Sábado, 19 de Setembro de 2009

O sonho dos deuses

 

 

Cupido. Filho de Vénus e Marte. Lembram-se dele?
Da mãe herdara a beleza, a doçura do olhar, a meiguice do trato. Do pai, a energia inabalável, a sagacidade, a audácia.
Nascera com a missão de interceder pelos espíritos humanos, ajudando-os a encontrar o rumo das emoções, orientando-os, através de pistas dissimuladas, na busca das almas gémeas.
Era esse o seu destino, a razão última da sua existência. Ajudar os outros – os humanos – a encontrar a felicidade.
Armado de um pequeno arco, disparava setas certeiras sobre os corações desprevenidos, incutindo-lhes pressentimentos, vontades súbitas de reparar em pequenos pormenores, desejos incontroláveis de se dirigirem a determinada pessoa... ou simplesmente adoçando-lhes o olhar, deixando-os com aquelas expressões tão características de quem acabou de colorir o mundo inteiro de cor-de-rosa.
O que ninguém sabia... porque a ninguém importava, era todo o trabalho árduo que se encontrava por detrás de cada uma dessas flechas, de cada uma dessas vitórias do amor.
A ninguém importava toda a procura de Cupido, analisando e perscrutando as profundidades das almas, à procura de semelhanças, de emoções comuns, de pontos de união.
Não.
Os humanos acreditavam simplesmente que uma seta direita ao coração fazia simplesmente... um milagre. Como se ele pudesse fazer milagres...
 
Mais um dia se aproximava do fim.
Cupido descansava, encostado ao tronco de um velho álamo. O arco e as flechas, pousados bem ao seu lado, já haviam realizado muitos sonhos, e também naquele dia, como em todos os outros dias.
Mas Cupido desviou o olhar, subitamente entristecido. Cada vez lhe custava mais pegar no arco, cada vez lhe era mais difícil apontar... e disparar as setas mágicas do amor.
 
Psiqué... a borboleta do mar, era a mais bela das mulheres que alguma vez os seus olhos haviam podido contemplar.
Em sonhos, imaginava-se nos seus braços, revolvendo-lhe de beijos os longos cabelos, entrelaçando as mãos, segurando-a entre as asas e percorrendo os céus, rumo a um paraíso escondido que fosse só deles.
E ali estava ela, longe, rodeada de amigas, colhendo flores no jardim.
Um olhar… só um breve olhar… ao menos um olhar.
 
Ficou a sonhar, de longe.
Não era justo.
Não era justo que as suas flechas só pudessem encontrar a felicidade para os outros. Não era justo que ele próprio não pudesse ser alvo, que ele próprio não pudesse ter a mesma ajuda que concedia aos outros, aos humanos.
Fechou os olhos. Com força.
Não sabia como, nunca aprendera. Mas desejou com todas as forças ser um pouco menos deus, um pouco mais humano…
 
A mão tocou o arco, abandonado sobre as ervas. Sentiu uma estranha sensação, como se algo estivesse bem ali ao seu lado, a espreitá-lo sobre os ombros. Impossível – tinha a certeza de estar sozinho.
 
Ergueu simplesmente o olhar.
Lá bem ao longe, sentiu um brilho nos olhos. Psiqué.
Olhava para ele. Fixamente.
E parecia… não… estava… seria mesmo?... parecia sorrir…

 

publicado por entremares às 10:12
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21 comentários:
De Paula Raposo a 19 de Setembro de 2009 às 12:07
Hoje escreveste um poema lindo!
Beijos.
De entremares a 19 de Setembro de 2009 às 12:10
Olá, Paula, como vais?

Ensolarada? Com céu azul?
Comigo é sempre assim.... céu azul e sol de verão, e só consigo escrever coisas positivas...

Beijos
Rolando
De chica a 19 de Setembro de 2009 às 13:39
Lindo teu poema, bem reflexivo! Beijos e um fim de semana legal por aí!chica
De entremares a 19 de Setembro de 2009 às 22:05
Oi, Chica...

O Cupido agradece a tua "forcinha", e diz que vai tentar arranjar coragem...

Beijos.
Um óptimo fim de semana para ti.
Rolando
De Sara a 19 de Setembro de 2009 às 14:19
Love is in the air... gostei da história! Estarás tu apaixonado ou ainda não encontraste a coragem para abordar a tua "Psiqué"?

Beijinhos, Sara

P.S: Se por acaso encontrares por aí o Cupido assim meio desorientado... diz-lhe que passe por Munique!... ;)
De Sara a 19 de Setembro de 2009 às 14:25
Só mais uma coisinha... quando é respondem ao desafio proposto no meu blog?
De entremares a 19 de Setembro de 2009 às 22:08
Oi Sara...

Tu és terrível, eu tinha mesmo razão...
Só vou responder à segunda parte ( ai, ai, ai )... e sim, já lhe dei indicações, agora só precisas de esperar um pouquinho...

