Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

A inspiração

 

 

" E então… agarrou-a com ímpeto e puxou-a…"
 
Não, nem pensar. Aquilo nem parecia uma declaração de amor, quase mais uma agressão na fila do supermercado. Não.
" Olhou para ela e os seus olhos faiscaram aquele brilho que…"
Hum… não, definitivamente… muito selvagem, sem duvida. Nada romântico.
Recostou-se na poltrona, em desespero.
Vazia, vazia, vazia. Nem uma ideia pequenina. Uma simples frase para rematar com chave de ouro a introdução do primeiro capítulo, na cena em que o personagem masculino se deveria declarar à sua amada.
Levantou-se, esticou os braços, bebeu dois goles de água. Bem à sua frente, o cursor continuava a piscar, irritante, a meio da linha inacabada.
Não lhe parecia muito correcto que a inspiração lhe fugisse assim, sem prévio aviso… e ainda por cima numa fase tão crítica, no final do primeiro capítulo. Mas a verdade é que, a cada nova tentativa, as palavras lhe soavam mais ocas, cheias de conteúdo mas … vazias de emoção, vazias de sentimento.
A sua personagem acabara de encontrar o amor da sua vida… e logo agora, que os tinha junto aos dois, num cenário idílico, no hall de entrada de um hotel de conto de fadas… o que deveria ele dizer-lhe? Por favor, por favor, só uma frase, uma frase inspirada… necessitava urgentemente de uma frase inspirada.
Mas… nada.
O nosso escritor sentia-se… insípido - isso mesmo, descobrira o termo certo para descrever aquele estado de espírito quase amorfo, em que queria vivamente expressar algo… e sentia que estava a retirar as palavras do recipiente errado.
 
" Foi então que decidiu, de uma forma viril…"
Não. Última tentativa.
Não valia a pena insistir.
Fechou o documento, encerrou o computador, acabou de berber a água. O pequeno portátil que comprara no natal anterior era - tinha que o reconhecer - bastante útil, principalmente fora de casa, quando se sentava calmamente a ler as noticias, a colocar os mails em dia ou simplesmente deixava um CD de música a tocar. Mas escrever os seus romances ali… começava a afigurar-se cada vez mais difícil. Ou então… era só uma questão de velhos hábitos.
 
- E porque não? - resmungou para consigo próprio.
Desligou as fichas e deslocou o portátil da mesa, pousando-o sobre uma cadeira. Depois rumou ao canto oposto do escritório, abriu um dos grandes armários embutidos na parede e, de entre a confusão de pilhas de livros e papéis, caixas de cartão e uma ventoinha de pé alto, ali esquecida desde o verão, apanhou um estojo de cabedal rígido, pouco maior que a mala de transporte do seu portátil.
Levou o embrulho até à mesa e do seu interior retirou um velho exemplar de uma Remington cor-de-rosa, um modelo dos anos cinquentamãe, ela própria também poetisa nas horas vagas.
Com um sorriso nos lábios, entalou uma folha de papel entre os rolos da máquina. Esta respondeu-lhe com o tradicional "clique-clique-clique", o verdadeiro som metálico dos rodízios e carretos em movimento.
Experimentou as teclas.
Ah… que saudades daquela sensação, poder sentir o peso das letras, conseguir observar o movimento dos travessões a elevarem-se e a marcar, de forma bem sonora, a sua letra bem tingida sobre a superfície branca do papel.
 
" Olhou para ela e sentiu-lhe a urgência. Ela debruçava-se sobre as palavras dele e, por um breve instante… teve a certeza de que ela já adivinhara o que ele ainda nem sabia como dizer"
 
 Sem dúvida… melhor, muito melhor.
Esqueceu as horas e aquele programa de televisão, que tanto gostava de assistir.
E por um bom punhado de momentos, o silêncio do escritório encheu-se com o ruído compassado das teclas, à medida que as palavras iam dando lugar às frases e, sem querer, o segundo capítulo ia surgindo… assim, devagar, ao ritmo próprio da velhinha Remington cor-de-rosa…

 

 

publicado por entremares às 10:29
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31 comentários:
De Najla a 30 de Setembro de 2009 às 12:28
Como eu entendo o teu personagem...eu, em muitos textos só consigo dar-lhe "um final", a escrever numa folha.

Tenho saudades de escrever à máquina, sem dúvida...e a tua imagem ainda me deixou mais saudosa!

