Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

A noite de Leopoldo

 

 

A vida de um solteiro convicto é caracterizada por três coisas : Liberdade, Independência e Sexo. Não forçosamente por esta ordem, claro, mas isso por agora é secundário.
Esta era a filosofia de vida de Leopoldo, ex-modelo, ex-professor de ténis, ex-guia turístico, ex-relações públicas de uma firma de cosméticos.
Estado actual: Quarentão, bem parecido, guarda roupa de marca, cartão de livre trânsito nos locais mais “in” da noite, automóvel desportivo, apartamento numa zona chique da cidade e um condominio no Algarve, pois então.
Profissão actual ? Herdeiro.
Leopoldo possuia a característica única, nos dias de hoje, de ser o sobrinho amado de três tias, todas elas senhoras de brasões e grandes economias que, já em idade avançada, optaram por falecer em intervalos regulares, abonando o amado sobrinho de várias fortunas consecutivas.
Leopoldo não sofria portanto de problemas finaceiros.
E, como uma coisa às vezes puxa outras coisas, também não padecia de outros males, tão vulgares entre os comuns mortais, como acumular stress por excesso de trabalho, acumular dívidas por excesso de encargos, acumular depressões por excesso de problemas ou insónias por falta de tempo para dormir.
Leopoldo era, portanto, materialmente feliz.
Levava uma vida razoavelmente simples, com meia dúzia de excentricidades para – como ele gostava de repetir – ao menos as pessoas perceberem que ele era rico, senão... onde estava o gozo ? – mas excentricidades que, de um modo geral, não incomodavam nem prejudicavam ninguém.
Usava e abusava de viagens de avião, gostava de assistir às estreias de espectáculos na Broadway e na Place Pigalle e numa dada altura tinha-se dado ao luxo de se inscrever no rally Paris Dakar, apesar de não ter passado da segunda etapa. Enfim...
Em contrapartida, nunca fora apanhado a conduzir fora dos limites, não bebia mais que a conta e mantinha o mesmo rol de amigos de há muitos anos.
O único ponto fraco – sempre o fora – de Leopoldo residia no estômago, que é como quem diz, naquelas pequenas iguarias que têm um prazer de paladar inversamente proporcional às consequências no colestrol, diabetes e outras coisas terríveis.
Para Leopoldo, existia uma palavra mágica : Chocolate
Em especial, umas pequenas bolinhas de chocolate sem recheio, do tamanho de berlindes, a que era em absoluto impossível de resistir.
 
Naquela noite, e como já não acontecia há muito tempo, estava sózinho.
Voltara cedo para o apartamento, estirara-se no sofá de pele a ouvir música e a bebericar qualquer coisa, enquanto mordiscava uma das suas bolinhas de chocolate. Não lhe apetecia ligar a televisão, nem tão-pouco ligar aos amigos com quem combinara encontrar-se para uns jogos de cartas.
Simplesmente, apetecia-lhe ficar ali, no conforto da sua independência, sózinho.
 
Os seus planos, no entanto, iam ser drásticamente alterados.
Três batidas secas na porta. Truz – truz – truz.
 
Leopoldo ainda hesitou. Bem que podia desligar o som, sair da sala e ignorar as pancadas; fosse quem fosse, cansar-se-ia de esperar e ir-se-ia embora. Que voltasse depois, se fosse coisa importante...
Suspirou, resignado.
Levantou-se e foi abrir a porta.
 