:)

Beijos
Rolando
De neli araujo a 19 de Setembro de 2009 às 14:45
Olá, Rolando!

Que palavras belas, carregadas de sentimento, amigo!

Deixo aqui um poeminha. Variações sobre o mesmo tema, hehehe

Pela fresta
Mal aberta,
Em dose certa
A seta acerta
O coração,
Que aperta...
Muda metas,
Apara arestas
Tropeça nos passos,
E perde o compasso...
Ah...já entendi,
É cupido no pedaço!

neli araujo
2007

Tenha um fim de semana cheio de sol, com esta ótima energia que nos passa!

Uma beijoca,
Neli
De entremares a 19 de Setembro de 2009 às 22:10
Oi Neli...

Ainda não te conhecia nessa altura... nem sei se já "navegavas" pela blogosfera nessa altura... mas adorei o poema.

" Tropeça nos passos
e perde o compasso"

Bolas... e é mesmo...

Beijos
Rolando
De Existe um Olhar a 19 de Setembro de 2009 às 15:21
Olá Rolando

Momento bonito aquele em que o Cupido descobre que com a força do "querer", se consegue o que por vezes parece impossível.
A seta pode errar o alvo, mas um olhar e um sorriso acertarão certamente no coração de quem recebe...tão pouco... dirão alguns...para quem ama é uma dádiva divina..

Beijos
Manu

Ps. Tens que me dizer qual o deus ou a musa que te inspira
De entremares a 19 de Setembro de 2009 às 22:12
Sabes uma coisa, Manu?

Haverá alguma coisa que te escape?

:)

Pois, bem me parecia que não... ( adorei aquela piscadela de olhos do sapo )

Beijos, Manu.
Rolando
De julieta barbosa a 19 de Setembro de 2009 às 18:59
Ah, Rolando, ao lado de todo cupido há sempre uma Psiqué! O problema é que andamos tão distraídos a procurar estrelas, que esquecemos de colher as flores que enfeitam o nosso jardim...
De entremares a 19 de Setembro de 2009 às 22:13
Minha amiga Julieta...

Essa ... deixa-me sem dúvida sem palavras. Mas é verdade, é a mais pura das verdades.

Beijos
Rolando
De Regina d'Ávila a 19 de Setembro de 2009 às 20:24
Olhar ...paixão....e sorria..
Mas...seria uma alegria passageira...não teriam uma história de amor, de vida...
Teriam que se contentar com segundos, minutos...roubados do tempo.
Como sempre... a dura realidade...até para os deuses.

Entretanto...Continuarei torcendo por todos “Psiqué(s) e Cupido(s)” sejam eles deuses ou meros mortais...
Quem sabe um dia ...

Rolando,
Como sempre, um lindo conto,
Doces beijos,
Regina d’Ávila.
De entremares a 19 de Setembro de 2009 às 22:17
Oi, Regina, que bom ver-te...

Sabes... O Cupido e a Psiqué terão pela frente aquilo que quiserem... sejam deuses ou mortais, seja a realidade dura ou fantasiosa...
O futuro só depende deles mesmos, sabes?

E olha que pelo sorriso que estou vendo na expressão dos dois...( já reparaste no olhar deles? )

Beijos.
Rolando
De marta a 19 de Setembro de 2009 às 20:42
Gostei. Gostei especialmente do

"ficou a sonhar, de longe"...

gostei muito.
beijo
De entremares a 19 de Setembro de 2009 às 22:19
Oi, Marta.

O Cupido pareceu-me um pouco infeliz ao inicio, sabes? A sonhar, de longe...

Mas o querer... Ahhh... o tal querer... que tudo consegue...

Beijos
Rolando
De lis a 19 de Setembro de 2009 às 22:16
Quando adolescente gostava de desenhar nos cadernos , os coraçoes flechados .O famoso Cupido - a fazer tremer e provocar todas as sensaçoes . E como era bom sonhar com a felicidade ! e aquela seta significava que o amor tinha nos tocado ,na alma ... só ilusao rsrs
Quem ainda nao foi atingido, assim?
Lindo seu poema de amor.Vou desenhar alguins coraçoes, de novo.
Bom domingo, lindo dia. Abraços
De entremares a 19 de Setembro de 2009 às 22:21
Lis...

Gostava de ler essas entrelinhas, mas elas são tuas, todas tuas.

Não te importas que eu peça ao Cupido para te atirar com mais algumas setas?

Beijos.
Um fim de semana a desenhar corações, é o que te desejo.
Rolando
De Concha-Conceição a 19 de Setembro de 2009 às 22:59
Agradeço a sua visita ao meu cantinho, onde eu, sou eu mesma.
Quero também deixar aqui toda a minha admiração para este lindo poema. A mitologia e a realidade confundem-se, e apresentam-nos a realidade.
Adorei !
Um abraço

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