Um beijo
De entremares a 30 de Setembro de 2009 às 14:05
Oi, Najla

Olha... eu sou daqueles que adora passar os dedos pela folha de papel, sentir a caneta a escrever... tem outro encanto.
Nunca tive uma máquina cor-de-rosa...

:)

Beijos
Rolando
De Jorge Soares a 30 de Setembro de 2009 às 13:23
Não... eu não tenho saudades... nunca passei dos trabalhos para a escola... mas mesmo assim, não tenho saudades... tenho marcado na memória aquele dia em que tive que escrever 4 vezes a mesma página porque me enganei 3 vezes a escrever a mesma frase no penúltimo paragrafo.... há coisas que nos marcam... Nada como um computador, um processador de texto e um corretor ortográfico... por muito que isso contribua para a nossa preguiça mental.

Manias minhas.
Abraço
Jorge
De entremares a 30 de Setembro de 2009 às 14:06
Viva, Jorge.

Não são manias... percebo o que dizes. Só estás a ser prático, racional. Lógico.

Um abraço.
Rolando
De Deusa a 30 de Setembro de 2009 às 13:40
Verdade meu amigo
Somos do tempo das maquinas antigas. (( rsrs ))
Motivo de riso dos jovens ....sabes disso....rsrssr
A geração nova ja acorda com o computador nas mãos .
Minha neta , antes de escrever ja mexia no pc .
Vc me fez recordar tanta coisa ...nem atenção ao conto eu dei ...
Mas sua intenção deve ter isso essa , dentre tantas outras
Um abraço meu querido
De entremares a 30 de Setembro de 2009 às 14:09
Olá, Deusa...

É verdade, ainda nos lembramos de outras maneiras de escrever, antes dos computadores. E é verdade que assim também damos oportunidade à imaginação para ir contando os nossos contos, os contos de cada um...

Não tiveste nenhuma máquina cor-de-rosa, pois não?

Beijos
Rolando
De Deusa a 30 de Setembro de 2009 às 14:26
Nada de máquina cor de rosa , escrevia na mão mesmo.
Mas me saía muito bem
Era ótima aluna em Redação.
Sempre cuidei que minhas filhas escrevessem bem a Lingua Portuguesa , sou bem cuidadosa a esse respeito...mas as vezes cometo erros é claro , não os " cabeludos" ...hahahaha
Abraçoooooo
De Maria Augusta a 30 de Setembro de 2009 às 14:22
Rolando, eu até hoje ainda escrevo com caneta sobre o papel. Vou, venho, rabisco, emendo e os textos saem espontaneamente, tem "pé e cabeça" coerentes...depois não me incomodo de passar tudo para o computador, e em seguida acentuar fazendo "copiar-colar"...pois no teclado francês só o "e" recebe acento agudo!
Gostaria mais uma vez de te agradecer os links para os albuns de fotos da Mongólia, eles são muito belos e interessantes.
Um grande abraço.
De entremares a 30 de Setembro de 2009 às 16:29
Olá, Maria Augusta, não tem nada que agradecer, adorei a sua "Rota da seda".

E quanto às folhas de papel, continuam tendo sempre o seu encanto, não é?

Grande abraço.
Rolando
De libel a 30 de Setembro de 2009 às 14:59
E pronto, almoçei tipo foguete e não resisti à tentação de entrar aqui. Até porque comigo acontece exactamente o mesmo, tem dias que o cursor pisca pisca e nada sai, uma das vantagem das novas tecnologias é que não gastamos papel, rápidamente as poucas linhas, palavras salteadas e sem sentido desaparecem. Por outro lado, quando a inspiração ataca em força, é bem mais prático e rápido desenvolver qualquer tema ou assunto. Até porque a expontâniedade do momento ajuda nesse sentido. No entanto faço questão de ter sempre por perto a folha de papel e a caneta, pois já me aconteceu a meio da noite, surgir uma ideia e deitar fogo à peça, pois tenho quase a certeza que se não o fizesse, ao outro dia....o sentido não seria o mesmo.
Nunca tive uma máquina de escrever, mas se tivesse, seria cor-de-rosa, é deveras inspiradora. Transmite pensamentos leves, doces e suaves.
A escrita, tenho a certeza que se fazia através de um mundo cor-de-rosa.

Beijinhos Rolando...
De entremares a 30 de Setembro de 2009 às 16:31
Olá, Libel...

Eu também nunca tive uma máquina cor-de-rosa, apesar de ter experimentado algumas das outras, batendo as teclas com os tradicionais dois dedos...