Apesar da idade, considerava-se um espírito jovem, aberto, razoavelmente culto e sem grandes preconceitos. No entanto, mal abriu a porta, mudou de ideias.
À sua frente, uma figura encapotada de negro, bastante mais alta que ele, encontrava-se imóvel no corredor. Um dos braços segurava o que parecia ser uma foice num longo cabo e o aspecto geral era – tinha que reconhecer – deveras sinistro.
- Sim ? – perguntou Leopoldo, amavelmente.
A figura não lhe respondeu. Com a mão livre, estendeu-a para ele e flectiu o dedo indicador várias vezes na sua direcção, como se o estivesse a chamar. Igualmente estranho era o facto de o dedo não ser bem um dedo... isto é, era um dedo, mas só o esqueleto de um dedo...
- A que se deve a brincadeira ? Qual deles é que se lembrou ?
A figura permaneceu imóvel.
Passaram-se alguns segundos e Leopoldo achou que já era tempo suficiente.
- Olhe... não quero parecer indelicado... mas estou muito ocupado... Portanto, se me der licença...
Ia fechar a porta quando a figura se moveu. Com um gesto rápido, interpôs a foice entre a parede e a ombreira da porta, impedindo-a de se fechar. Leopoldo deu dois passos atrás, quase atingido pelo movimento.
- ... Eu sou a Morte... – rugiu a figura encapuzada, num som rouco – e está chegada a tua hora...
Com o movimento repentino, o capuz negro descaiu e acabou caindo sobre os ombros, revelando uma caveira esquelética no lugar onde seria suposto estar a cabeça do sinistro visistante.
De repente, Leopoldo deixou em absoluto de achar graça à situação. Engoliu em seco e recuou mais dois passos, enquanto a estranha figura avançava para o interior do apartamento.
- Calma, calma – e ia colocando as mãos à frente – vamos lá a ter um pouco de calma... o que é que está para aí a dizer ? Não está a falar a sério...
A figura avançou mais um passo. A porta do apartamento fechou-se.
- Veja bem... Deve haver um engano qualquer ... como é que isso podia ser ? – e Leopoldo sentiu que a voz lhe estava a começar a tremer – Não estou doente, aliás, até nunca me senti tão bem... não tive nenhum acidente... só pode ser engano...
A Morte ergueu muito lentamente o braço e com a ponta esquelética do dedo, apontou para a taça de vidro sobre a mesa, junto ao sofá, onde repousavam as dezenas de bolinhas de chocolate.
Leopoldo passou a mão pela garganta. Não sabia bem porquê, mas de repente sentiu sede. Ou então era só o nervosismo. Ou o medo. Ou ambas as coisas.
O chocolate ? As suas bolinhas de chocolate ? O que poderia haver de errado com as suas bolinhas de chocolate ?
Com um gesto, a Morte apontou para a janela da varanda, que se abriu suavemente.
- Está na hora... – e continuou a apontar para a janela.
Leopoldo não era o protótipo da coragem. Mas também não se sentia propriamente preparado para abdicar de todos os confortos terrenos e embarcar na grande viagem, principalmente sem certezas da qualidade de vida do além. Afinal de contas... ainda era novo e sempre suposera que as heranças recebidas só fariam sentido se ao menos ele tivesse tempo suficiente para usufruir delas... senão, para quê ser rico ?
Tentou portanto negociar.
- Ora bem, veja lá... será que não podemos chegar aqui a um acordo ? Repare... já viu a minha idade ? Não lhe pareço demasiado jovem para .... – até lhe custava a dizer as palavras - ... para... isso ?
A Morte continuava inflexível.
- Está na hora... – repetiu.
Leopoldo não se deu por vencido.
- Olhe... veja bem... vamos chegar a um acordo, pode ser ? Um acordo que seja bom para ambas as partes, claro ... – sentiu que estava começando a suar – veja bem... porque não fazemos uma troca ?
- Troca ? – a Morte fez um compasso de espera – que troca ?
Leopoldo sentiu que precisava de pensar, e pensar rápido. Ou então bem que se poderia despedir da sua bela vidinha de herdeiro jovem e galã...
- Vejamos... eu ... eu – balbuciou – eu desafio-o para um jogo de dados... Se eu perder, eu vou imediatamente consigo, sem resistir... e ainda lhe ofereço o meu gato e os dois periquitos que tenho ali na cozinha... o que me diz ? Sempre são mais três alminhas, está a ver ?
A Morte parecia estar a pensar.
- E se ganhar ? – quiz saber
Leopoldo tentou o seu tom de voz mais sereno – se eu ganhar ? ... Eu não quero nada... rigorosamente nada... só não quero é que me leve. Se eu ganhar, leva só o meu gato e os meus dois periquitos... Acaba sendo na mesma um bom negócio, sempre leva as três almas e ficamos todos satisfeitos... eu principalmente, claro...
E enquanto falava, correu apressadamente ao móvel da sala onde guardava um conjunto de dados, o tabuleiro e as fichas de poker. Pegou nos dois dados e foi prontamente mostrá-los à Morte.
- Então... vamos a isso ? – desafiou ele, já mais animado.
A Morte acenou afirmativamente com a cabeça, isto é, com a caveira.
- Então vamos lá... eu jogo, você joga... o que tirar mais pontos ganha, certo ?
E lançou prontamente os dados, antes que a Morte mudasse de opinião.
2.... 1...
O seu optimismo ruiu. A Morte fez um ruído esquisito, e Leopoldo teve a certeza que ela se estava a rir. E tinha todas as razões para se rir, a danada. Sem esforço nenhum, ia levar quatro alminhas, quando só pensava levar uma.
Os dedos esqueléticos pegaram os dados e deixaram-nos cair sobre a mesa.
1.... 1....
Como ?
Leopoldo saltou de alegria. Como era possível ?
A Morte lançou um rugido e desta vez Leopoldo percebeu que não era propriamente de alegria... mas ... regras são regras, e a Morte perdera. Como tal, ele, Leopoldo, ganhara mais um tempinho de vida, e mesmo sem saber exactamente quanto, todo o tempo que viesse seria muito bem vindo...
- É só um segundo, está bem ? Só um segundo... Vou já buscar os meus bichanos...
 
Naquela noite, o céu estava estrelado e a lua brilhava intensamente, projectando as sombras fortes das árvores e edifícios no chão.
No silêncio nocturno, um gato miou, desconsolado.
Uma figura encapuzada recortou-se das sombras. Segurava uma foice com um braço e um gato na outra mão. Ao ombro, percebiam-se as silhuetas de dois pequenos pássaros.
O gato miou outra vez. 
publicado por entremares às 00:14
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3 comentários:
De Mad a 6 de Fevereiro de 2009 às 09:15
Bolas. Agora que o Leopoldo até e parecia um rapaz simpático, não é que oferece friamente a vida dos seus bichos em troca da dele?! Deus queira que morra de desastre.

Escreves bem. Obrigada pela visita.
De Dina a 6 de Fevereiro de 2009 às 12:40
Esse Leopoldo saiu-me cá um cromo...mas segundo parece ninguém consegue ludibriar a morte...não foi desta mas não sei se escapará da próxima vez.
De Joana a 6 de Fevereiro de 2009 às 12:51
Eugenio de Andrade sim : )
obrigada pela visita !

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