Domingo, 13 de Setembro de 2009

A menina dos rouxinóis

 

 

Chamava-se Clara. Morava ao fundo da rua, numa casa igual a todas as outras, de paredes amarelas e vidraças embaciadas. Via sózinha e não era muito dada a conversas, apesar da vizinhança ser afável, simpática até.
Todos os dias, encetava a mesma rotina, desde que trocara a pacata aldeia do interior por aquele emprego na cidade, como ajudante de cabaleireira; pequeno almoço a correr, cinco minutos ao longo da avenida até à estação de comboios. Depois, uma sonolenta viagem de meia hora, ainda um outro autocarro. Pela tardinha, o mesmo percurso, em sentido inverso. Ao almoço, talvez um pulo até ao shopping, uma sopa de pé, um hamburger, uma limonada.
Que dia era hoje? Que dia fora ontem?
Por vezes, era-lhe dificil descobrir as diferenças.
Sábado.
Recordou-se súbitamente, era sábado, a sua folga naquela semana.
O pequeno almoço poderia ser, naquele dia, um pouco mais demorado.
Colocou as fatias de pão na torradeira e o café para aquecer. Distraídamente, ligou o rádio, esquecido sobre o frigorífico.
 
( Llovió – Presuntos implicados - http://www.youtube.com/watch?v=lX5j95aMIMk )
 
Sorriu. Há quanto tempo não ouvia aquela musica?
Sem querer, esboçou um solitário passo de dança, deslizando ao longo do fogão, quase indo de encontro à pequena mesa de refeições.
Abriu a janela.
Uma rajada de ar mais fresco fê-la estremecer. O outono anunciava-se para breve. Mas... que som era aquele?
 
Acercou-se, apoiando-se sobre o aluminio húmido e frio. Pousado sobre um dos ramos mais próximos, uma pequena ave escura, de bico alaranjado, observava-a, sem aparente receio.
- Olá... – murmurou ela, como se falasse consigo própria – és novo por aqui, não és?
A ave emitiu um sonoro chilrear e ela deixou-se rir.
- Já somos dois, pequenino... já somos dois...
O ruído da máquina de café puxou-a de novo para a cozinha. Encheu bem a chávena e levou-a com a torrada para a beira da janela.
A pequena ave ainda lá estava, olhando para ela.
- Toma... queres um pedacinho... é pão ... toma...
E estendeu-lhe a mão, com dois minusculos pedacitos de pão. A ave ainda hesitou mas, para sua surpresa, esvoaçou para junto dela e apanhou a medo um dos pedaços, voltando de seguida para o seu pouso seguro. Em seguida, emitiu uma série de sonoros trinados, como se estivesse a transmitir uma mensagem.
- Não precisas de me agradecer... tens aqui mais um pedacinho...
 
Segundos depois, um novo chilrear. Vinda de alguma árvore vizinha, uma segunda ave veio pousar ao lado da primeira. Trocaram um breve agitar de penas e sem hesitação, a recém chegada apressou-se a ir recolher o segundo pedaçito de pão... na mão ainda estendida de Clara.
- Ora esta... quem me diria...
 
Ficou a vê-los, a debicar mutuamente as penas um do outro.
 
- Olá vizinha...
A voz vinha lá de baixo, da rua. Olhou.
Lá estava ele de novo, o vizinho da porta da frente. Acenava alegremente, como era seu hábito, apesar de na maioria das vezes ela lhe responder com um monossilábico aceno de cabeça e às vezes, nem isso.
Sem se aperceber, deu consigo a responder.
- Bom dia vizinho... já vai para o jogging outra vez?
 
Que horror. Colocou a mão sobre a boca. Acabara de proferir numa única frase mais palavras do que talvez durante todo o tempo que já ali vivia. E aparentemente, o bom do vizinho também reparou nisso.
-Anh... ah, pois, pois... o jogging, claro... olhe, também devia vir, sabe? Faz muito bem à saúde...
 
Ela deixou-se rir. As aves levantaram voo, talvez assustadas pelo súbito quebrar do silêncio.
- Oh, vizinho... é capaz de ter razão... e porque não me convida um dia destes para ir consigo? Quem sabe... pode ser que até lhe apanhe o gosto...

 

publicado por entremares às 12:38
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23 comentários:
De lis a 13 de Setembro de 2009 às 14:02
Hojé está mais comum viver só. E solidão pode ser apenas um estado de espírito, independente de estarmos ou nao acompanhadas, não é? meu perfil lembra o dessa menina Clara, preciso de rouxinois na janela.
Agora, respondendo sobre os adjetivos da minha flor, talvez a serenidade ...
Uma boa tarde ( pelo horário daí), aqui ainda estamos acordando rsrsrs
Ontem ,perdi os bolinhos,pena!
Abraços do Rio de Janeiro.
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 14:48
Oi, Lis...( serenidade)

Tens razão... hoje viver só é cada vez mais normal... mas às vezes... não é verdade que existem vizinhos, e a gente nem repara?

