Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Final de jogo

 

74-77
A assistência levantou-se aos gritos.
77-77
O delírio.
O treinador da equipa visitante pediu tempo de descontos. No campo, entraram as majoretes da claque, nos seus uniformes reluzentes de branco, vermelho e azul. A música imediatamente se fez ouvir, irrequieta. O público não tinha autorização para esmorecer.
A equipa da casa chegava assim – com todo o mérito, é verdade – à final do campeonato de basquetebol, e ainda por cima logo contra a formação campeâ em título. O sonho concretizava-se a cada segundo que passava, e o placard gigante pendurado num dos extremos do pavilhão sentenciava : 01:00 , um simples minuto para o final do jogo .
Uma multidão colorida enchia por completo o pavilhão. O ruido, ensurdecedor, misturava os gritos de encorajamento das duas claques e os apoios às duas equipas.
No bancada este, o apoio ia maioritariamente para a equipa visitante, mas nas bancadas oeste e norte, as cores locais eram esmagadoras.
O árbitro apitou e os jogadores voltaram às suas posições. O público, esse já não se conseguia sentar...
Numa rápida jogada de contra-ataque, a equipa da casa aproxima-se do cesto do adversário, um passe, uma finta, novo passe, um recuo, um passe final e ... como é possível falhar um cesto daqueles ?
O público gritou em desepero. Tanto mais que os adversários, numa bem estudada resposta, lançaram de imediato a bola em profundidade, um único passe e... cesto, pois claro.
77-79
O placard electrónico acusava agora 00:40 e a equipa da casa encontrava-se a perder.
Mais uma tentativa de resposta, um passe nervoso e ... falta.
O treinador dos locais roia as unhas ou os dedos, num frenesim incontrolável.
- Pelo lado, pelo lado – gritou com toda aforça para os seus jogadores – o que é que eu vos disse ? Pelo lado...
Ninguém o ouviu.
A equipa adversária conseguiu capturar a bola e avançava perigosamente para o cesto; um passe, uma corrida, novo passe – e o placard electrónico, implacável, a acusar 00:20– novo recuo, nova finta ...
- Eles estão a queimar tempo – gritava o treinador desesperado – tirem-lhes a bola, que diabos...
Finalmente, o lançamento...
Por um breve momento, o pavilhão silenciou-se por completo. Depois...
O delírio. A bola errara o seu alvo.
Mas o placard jogava pelos visitantes – 00:05 para o final do jogo – e pouco mais havia a fazer.
Um dos jogadores da casa apanhou a bola do chão e olhou para o placard – era agora ou nunca.
Parou, respirou fundo... e lançou.
 
A bola percorreu vagarosamente todo o campo, sobrevoando os jogadores, enquanto o público seguia o movimento com os olhos, como se de um jogo de ténis se tratasse.
Dois segundos depois, a bola bateu com estrondo nos ferros e saltou, ressaltou, voltou a deslizar... e novamente a circular todo o rebordo do cesto... até se imobilizar.
O apito. – O placard acusava 00:00, fim de jogo – mas ... e a bola ?
Um “ OooH “ gigantesco ecoou no recinto.
Passou um segundo, dois segundos, três segundos e ... a bola continuava imóvel, num equilibrio impossível sobre o rebordo metálico do cesto.
Os jogadores, boquiabertos, continuavam colados ao chão, a alma suspensa daquele pequeno objecto que teimava em não entrar... nem em sair.
No silêncio geral, ninguém reparou num rapazinho dos seus dez ou onze anitos, da bancada oeste, quando este deu um salto na cadeira e gritou:
- Soooprem... Soprem todos...
E para dar o exemplo, soprou com toda a força em direcção ao cesto da equipa visitante.
E a bola caiu.
No cesto.
80-79  
publicado por entremares às 00:16
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1 comentário:
De Professorinha a 5 de Fevereiro de 2009 às 18:46
Ah caramba!!! Emocionante... parece que estava lá a ver tudo!!!

Beijos

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