa marinha, sobre a vida em Lisboa, sobre a sua aldeia, lá bem na Beira Interior, nos pais, nos amigos, até falaram dos animais de estimação, quando se aperceberam que ambos nutriam uma especial afeição por canários e periquitos.
E ele também lá lhe foi dizendo que naquele dia, não ia com destino certo, ia simplesmente gozar um pouco a viagem , arejar as ideias, falar consigo próprio.
E, sem se aperceber, quase como se estivesse a falar sózinho, ouviu-se a ele próprio contar aquela desconhecida que tinha a alma dorida.... roída pela suspeita de que a mulher lhe era infiel.
- Eu... não tenho certezas... mas quase, quase que são certezas... ela anda distante, ela não fala... eu tenho quase a certeza de que ela tem um caso... um caso com alguém, só pode ser isso...
Ela ouvia-o atentamente, esboçando aqui e ali um sorriso, abanando a cabeça em concordância, para lhe dizer que sim, que percebia o que ele tentava dizer, mesmo quando nem todas as palavras faziam sentido.
- No outro dia, creio que no domingo... até se arranjou como se fosse para um baile... a que propósito, pergunto eu? A que propósito? Só podia ser para se ir encontrar com o outro, não vejo outro motivo...
Ficaram uns minutos em silêncio, ele afogado nas suas dúvidas, ela roendo um pirolito que retirara de um dos bolsos da mochila.
- Mas olha lá... – e imediatamente colocou a mão sobre os lábios – desculpe, foi sem querer, estou habituada a tratar toda a gente por tu...
Ele riu-se, bem disposto. Começava a gostar mesmo daquela rapariguinha. Tinha um ar rebelde, mas um sorriso que desarmaria qualquer pai.
- Não faz mal, deixa estar... a culpa foi minha, nem nos apresentámos. Eu sou o Ernesto. Ernesto da Silva, camionista de profissão, neste momento desempregado. E tu? Qual é o teu nome?
- Júlia... Julia Maria.
- Pronto, Julia... tu até pareces uma mocinha simpática... e fico feliz de ter sido eu a apanhar-te na estrada, a sério que fico. Fazes muito boa companhia.
- Mas você... mas tinhas dito que precisavas de estar sózinho... que tinhas vindo arejar as ideias...
- É verdade, e continua a ser verdade. Mas não faz mal. De uma certa maneira, tu até me fazes lembrar a minha filha mais velha... tens até o mesmo gosto para as roupas, parece que voltámos ao passado...
 
Mais uns minutos de silêncio.
 
- Sabes que podes estar enganado, não sabes? – disparou ela, sem aviso.
Ele interrogou-lhe o olhar, mas não obteve respostas.
- Enganado? Como assim... enganado? Não percebo...
- Claro que percebes... estás pensando que ela talvez tenha um caso... mas... e se eu te disser que neste momento... ela sente exactamente o mesmo a teu respeito? Que tu é que tens um caso? Que ela é que se sente como ... a vitima?
- Essa agora... porque dizes isso?
A rapariguinha lançou-lhe um olhar enigmático.
- Ora... porque sim. Porque tu também te arranjas muito bem, nos últimos tempos... até compraste um frasco de perfume, começaste a usar camisas bem mais coloridas do que aquelas que usavas habitualmente... creio que ela até estranha porque motivo agora andas sempre de barba bem aparada, quando antes eras um completo desleixado...
Uma buzinadela de um automóvel ao lado fê-lo desviar o olhar e dar uma guinada ao volante.
Mas a que propósito sabia aquela rapariguinha tantos pormenores da sua vida? Ele não lhe contara nada... absolutamente nada... aliás, tinha a certeza de que nem a mulher reparara no frasco de perfume que ele comprara quinze dias antes... como poderia aquela miuda saber?
Virou-se para o lado, perplexo.
- Olha lá, Julia... mas como é...
 
A frase morreu-lhe a meio nos lábios.
- Júlia?
O banco ao seu lado continuava vazio, tão vazio como estava, quando se sentara dentro do automóvel e ligara a chava na ignição.
Parou o automóvel na berma da estrada, aturdido.
O que se estava a passar? Estava a sonhar? Estivera a sofrer alucinações, durante todo aquele tempo?
Fechou os olhos, confuso e amedrontado. Mil imagens assaltaram-lhe o cérebro, vozes sem nexo, perguntas e respostas cruzadas, imagens do passado, algumas até do presente, de cenas quotidianas, de peripécias, de pequenas alegrias e algumas pequenas tristezas.
 
Súbitamente, teve a certeza de que precisava de fazer algo.
Ligou de novo a chave na ignição e o carro respondeu-lhe com aquele chiar agudo dos pneus, forçados a inverter a direcção.
Precisava de ... respostas.
Todas as dúvidas... precisavam de uma resposta.

 

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publicado por entremares às 15:43
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8 comentários:
De MARIA a 1 de Outubro de 2009 às 16:08
Como sempre Histórias que nos encantam.

Rolando tem um selinho de presente para si na minha casita...........

:)) DOCE CARINHO
De entremares a 1 de Outubro de 2009 às 16:47
Oi, Maria...

Obrigado pela simpatia... e pelo selo. Olhando para todos os nomes dos amigos e amigas que lá colocaste ao lado... só posso ficar honrado.

Senta-te e fica à vontade, está bem?

Beijos
Rolando
De Patrícia B. a 1 de Outubro de 2009 às 22:46
O que falta ao Ernesto falta-nos também a nós muitas vezes... olharmos à nossa volta, pensar com olhos de quem vê de fora. Cometemos erros irremediáveis por achar que o mais fácil é culpabilizar os outros, quando também nós criámos o problema, também temos parte da culpa.

É bom que lutemos sempre 'plas relações, saibamos dar o braço a torcer, correr atrás da pessoa que amamos, pedir desculpa e dizer que "és a mulher da minha vida; és a minha vida" =)

Bejinho
De entremares a 2 de Outubro de 2009 às 08:36
Oi, Patricia...

Sabes? Os mal entendidos... e os sub entendidos... são o verdadeiro cancro das relações, acho eu.

Beijos.
Rolando
De Concha_Conceição a 2 de Outubro de 2009 às 01:52
Sonhar a viver...
Acordando as memórias... pelas quais nada se fez.
Muitos Ernestos há nesta vida.
Um abraço.
Gosto muito de passar por cá.
De entremares a 2 de Outubro de 2009 às 08:38
Oi, Concha.

Tens razão, há muitos Ernestos nesta vida...

Mas o que eu gostava mesmo.... É QUE TODOS TIVESSEM A FELICIDADE DE DAR BOLEIA A UMA JÚLIA, UMA VEZ NA VIDA...

Beijos
Rolando
De Existe um Olhar a 2 de Outubro de 2009 às 11:36
Olá Rolando
Depois de ler esta história, fiquei a pensar que há por aí muita gente que deveria dar boleia á Júlia.
Beijos
Manu
De Marina. a 3 de Outubro de 2009 às 02:11
Nossos melhores conselhos, às vezes, são dados por nossa própria consciência.

bjo, bjo, bjo...

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