Será que, como dizes, o mundo ficaria mesmo cor-de-rosa? Era bom...

Beijos
Rolando
De libel a 30 de Setembro de 2009 às 18:09
Gosto de pensar que sim!!...

Beijinho
De Selena a 30 de Setembro de 2009 às 15:01
Olá Rolando,

Sensacional como consegue nos colocar em mais de um lugar e com sentimentos tão claros ao mesmo tempo. Teu texto é fantástico lembrei de uma máquina de escrever que tive...Gente!! Como isso possível se naquela época eu não escrevia.. rsrsr !!!mas acho que precisava tê-la para hoje entender o que é escrito...gostei muito como conduziu os tempos sem choques brutos por desconhecimento...Perdoe-me mas não tenho propriedade nem autoridade no assunto suficientes para fazer algum comentário que tenha valor ou peso, mas falo conscientemente do que senti ao ler um conto tão lindo.

beijos

De entremares a 30 de Setembro de 2009 às 16:49
Olá, Selena...

Eu é que agradeço, por toda a simpatia. Fico feliz que te tenhas revisto nos tempos passado e presente, como as coisas foram evoluindo... e como algumas permanecem imutáveis.

Talvez que o "Artesanal" contenha em si... a inspiração, quem sabe?

Beijos
Rolando
De georgia aegerter a 30 de Setembro de 2009 às 16:05
Eu tive uma máquina tipo essa mas verde escuro, ela para mim era mágica, era minha companheira, era minha amiga. Muitos dos meus trabalhos para a escola, foi ela quem me ajudou a teclar.
Quando conheci o computador, nao fiquei nada fascinada, nao houve magia, nao houve a mesma ligacao. Com o tempo e a mudanca de país, deixei-a com minha irma que a usa como decoracao em algum canto. Ninguém a usa, está só acumulando poeira...esse seu post me fez lembrar da minha amiga companheira...

Abracos
De entremares a 30 de Setembro de 2009 às 16:52
Oi, Georgia...

Talvez que essa sua companheira, agora um pouco votada ao abandono, também esteja sentindo a sua falta. Talvez ela também tenha saudades das folhas de papel e de ajudar a fazer os trabalhos da escola...

Um grande abraço
Rolando
De georgia aegerter a 30 de Setembro de 2009 às 18:25
hi, já estou longe da escola há muito tempo, rs.

Boa noite!
De georgia aegerter a 30 de Setembro de 2009 às 18:12
hi, já estou longe da escola há muito tempo, rs.

Boa noite!
De lis a 30 de Setembro de 2009 às 17:15
O teclado do PC e a Remington: dois momentos de igual importância nas nossas vidas de "escrivinhadores" ( ?).Gosto ainda de cadernos, agendas, papeis soltos por toda a mesa, anotações , endereços, receitinhas , infinidades de escritos . Lápis eu coleciono, amo lápis , e no trabalho usei muito as maquininhas de escrever , agora o teclado chegou revolucionando ,inovando e é mesmo muito bom . Trabalhos escolares, devaneios, poesias , diários, tudo que quisermos armazenar...
A foto da Remington cor de rosa é nostálgica, muito. E a foto clarinha do teclado , ilumina .
E ,voce Rolando muito bom quando escreve, ilumina também nosso coração.
com meus abraços
.
De entremares a 1 de Outubro de 2009 às 15:45
Olá, Lis.

É verdade que há certos objectos que carregam em si mesmos uma imensa dose de nostalgia. E nesta velha máquina de escrever, reconheço, seduziu-me de imediato... a sua cor.

Um abraço
Rolando
De saltapocinhas a 30 de Setembro de 2009 às 18:44
Cá para mim ideias a sério só de papel e lápis!
De entremares a 1 de Outubro de 2009 às 15:47
Oi, Saltapocinhas...

Pronto, pronto, está bem... mas olha que as ideias a sério às vezes até aparecem escritas nos guardanapos de papel, não é?

Beijos.
Rolando
De diana a 30 de Setembro de 2009 às 20:43
Eu nunca tive máquina de escrever e nunca escrevi em nenhuma. Mas gostava, como eu gostava de experimentar. Deve ser uma sensação maravilhosa.
De entremares a 1 de Outubro de 2009 às 15:48
Oi, Diana.

Olha... é mesmo, é uma sensação excelente. Apesar de que por vezes te irritas ( e muito ) quando te enganas quase no final de uma página e descobres que tens que escrever tudo de novo...

Beijos.
Rolando

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