Beijos
Rolando
De Sara a 13 de Setembro de 2009 às 14:42
È o mal da sociedade actual... vivemos todos em grandes cidades, em prédios enormes, com inúmeros vizinhos... e conhecemos verdadeiramente? Ninguém...
A solidão é um mal actual :( o que vale é que se vão criando boas amizades virtuais e que por vezes nos transmitem muita alegria e calor á vida!!!
Beijinhos

P.S: por vezes também falo com os passaritos que me "acompanham" enquanto vou para o trabalho ;) e por vezes eles também respondem com os seus trinados :)
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 14:52
Oi, Sara...

Como é essa tua cozinha? Também tem vidraças embaciadas e rouxinóis a pousar nas árvores? Ou os vizinhos são só aqueles "Herr" e "Fraulein". ( se estiver a dizer asneiras, corrige-me) que nem se falam uns aos outros?

Calor à vida? Sempre...

Beijos
Rolando
De Sara a 13 de Setembro de 2009 às 14:55
Correctíssimo ;) Herr und Frau, pois Fraulein é menina ;)
De Ana Lucia a 13 de Setembro de 2009 às 15:51
Um texto que nos faz pensar.. assim como todos os que você escreve! Obrigada pela visita ao meu blog! Sempre gostei muito de Fernão Capelo Gaivota e acho que aquele pedaço de texto que postou por lá significa muito para a menina que eu já fui.
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 18:30
Oi, Ana Lucia.

É... todos temos um pedacinho daquilo, creio...

Um óptimo domingo para ti.
De Bia a 13 de Setembro de 2009 às 17:06
Olá, Rolando! A personagem do texto, Clara, é a reprodução da sociedade atual, como já foi falado nos comentários anteriores... fiquei feliz com a possibilidade de abertura que ela teve ao falar um pouco mais com o vizinho, algo que até a envergonhou inicialmente, mas pode abrir portas necessárias para a interação...

Bom domingo, e um grande abraço!
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 18:31
Olá, Bia...

A Clara vive sózinha, e sózinha em muitos sentidos, por falta de tempo, por falta de vontade, por falta do primeiro empurrão, creio...

Um bom domingo para ti
Rolando
De mfc a 13 de Setembro de 2009 às 17:46
As coisas simples da vida, incluindo estes pequenos diálogos, deixam-nos com um sorriso nos lábios.
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 18:32
Oi, Mfc...

As coisas simples da vida são isso mesmo... simples.

Um abraço.
Rolando
De Existe um Olhar a 13 de Setembro de 2009 às 19:25
Olá Rolando
Depois de ler o que escreveste, como sempre muito bem, fui logo ouvir a mesma música da Clara...sabes que não conhecia?
Quebrar rotinas é meio caminho andado para as surpresas acontecerem.

Beijos
Manu
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 19:54
Oi, Manu...

Ainda bem que gostaste da "música da Clara".
A Clara ainda continua a dançar com ela própria, na cozinha do seu apartamento, à espera de decidir abrir-se um pouco ao mundo...

Beijos
Rolando
De Paula Raposo a 13 de Setembro de 2009 às 21:14
Engraçada a tua história. Gostei. Beijos.
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 22:02
Oi, Paula...

Como sempre, fico muito feliz de te ver por aqui...

Beijos.
Rolando
De Maria Emília a 13 de Setembro de 2009 às 21:50
Se prestarmos atenção, o canto de qualquer rouxinol pode quebrar a nossa solidão.
Um grande beijinho,
Maria Emília
De entremares a 13 de Setembro de 2009 às 22:03
Maria Emilia...

Como tens razão... talvez que o silêncio seja mesmo o grande companheiro da solidão... e talvez seja por aí que ela tenha que ser combatida...

Um beijo
Rolando
De Lunna a 13 de Setembro de 2009 às 22:58
Que deliciosa descoberta nessa noite de domingo, fiquei eu a percorrer cada passo, cada movimento... Por um instante, lá estava eu vivenciando como se fosse eu a sentir a solidão que decorava a paisagem. Bravo.
Grata pela possibilidade carissimo...
De entremares a 14 de Setembro de 2009 às 11:52
Olá, Lunna...

Obrigado eu. Pela visita, pela companhia. A solidão da cidade grande existe... e as Claras também... muitas.

Uma óptima semana para ti
Rolando
De Ana Raquel a 14 de Setembro de 2009 às 02:22
Adorei o espaço!Belas palavras,belíssimas!
Sabe que eu acho que os pássaros (se os amamos) fazem com que o bater de suas asas possam trazer outros ares a nossa vida? rs.

Abraços!
De entremares a 14 de Setembro de 2009 às 11:54
Oi, Ana Raquel...

Quem sabe... pode ser que os pássaros já tenham sido outra coisa qualquer, para além de pássaros... e talvez por isso insistam em cantar para nós...

Quem sabe?

Um grande abraço

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